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Podemos Aprender Até Com As Situações Mais Insignificantes

Quem se lembra daquele desenho animado do Pica-pau [1], em que os animais da floresta trabalhavam incansavelmente para abastecer suas despensas e se preparavam para o inverno, enquanto que o Pica-pau, despreocupado, apenas vivia o momento presente, mas sem qualquer responsabilidade?

Entre aquelas criaturas trabalhadoras, a formiga merece destaque. Incansável, workaholic [2], talvez acumuladora compulsiva. O problema é que essa pequena criatura, às vezes, demonstra toda sua eficiência não lá fora, mas no conforto do nosso lar, e, quando percebemos, já estamos repartindo nossa comida com elas.

Aplicamos inseticidas em seus esconderijos, que se mostram ineficientes a longo prazo, descobrimos novos instrumentos de extermínio em massa, como aquele gel que as atrai para o “último banquete”, mas todos esses meios falham no seu objetivo, que é o de expulsá-las da nossa residência.

Até ficamos satisfeitos por um tempo, mas logo vemos uma andando aqui, outra andando ali, e então descobrimos mais uma trilha delas. No final, toda aquela matança fora em vão.

Além de demonstrarmos total descaso pela vida dos outros seres, não paramos para refletir sobre o problema, não atacamos a raiz do problema, que não é a presença delas, mas sim a nossa casa, que não se mantém limpa devido aos nossos hábitos.

O budismo nos ensina que não devemos tirar a vida dos outros seres [3], pelo simples fato de que todas as criaturas desejam viver e lutam pelas suas respectivas vidas, não apenas nós seres humanos.

A seguir, descrevo como o problema com as formigas foi resolvido, sem a necessidade de continuar exterminando-as.

Primeiramente, reconhecemos que o problema não era a presença delas, e sim nossos hábitos, meus e os da minha esposa. Jogávamos frequentemente resíduos de bolos e outros doces na lixeira da cozinha e demorávamos para substituir o lixo; acumulávamos embalagens vazias sobre a pia, para posterior separação e reciclagem, e alguns desses recipientes eram fontes de açúcar; repartíamos bolos sem muita atenção e o farelo caia sobre a bancada e sobre o chão; comíamos sem muita atenção e, novamente, deixávamos resíduos por onde quer que passássemos.

Como parte do plano de contingência, continuei utilizando o inseticida do tipo spray, mas sem aplicar sobre elas ou sobre o esconderijo delas, mas dentro da lixeira, como forma de impedir que continuasse a ser uma fonte de alimentos para as formigas, e, assim, elas não mais retornaram à lixeira.

Passamos a lavar, sem muito desperdício de água, as embalagens vazias sobre a pia para tirar o excesso de açúcar, até que pudessem ser ensacadas e separadas do lixo orgânico. As formigas ainda passeavam sobre a pia, mas apenas para beber água, não mais para se alimentar.

Desenvolvemos o hábito de maior atenção ao manusearmos biscoitos, bolos e outras fontes de açúcar. Dessa forma, a presença das formigas pela casa diminuiu consideravelmente, mas ainda era possível vê-las aqui e ali, até que em determinado dia algo extraordinário aconteceu.

Estava tranquilamente sentado na poltrona da sala quando, de repente, ouço um grito vindo da cozinha e dou um pulo de susto: “AMOR! VENHA VER UMA COISA!”.

Vou até a cozinha e vejo uma trilha com centenas de formigas, ou milhares, em mão única em direção à janela. Nessa trilha, também estavam algumas que pareciam as rainhas, bem maiores que as demais, devidamente protegidas por várias outras em volta, que as escoltavam lentamente pela mesma trilha. Vi também, incontáveis formigas carregando pequenos detritos coloridos – brancos, amarelos, azuis, verdes, vermelhos –, e, só então, pudemos perceber como era o nosso hábito alimentar e o quanto de corantes artificiais ingeríamos.

Em um passado não muito distante, esse seria o momento perfeito para matar todas elas com o inseticida do tipo spray, mas apenas permitimos que elas seguissem o caminho delas, talvez motivados por uma forma rudimentar de compaixão. Enfim, estavam abandonando definitivamente a nossa residência, e, por incrível que pareça, isso não nos trouxe a felicidade tão esperada [4].

Durante esse período de reeducação de hábitos pessoais, foi necessário, primeiramente, identificar a raiz do problema, que não era externa, não era a presença delas, e sim interna, nossa forma desleixada e desatenta de lidar com os alimentos. Também, foi necessária uma boa dose de paciência e tolerância, para convivermos harmoniosamente com as formigas até que elas decidissem abandonar nossa residência, o que, de fato, não sabíamos se iria ocorrer.

Esta é apenas uma pequena demonstração de que podemos extrair sempre algo de positivo até daquelas situações que nos parecem mais insignificantes. Ao invés de fomentarmos a intolerância, buscamos lidar da melhor forma com o problema e resolvê-lo definitivamente, do nosso interior para o exterior.

Assim é a vida, que sempre nos apresenta situações que põem à prova nossa paciência e nossa tolerância [5]. Da mesma forma, sempre temos diversas alternativas para lidar com um único tipo de problema apresentado. Alguns desses meios demandam pouco esforço, mas, por outro lado, não nos trazem a solução definitiva do problema. Outros, em contrapartida, exigem grande esforço, mas nos recompensa com a solução definitiva do problema.

E então, qual dos meios escolheremos para lidar com os problemas?

Notas

[1] Quem nunca assistiu ao desenho animado mencionado e gostaria de vê-lo, ou gostaria de relembrá-lo, se assim o desejar, basta pesquisar na internet pelo título: “Pica-pau – Os Trabalhadores da Floresta”.

[2] Aquele viciado em trabalho; trabalhador compulsivo.

[3] “Não matar seres vivos”, um dos Cinco Preceitos, o mínimo exigido daquele que se considera budista.

[4] Não se pode encontrar a felicidade verdadeira em fatores externos, essa felicidade é precária e passageira. O tema é melhor desenvolvido no seguinte artigo: O Budismo e a Verdadeira Felicidade.

[5] Essa é a Primeira das Quatro Nobres Verdades do budismo: o sofrimento. O simples fato de vivermos neste mundo é suficiente para que sejamos expostos a incontáveis situações que põem à prova nossas virtudes e nos provocam sofrimento.

Última revisão: 26 de junho de 2017.
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Palavras-chave: autoajuda, Buda, budismo, budista, equilíbrio, felicidade, meditação, mente, origem, pensamento, sabedoria, saúde, sociedade, sofrimento, virtude.

Contemplação da Lua

A noite nos oferece um belo objeto de contemplação: a lua.

O brilho da lua nada mais é do que uma ilusão, o reflexo da luz do sol. Ainda assim, essa ilusão é a que nos mantém atentos ao caminho, na escuridão da noite, até o amanhecer do dia, que nos traz a luz verdadeira, e então podemos abandonar a ilusão.

A lua, às vezes, brilha imponente, às vezes, apenas se faz presente. Da mesma forma é o funcionamento da nossa mente, quando serena ou envolta pelos pensamentos.

Enquanto a nuvem de pensamentos se mantém, em vão é o esforço para revelar o brilho verdadeiro da mente. Enquanto a felicidade precária do desejo se mantém, em vão é o esforço para revelar a felicidade verdadeira da mente.

Às vezes utilizamos alguns recursos para nos manter no caminho, mas devemos sempre compreender que chegará um momento em que deveremos abandoná-los também, assim como abrimos mão do brilho da lua, no amanhecer do dia.

Aquele que tendo sido descuidado deixa de o ser, ilumina este mundo como a lua descoberta de nuvens.

Ele, que por boas acções compensa o mal que fez, ilumina este mundo como a lua descoberta de nuvens.

Dhammapada, versos 172 e 173 [1].

Notas

[1] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 68. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 23 de junho de 2017.
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Palavras-chave: autoajuda, Buda, budismo, budista, equilíbrio, felicidade, meditação, mente, origem, pensamento, sabedoria, saúde, sociedade, sofrimento, virtude.

Perguntas Certas, Respostas Necessárias

É o seu primeiro contato com o budismo? Recomendamos começar por aqui: O Que é Necessário Para Se Tornar Um Budista?


Quando iniciamos a leitura de um livro e gostamos da experiência, queremos prosseguir até o último capítulo. Quando vemos um filme que nos agrada, queremos saber o desfecho da trama. Quando temos acesso a determinado conhecimento de nosso interesse, queremos mais e mais respostas.

O Buda, um ser humano extraordinário, tinha resposta para perguntas imagináveis e inimagináveis, não é à toa que era considerado o mestre dos homens e dos devas [1]. Muitas dessas respostas, adquiriu quando de sua perfeita iluminação [2], momento em que pôde investigar suas vidas anteriores, bem como pensamentos e ações passadas. Isso lhe permitiu analisar as consequências de determinado ato e o quanto fora determinante para moldar sua existência posterior, seja na Terra ou em algum dos outros mundos [3].

O tema de vidas passadas é recorrente no budismo. Existem alguns suttas incríveis que nos dão uma pequena amostra desse vastíssimo conhecimento do Buda, que ultrapassava a fronteira dos homens e do próprio planeta Terra.

No Mahapadana Sutta, do Digha Nikaya, o Buda fala de seus antecessores [4]:

Bhikkhus, noventa e um éons atrás, o Abençoado, um arahant, perfeitamente iluminado Buda Vipassi surgiu no mundo. Trinta e um éons atrás, o Buda Sikhi surgiu; nesse mesmo éon, o Buda Vessabhu surgiu. E neste presente éon afortunado, os Budas Kakusandha, Konagamana e Kassapa surgiram no mundo. E, bhikkhus, neste presente éon afortunado, eu surgi no mundo como um um (sic) arahant, perfeitamente iluminado.

Éon é uma medida de tempo e não há um consenso acerca de sua duração. Para determinada religião, corresponde à eternidade, contudo, em astronomia, já foi utilizado como escala de um bilhão de anos [5].

Mais à frente, no mesmo sutta, o Buda revela o tempo de vida de seus antecessores:

Na época do Buda Vipassi o tempo de vida era de oitenta mil anos; na época do Buda Sikhi setenta mil anos; na época do Buda Vessabhu sessenta mil; na época do Buda Kakusandhu quarenta mil; na época do Buda Konagamana trinta mil; na época do Buda Kassapa era de vinte mil anos. Na minha época o tempo de vida é curto, limitado e passageiro: é raro que alguém viva até os cem anos.

Não é fácil compreender um discurso que fala de noventa e um éons passados, período em que o planeta Terra sequer existia, uma vez que o marco inicial do nosso planeta ocorrera há aproximados 4,54 bilhões de anos atrás [6].

Em outro sutta, o Buda é ainda mais específico sobre o tema de vidas passadas ao abordar o kamma – carma [7] e traçar um paralelo entre a conduta praticada e a sua consequência em um retorno posterior [8]:

Os seres são possuidores e herdeiros de suas ações … as ações dividem os seres em superiores e inferiores.
Existe aquele, mulher ou homem, que destrói seres humanos, é cruel, dedicado a machucar e a matar, sem amor pelas coisas vivas. Através de tais ações, realizadas ou por realizar, essa pessoa, na dissolução do seu corpo na morte, irá cair em um estado inferior de existência, num curso de vida maléfico, na perdição ou inferno… ou se renascer como um ser humano, ele terá, não importa onde, uma vida curta.
E ele se move sorrateiramente em suas ações de corpo, fala e pensamento. Sorrateiros são seus trabalhos, palavras e pensamentos, sorrateiros seus caminhos e posses. Mas eu digo a vocês, monges, qualquer um que persegue caminhos e objetos sorrateiros, terá que esperar dois desses resultados: se atormentar no inferno ou nascer entre os animais que se arrastam.
Existe aquele que tem o hábito de causar dor a outros através dos punhos, pedra, pau ou espada. Através de tais ações irá cair num estado inferior… ou se, renascendo como ser humano, ele terá, onde quer que esteja, muitas doenças.
Existe aquele que tem um temperamento esquentado, rapidamente entra na raiva; à menor coisa que lhe é dita ele fica enfurecido, é bravo, teimoso, mostra excitamento, ódio e suspeita. Através de tais ações irá cair num estado inferior … ou se nascer entre os seres humanos terá uma aparência feia.
Existe aquele que é invejoso, cheio de ciúmes e animosidade. Sente inveja do que os outros recebem como presentes, hospitalidade, honra, veneração, respeito salutar, e oferendas. Através de tais ações ou pensamentos ele irá cair num estado inferior… ou, se nascer como um ser humano ele irá, onde quer que seja, possuir somente pouca influência.
Existe aquele que é arrogante e cheio de vaidade. Ele não saúda quem deveria, nem se levanta para quem deveria, nem respeita ou honra os que são devidos, nem dá presentes para os que deveriam receber presentes. Através de tais ações e pensamentos irá cair num estado inferior … ou se renascer como ser humano, ele irá, onde quer que seja, nascer num berço inferior.

Tanto esse último discurso, como aquele primeiro, em que o Buda fala de seus antecessores, são direcionados aos Bhikkhus, monges budistas, que, obviamente, estão mais preparados para compreender os ensinamentos. Ainda assim, esse último, é de fácil compreensão até mesmo para os praticantes budistas leigos, uma vez que contém mera relação de causa e efeito. Contudo, o mesmo não pode ser dito do primeiro discurso, que pode suscitar mais dúvidas do que esclarecimentos.

É importante que conheçamos nossa limitação de entendimento ao buscarmos explicações para todas as nossas dúvidas. O que faremos com a resposta se a obtivermos? Será útil para nossa prática e crescimento pessoal ou nos deixará com ainda mais dúvidas? Nos trará tranquilidade ou fomentará inquietação por não estarmos preparados para compreendê-la?

Para o Buda, existiam quatro tipos de perguntas [9]: aquela que merece uma resposta categórica, direta ao ponto; aquela que merece uma resposta analítica, construída cuidadosamente, com atenção a todos os pontos importantes; aquela que merece uma contra pergunta; e, aquela que merece ser deixada de lado.

Quanto a essa última, o critério utilizado pelo Buda era o de utilidade: qual benefício traria para a prática do discípulo a resposta a determinada pergunta?

Se considerarmos apenas as perguntas que merecem ser respondidas, de acordo com o critério do Buda, ainda assim, podemos nos surpreender com a resposta, por não ser aquilo que esperamos ouvir. Então, também existe o momento adequado para se responder a uma pergunta cuja resposta possa ser desagradável, embora verdadeira e benéfica ao ouvinte.

O Abhaya Sutta, do Majjhima Nikaya trata exatamente desse tema, conforme introdução de Thanissaro Bhikkhu, que resume o teor do ensinamento [10]:

Neste discurso, o Buda mostra os fatores que decidem o que deve ser dito e o que não deve ser dito. Os principais fatores são três: se uma afirmação é verdadeira ou não, se é benéfica ou não e, se é agradável para os outros ou não. O próprio Buda afirmaria somente aquelas coisas que são verdadeiras e benéficas, e tinha uma noção do momento em que coisas agradáveis e desagradáveis deviam ser ditas.

Os temas “vida passada”, “kamma – carma” e “renascimento”, citados em diversos ensinamentos do Buda, são interdependentes e despertam muito interesse do praticante. No entanto, esse interesse pode ser útil para a nossa prática diária, na medida em que compreendemos seu funcionamento e passamos a agir orientando nossa conduta, mas também pode nos levar a questionamentos do tipo “de onde viemos?”, “para onde vamos?”, que são irrelevantes para a nossa caminhada.

O que está feito, está feito, não pode ser modificado, mas podemos equilibrar as nossas ações prejudiciais passadas com as nossas ações benéficas do presente, e, assim, diminuir os efeitos do kamma. Dessa forma, não precisamos nos preocupar com o passado ou com o futuro, basta concentramos no presente momento e vive-lo da forma mais íntegra possível. É o suficiente.

Também, não devemos fomentar uma postura desanimadora ao compreendermos que determinadas situações que enfrentamos são consequências de ações passadas, uma vez que podemos colher os frutos de nossas ações benéficas ainda nesta vida. Há uma passagem que ilustra com profunda sabedoria o funcionamento da lei do kamma [11]:

Os budistas, no entanto, viram que o karma funciona em circuitos múltiplos de feedback, de forma que o momento presente é moldado, tanto por ações do passado, como do próprio presente. Além disso, as ações do presente não são necessariamente determinadas por ações do passado. Em outras palavras, o livre arbítrio existe, ainda que seu alcance seja, até certo ponto, ditado pelo passado. A natureza dessa liberdade é simbolizada por uma imagem usada por esses budistas dos primórdios: água corrente. Algumas vezes, o fluxo do passado é tão forte que pouco pode ser feito além de rapidamente sair da frente; mas também há momentos nos quais o fluxo é tão suave que pode ser desviado para quase toda direção.

Por fim, o próprio Buda define alguns temas que se objetos de suposições, presunções e deduções constantes, podem conduzir à loucura [12]:

Existem esses quatro não conjecturáveis em relação aos quais não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito. Quais quatro?
A extensão búdica dos Budas [ isto é a extensão dos poderes desenvolvidos por um Buda como resultado de tornar-se um Buda] é um não conjecturável sobre o qual não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.
A extensão dos jhanas para uma pessoa que está em jhana [ isto é, a extensão dos poderes que podem ser obtidos enquanto se está absorto em jhana]….
[A maneira precisa como se desenvolvem] os resultados do kamma…
Conjectura acerca [ da origem, etc..] do mundo é um não conjecturável sobre o qual não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.
Esses são os quatro não conjecturáveis em relação aos quais não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.

Que possamos formular as perguntas certas e obter as respostas necessárias, ao alcance de nossa compreensão e em benefício de nossa prática.

[1] “DEVA: (literalmente: Os Radiantes, relativo ao Lat. deus), Seres Celestiais, deidades, celestiais: são seres que moram nos mundos felizes, e que, como regra, são invisíveis aos olhos humanos. Eles estão sujeitos, entretanto, como todos os humanos e outros seres, a repetirem o renascimento, velhice a morte, e, portanto, não estão livres do círculo da existência, e não estão livres da miséria/infelicidade/desventura. Há muitas classes de seres celestiais.“. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 57. Disponível no menu “Biblioteca”. Existem inúmeros suttas em que o Buda é anunciado como “mestre de devas e humanos”. Seguem apenas alguns poucos exemplos: Samanaphala Sutta, do Digha Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN2.php >; Vatthupama Sutta, do Majjhima Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN7.php >; e, Dhajagga Sutta, do Samyutta Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXI.3.php >. Fonte: Acesso ao Insight. Acesso em 17 jun.

[2] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[3] Segundo o budismo, existem diversos mundos de existência. Quatro desses são chamados de mundos inferiores – apaya – e compreendem o inferno, o mundo dos demônios, o mundo dos animais e o mundo dos fantasmas famintos. Também temos o mundo dos humanos e diversos outros mundos superiores com criaturas celestiais em diferentes níveis. É importante ressaltar que a noção de inferno do budismo é diferente daquela apresentada em outras crenças, onde é considerado um castigo eterno para aqueles seres que desviaram do caminho correto. Para o budismo não há permanência eterna em qualquer dos mundos e o inferno é uma forma temporária de equilíbrio do kamma ou carma, que é o produto de nossos pensamentos e de nossas ações, e que determina onde e como renasceremos.

[4] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN14.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[5] Fonte: Wikipedia, The Free Encyclopedia – Aeon. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Aeon >. Acesso em 17 jun. 2017.

[6] Fonte: Wikipedia, The Free Encyclopedia – History of Earth. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Earth#Origin >. Acesso em 17 jun. 2017.

[7] Kamma ou carma, é o produto de nossas ações, saudáveis ou não saudáveis, e um dos fatores determinantes para a condição na qual nos encontramos na presente vida, bem como o orientador para a nossa próxima existência.

[8] RAHULA, Bhante Yogavacara. Cap. III, Karma e Renascimento (ed. eletrônica). p. 12-13. Tradução do livro The Way to Peace and Hapiness. Sri Lanka: Buddhist Cultural Centre, 1997. O sutta citado por Bhante Yogavacara Rahula é o XII, 18, do Samyutta Nikaya, contudo, como não encontrei a tradução para o português, utilizei como referência o próprio livro do autor.

[9] Interpretação a partir do sutta. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIII.67.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[10] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN58.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[11] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 11-12. Disponível no menu “Biblioteca”.

[12] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIV.77.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

Última revisão: 22 de junho de 2017.
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Palavras-chave: autoajuda, Buda, budismo, budista, equilíbrio, felicidade, meditação, mente, origem, pensamento, sabedoria, saúde, sociedade, sofrimento, virtude.

A Tolerância e o Equilíbrio Emocional

Conciliar a vida em sociedade com o controle da mente pode ser uma tarefa árdua. Se fizermos uma pequena pausa para uma retrospectiva do dia, perceberemos que já acordamos contrariados. Nosso desejo era o de permanecer dormindo no conforto da nossa cama, mas o despertador, merecedor desse nome, nos fez despertar para a realidade, a realidade de uma vida repleta de tarefas e responsabilidades.

Nesse vaivém da vida, somos obrigados a aceitar algumas situações que nos provocam sofrimento, e, tendemos a evitar aquelas em que temos essa possibilidade de escolha, sem investigarmos o porquê do desequilíbrio emocional causado por essas situações.

Assim, esforçamo-nos para a manutenção de um ego aparentemente inabalável. Mas, qual o problema em agirmos assim? O sofrimento é uma coisa ruim, certo? Certo. Então, evitando a situação que provoca esse sentimento nossa vida será mais feliz, certo? Não é bem assim.

Quando evitamos uma situação que nos causa desconforto, na verdade, não estamos aprendendo a lidar melhor com ela, não estamos investigando a origem do sofrimento [1]. Conseguimos desviar daquela situação incômoda, mas logo vem outra e em seguida outra, e, quando percebemos, estamos sofrendo antes mesmo delas aparecerem, temos medo de que algo interfira na nossa aparente tranquilidade, na nossa aparente felicidade.

Contudo, o budismo nos ensina que essas situações continuarão surgindo, pois essa é a natureza do mundo [2], e, o sofrimento, não vem acompanhado dessas situações, é provocado pelo nosso eu, pelo nosso ego, na medida em que desejamos algo que não pode ser encontrado neste mundo, a permanência. Desejamos a estabilidade em um mundo instável, desejamos a continuidade em um mundo em que tudo surge, se transforma e desaparece.

Somente quando compreendemos a natureza como ela é [3], damos um passo em direção ao fim do sofrimento e enxergamos aquelas situações indesejáveis, outrora danosas, como fundamentais para exercitarmos nosso entendimento da realidade e desenvolvermos nossa tolerância.

Acho que todos já ouvimos falar desse tipo de pessoa: “fulano é ótima companhia para sair, mas para trabalhar…”. Esse tipo de pessoa, na verdade, é mais comum do que se imagina, talvez sejamos assim, mas nosso ego não nos deixa admitir isso.

Ajahn Chah, um grande mestre do budismo Theravada, dizia algo mais ou menos assim: “se você não consegue meditar na cidade, não vai ser na floresta que vai conseguir” [4]. Significa que, se a pessoa não é capaz de manter a concentração com os barulhos da cidade, não vai ser no aparente silêncio da floresta que ela vai conseguir, uma vez que os barulhos da floresta também irão prejudicar sua concentração, como o do vento, o das folhas caindo, o do estalar das árvores, o dos pássaros, o dos grilos, o dos sapos, etc.

Utilizando os exemplos acima como analogia, se não enfrentarmos as situações que nos causam sofrimento, como iremos aprender a lidar com elas? Como nos livraremos dos seus efeitos se não investigarmos sua origem?

Quando surgir uma dessas situações, devemos, antes de tudo, antes de falar ou agir, permanecer em silêncio e questionar mentalmente: porque estou reagindo dessa forma? Pelo simples fato de fazermos esse questionamento interno, veremos que aquele sentimento desagradável perderá força, pela simples razão de que não há qualquer substancialidade nele, não existe por si só, foi construído na nossa própria mente.

Quando a mente questiona uma construção dela mesma, não há como sustentar algo sem qualquer substancialidade e o incômodo vai, aos poucos, desaparecendo, sem que para isso tenhamos que recorrer a qualquer auxílio externo. A ajuda reside dentro de nós, apenas não compreendemos isso devido a uma vida inteira voltada para o exterior, uma vida inteira de busca por respostas onde elas não podem ser encontradas.

É claro que a paz, a tranquilidade, a felicidade verdadeira, só podem ser percebidas por aquelas pessoas que cultivam estados mentais hábeis [5], em benefício de si próprias e dos outros seres. Não se pode experimentar sentimentos nobres se prejudicamos a nós mesmos e aos outros seres.

Assim, não é fugindo dos problemas que aprenderemos a lidar melhor com eles. Se não aceitamos as situações que a vida nos apresenta, como desenvolveremos nossa tolerância e manteremos nosso equilíbrio emocional? E o que fazer quando necessitarmos da tolerância alheia se não estamos cultivando-a?

As situações consideradas adversas não trazem, por si só, qualquer sentimento de felicidade ou sofrimento. Essa construção ocorre na nossa mente, de acordo com as expectativas que criamos e sem considerarmos que no mundo impera a lei da impermanência, assim como em todo o universo. Todos os fenômenos da natureza, sejam aqueles externos, sejam aqueles que se passam na nossa própria mente, surgem, se transformam e desaparecem.

Se continuarmos a eliminar as situações que nos causam desconforto, na verdade, nos identificaremos cada vez mais com aquela pessoa agradável para os momentos agradáveis, desagradável para os momentos desagradáveis, uma vez que não desenvolveremos habilidades para lidar com as mudanças que fazem parte deste mundo.

Se continuarmos nesse caminho equivocado, até as pequenas coisas serão causadoras de desequilíbrio e desviarão nossa atenção.

Em contrapartida, apenas com o conhecimento da realidade como ela realmente é, sabendo que é o ego quem atribui valoração às situações enfrentadas no nosso dia a dia, poderemos ser mais tolerantes e manteremos nosso equilíbrio emocional.

Anexos

Abaixo, compartilho trechos dos suttas [6] que serviram de inspiração para este breve artigo:

Sattajatila Sutta, do Samyutta Nikaya [7]:

É vivendo junto com uma pessoa que a sua virtude pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É lidando com uma pessoa que a sua pureza pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É através da adversidade que a tolerância de uma pessoa pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É através da discussão que o (sic) sabedoria de uma pessoa pode ser conhecido (sic) e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.

Kakacupama Sutta, do Majjhima Nikaya [8]:

Antigamente, bhikkhus, aqui mesmo em Savatthi havia uma dona de casa chamada Vedehika. E um bom relato sobre a Senhora Vedehika havia se espalhado: ‘A Senhora Vedehika é boa, a Senhora Vedehika é gentil, a Senhora Vedehika é pacífica.’ Agora a Senhora Vedehika tinha uma empregada chamada Kali, que era destra, ágil e perfeita no seu trabalho. A empregada Kali pensou: ‘Um bom relato sobre a minha senhora tem se espalhado. Como será isso, embora ela não demonstre raiva, a raiva está na verdade presente nela ou está ausente? Ou será que é apenas devido ao meu trabalho perfeito que a minha senhora não demonstra a raiva, mas a raiva, no entanto, está na verdade presente nela? E se eu testasse a minha senhora.’
Assim a empregada Kali se levantou mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou tão tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta tão tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e olhou com cara feia. Então a empregada Kali pensou: ‘O fato é que, apesar da minha senhora não demonstrar raiva, a raiva ainda está na verdade presente nela, não ausente; e é apenas devido ao meu trabalho perfeito que a minha senhora não demonstra raiva, que na verdade está presente nela, não ausente. E se eu testasse a minha senhora um pouco mais.’
Assim a empregada Kali se levantou ainda mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou ainda mais tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta ainda mais tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e disse palavras de desaprovação. Então a empregada Kali pensou: ‘O fato é que, apesar da minha senhora não demonstrar raiva, a raiva ainda está na verdade presente nela, não ausente. E se eu testasse a minha senhora um pouco mais.’
Assim a empregada Kali se levantou ainda mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou ainda mais tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta ainda mais tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e tomou um rolo para massa e golpeou Kali na cabeça, cortando-a.
Então a empregada Kali, com o sangue jorrando da cabeça cortada, denunciou a sua senhora para os vizinhos: ‘Vejam, senhoras, a obra da bondosa senhora! Vejam, senhoras, a obra da gentil senhora! Vejam, senhoras, a obra da pacífica senhora! Como ela pode ficar furiosa e irritada com a sua única empregada por ela se levantar mais tarde? Como ela pode agarrar um rolo de massa, golpeá-la na cabeça e cortá-la?’ Então mais tarde um relato ruim sobre a Senhora Vedehika havia se espalhado: ‘A Senhora Vedehika é grosseira … é violenta … é cruel.’
Da mesma forma, bhikkhus, um bhikkhu é extremamente bom, extremamente gentil, extremamente pacífico, contanto que a linguagem desagradável não o toque. Mas é quando a linguagem desagradável o toca que se pode reconhecer se aquele bhikkhu é realmente bom, gentil e pacífico. Eu não digo que um bhikkhu seja fácil de ser censurado se ele for fácil de ser censurado e aceitar a censura apenas com o propósito de obter mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos. Por que isso?
Porque esse bhikkhu não é fácil de ser censurado e nem aceita a censura quando ele não obtém mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos. Mas quando um bhikkhu é fácil de ser censurado e aceita a censura porque ele honra, respeita e reverencia o Dhamma, eu digo que ele é fácil de ser censurado. Portanto, bhikkhus, vocês devem treinar dessa forma: ‘Nós seremos fáceis de ser censurados e aceitaremos a censura porque nós honramos, respeitamos e reverenciamos o Dhamma.’ Assim é como vocês deveriam treinar, bhikkhus.

Notas

[1] A origem do sofrimento é a segunda das Quatro Nobres Verdades. O desejo pelas formas visuais, pelos sons, aromas, sabores, pelas sensações corporais e pelos objetos mentais; o desejo por ser e o desejo por não ser.

[2] O sofrimento é a primeira das Quatro Nobres Verdades, um ensinamento que nos alerta para a realidade, cujo objetivo é o de demonstrar que podemos encontrar a felicidade verdadeira, aquela que reside dentro de nós, não aquela exterior, frágil e passageira.

[3] Para a compreensão dos ensinamentos do Buda é importante primeiro compreender as Três Características da Existência: impermanência ou transitoriedade; sofrimento ou insatisfatoriedade; e, não-eu ou impessoalidade.

[4] Prometo encontrar a fonte em que Ajahn Chah disse isso e incluir no menu “Biblioteca” para consulta.

[5] Para a definição de “estados mentais hábeis”, podemos utilizar o ensinamento do kamma – carma saudável. Três ações saudáveis do corpo: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa. Quatro ações saudáveis da fala: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma. Três ações saudáveis da mente: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades. Para mais informações, recomendo a leitura do artigo A Meditação e o Mosquito: Uma Reflexão Sobre Concentração e Virtude.

[6] Os suttas são os ensinamentos de extensão curta, média ou longa atribuídos ao Buda. Foram inicialmente transmitidos pela tradição oral e, posteriormente, escritos em páli, um antigo idioma da Índia.

[7] Esse trecho é a resposta do Buda ao rei Pasenadi de Kosala, que disse, como forma de pôr à prova a percepção do Buda, que seus espiões disfarçados de ascetas – aquela pessoa que abandona a vida social em busca da perfeição espiritual – eram homens santos. Após a revelação da verdade pelo rei, o Buda ainda acrescentou: “Um homem não é conhecido com facilidade pela forma externa nem se deve confiar numa rápida avaliação, pois com a aparência de bem controlados homens descontrolados se apresentam neste mundo. Tal como um brinco falso feito de argila, tal como uma moeda de bronze banhada a ouro, alguns se apresentam disfarçados: impuros no íntimo, belos no exterior.”. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNIII.11.php >. Acesso em 13 jun. 2017.

[8] Esse trecho é uma história citada pelo Buda, com o propósito de demonstrar a seus discípulos que eles deveriam sempre manter o controle da mente, ainda que fossem insultados ou presenciassem alguma outra pessoa sendo insultada. O Buda ainda acrescenta mais à frente: “Bhikkhus, existem esses cinco tipos de linguagem que alguém pode usar ao se dirigirem a vocês: a fala dele poderá ser no momento adequado ou inadequado, verdadeira ou falsa, gentil ou grosseira, conectada com o benéfico ou com o prejudicial, dita com a mente cheia de amor bondade ou com raiva. Nesses casos, bhikkhus, assim é como vocês deveriam treinar: ‘Nossas mentes não serão afetadas e nós não diremos palavras ruins; nós permaneceremos compassivos pelo bem-estar dele, com a mente plena de amor bondade, sem raiva. Permaneceremos permeando aquela pessoa com a mente imbuída de amor bondade e começando com ela, permaneceremos permeando todo o mundo com a mente imbuída de amor bondade, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade.’ Assim é como vocês deveriam treinar, bhikkhus.”. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN21.php >. Acesso em 13 jun. 2017.

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A Joia Tríplice ou Triplo Refúgio

Desde a época do Buda é comum que o discípulo busque refúgio na Joia Tríplice: o Buda, um ser humano perfeitamente iluminado [1], que dedicou sua vida aos ensinamentos do caminho para a libertação de todo o sofrimento; o Dhamma, a doutrina, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda; e, a Sangha, a comunidade de discípulos do Buda, responsável pela manutenção e divulgação desse conhecimento.

Contudo, para o leigo, penso que esse processo interior deve ser feito com plena convicção, com certeza de que esse é o verdadeiro caminho a ser seguido e com a determinação suficiente para, pelo menos, cumprir os Cinco Preceitos, que é o mínimo exigido para que a pessoa possa ser considerada budista.

No Velama Sutta, do Anguttara Nikaya, o Buda estabelece uma escala de virtudes em seu discurso a um chefe de família, e assim expõe a relação entre os cinco preceitos e o refúgio na Joia Tríplice [2]:

Se com uma mente clara com serena confiança alguém se empenhasse em seguir as regras de treinamento – abster-se de matar seres vivos, abster-se de tomar aquilo que não tenha sido dado, abster-se do comportamento sexual impróprio, abster-se da linguagem mentirosa, abster-se do vinho, álcool e outros embriagantes que causam a negligência – isso seria mais frutífero do que, … se alguém com uma mente clara com serena confiança buscasse refúgio no Buda, Dhamma e Sangha.

Nesse discurso, o Buda deixa claro que a prática, o respeito aos Cinco Preceitos, é mais importante que a mera intenção de buscar refúgio na Joia Tríplice.

Também, é importante ponderar sobre os ensinamentos básicos do Buda, como as Três Características da Existência, as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo.

Igualmente relevante, é o exame de conceitos que servem de base para o budismo, como o kamma – carma [3] e o samsara – o ciclo de renascimentos do budismo [4]. Quanto a estes, se conflitarem com convicções internas ou dogmas religiosos adotados previamente, pode ser um indicativo de empecilhos no avanço do caminho budista.

O budismo é uma busca interior e é comum exigir sempre mais de si mesmo, na medida em que se avança no estudo dos ensinamentos do Buda. É comum também, experimentar arrependimento de ações passadas, mas o budismo nos orienta a ter confiança nos ensinamentos e a focar no momento presente, não nos pensamentos de ações passadas ou futuras. E, mais importante, aceitar o Dhamma é como aceitar um trabalho de grande responsabilidade. Todos os estados mentais e ações inábeis cultivados após o conhecimento do Dhamma terão um impacto muito maior na sua vida, pois você será conhecedor da verdade.

O trecho abaixo explica o significado da Joia Tríplice e como o praticante se torna um budista [5]:

O TRIPLO REFÚGIO

O Buddha, o Dhamma e o Sangha, são designados “As Três Jóias” (tiratana) pela sua pureza inigualável e por serem, para o budista, aquilo que há de mais precioso no mundo. Estas “Três Jóias” constituem também o “Triplo Refúgio” (ti-saraṇa) que o praticante assume, ao proferir as palavras com as quais o declara ou reafirma, ao adoptá-las como guias da sua vida e do seu pensamento.

A fórmula Pāli do Refúgio é ainda a mesma aquando do tempo do Buddha:

Buddhaṃ saraṇaṃ gacchāmi.
Dhammaṃ saraṇaṃ gacchāmi.
Sanghaṃ saraṇaṃ gacchāmi.

Eu busco o refúgio no Buddha
Eu busco o refúgio no Dhamma
Eu busco o refúgio no Sangha

É através do simples acto de recitar esta fórmula três vezes* que uma pessoa se considera budista.

Encerro com um pequeno verso do livro Através do Musgo … Havia Apenas a Jornada Sagrada, no Momento Presente …, de Karin Bagøien [6]:

O Buddha, o Dhamma, a Sangha.
Sabedoria, Verdade e Virtude.
Pela Tríplice Joia repousei minha cabeça.
É por isso que o coração está em paz.

Notas

[1] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[2] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIX.20.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[3] Kamma ou carma, é o produto de nossas ações, saudáveis ou não saudáveis, e um dos fatores determinantes para a condição na qual nos encontramos na presente vida, bem como o orientador para a nossa próxima existência.

[4] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[5] MAHATHERA, Nyanatiloka. A Palavra do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 23. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] BAGØIEN Karin. Através do Musgo … Havia Apenas a Jornada Sagrada, no Momento Presente … Autobiografia de Karin Bagoien (ed. eletrônica). 2016. p. 55. Disponível no menu “Biblioteca”. Tradução do livro Truth Heals: Issues Through The Moss. Malásia: Inward Path Publisher, 1998.

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Os Cinco Preceitos

Introdução

O Buda possuía discípulos com diferentes níveis de determinação e entendimento. Para aqueles decididos a abandonar suas posses e seu modo de vida em sociedade pela busca de um ideal maior, o Buda criou as 227 regras de conduta do Patimokkha, o Código de Disciplina dos bhikkhus, monges budistas. Todavia, para aqueles discípulos leigos que ainda viviam em sociedade, estabeleceu cinco preceitos básicos a serem seguidos: não matar seres vivos; não tomar aquilo que não for dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência.

1. Primeiro Preceito: não matar seres vivos

Seres vivos significa não apenas outro ser humano, mas qualquer outro ser que compartilhe da nossa existência no samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1]. Então, podemos incluir os animais considerados irracionais, bem como as criaturas minúsculas, como os insetos.

É claro que o kamma, carma [2], produzido ao matar outro ser humano é maior que o produzido ao matar um animal irracional, que por sua vez é maior que o produzido por matar um inseto. Contudo, todos esses atos são lamentáveis e trazem consequências.

O budismo expõe a realidade como ela efetivamente é, não como gostaríamos que fosse, e sempre nos apresenta o caminho correto a ser seguido. Antes de pôr fim à vida de um inseto intencionalmente, pense nesse poder que lhe foi dado e como irá administrá-lo. Lembre-se da Primeira Nobre Verdade, que nos ensina que faz parte deste mundo a experiência de sensações consideradas desagradáveis, como a investida de um mosquito por exemplo. Reflita sobre a sensação em si, que não é pessoal e logo irá passar, devido à sua natureza impermanente, e dê preferência ao repelente, não ao inseticida.

2. Segundo Preceito: não tomar aquilo que não foi dado

Essa regra é autoexplicativa, não furtar e não roubar.

Furtar, segundo o Dicionário Aurélio [3]:

1. Subtrair fraudulentamente (coisa alheia); roubar.
2.
Fazer passar como seu (trabalho, ideia, etc.).

Roubar, segundo o Dicionário Aurélio [4]:

1. Tomar (objeto, coisa móvel) da posse de alguém, mediante ameaça ou violência.
(
…)

3. Terceiro Preceito: não ter comportamento sexual impróprio

O Buda nos explica em alguns de seus discursos o que é considerado comportamento sexual improprio, veja um exemplo [5]:

(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva.

Portanto, não há subjetividade no termo “impróprio”, uma vez que o seu significado pode ser encontrado nos ensinamentos.

Comportamento sexual improprio é aquele realizado sem o consentimento da outra parte; aquele realizado apenas para satisfazer o próprio desejo, não se importando com os sentimentos da outra parte; e, aquele realizado com pessoa comprometida com outro relacionamento ou quando se está em um relacionamento e realiza atividade sexual com outra pessoa, infidelidade conjugal.

4. Quarto Preceito: não mentir

A linguagem mentirosa deve ser evitada por aqueles que pretendem seguir os cinco preceitos, mas é apenas um dos tipos de linguagem incorreta a ser combatida para aqueles que pretendem pôr em prática o exercício da palavra correta, que é um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, e que demandará um esforço maior.

Além da mentira, também faz parte da linguagem incorreta a linguagem maliciosa, a linguagem grosseira e a linguagem frívola.

O Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, nos esclarece como identificar cada um dos tipos de linguagem incorreta, e assim evita-las [6]:

Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício.

5. Quinto Preceito: não consumir substâncias embriagantes que causam negligência

O Buda falava frequentemente em “vinho, álcool e outros embriagantes…”, mas obviamente podemos ampliar o entendimento para aquelas substâncias que, além da negligência, também causam a dependência, como o fumo, as drogas ou quaisquer outras substâncias modernas que provoquem os mesmos efeitos.

O termo utilizado pelo Buda era “não consumir”, mas ainda assim algumas pessoas questionam se beber com moderação é ir contra o preceito. Particularmente, entendo que consumir álcool, em qualquer dose, é ir contra o preceito, uma vez que o termo utilizado pelo Buda foi “não consumir”, bem claro e autoexplicativo. Caso contrário, teria utilizado o termo “consumir com moderação”, mas não o fez.

Além do mais, não creio que tenha existido professor tão hábil e preciso com as palavras quanto o Buda. Seus ensinamentos são claros, alguns de difícil entendimento, diga-se de passagem, mas não deixam margem à diferentes interpretações. Quando se tem dúvida sobre um determinado ensinamento, basta aprofundar-se nos estudos que certamente a dúvida é dirimida em outra passagem.

Observação: para aqueles que participam de retiros de meditação budista, é necessário, durante o período de sua realização, abster-se de qualquer prática sexual, uma ampliação do terceiro preceito, bem como a observação de três preceitos adicionais: não comer nos horários proibidos; não ouvir música, cantar, dançar, ver espetáculos de entretenimento, usar ornamentos, usar perfumes, e embelezar o corpo com cosméticos; e, não deitar em leitos elevados e luxuosos.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Kamma ou carma, é o produto das ações saudáveis ou não saudáveis de uma pessoa. O entendimento budista é o de que esse fenômeno pode ser um fator determinante para algumas situações a serem experimentadas em uma próxima existência, em um próximo renascimento.

[3], [4] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 7.0.2. O Míni Aurélio corresponde à 8a. edição, revista e atualizada, do Minidicionário Aurélio, da Língua Portuguesa, contendo mais de 30 mil verbetes. 2010.

[5] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[6] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

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O Nobre Caminho Óctuplo

São os oito passos necessários para a libertação de todo o sofrimento, e assim, não mais retornar ao samsara, o ciclo de renascimentos [1].

É um grande desafio até para os monges, quanto mais para os praticantes leigos que vivem em sociedade, mas vale o esforço para colocá-los em prática.

O primeiro desses passos é o entendimento correto, entender as Quatro Nobres Verdades;

O segundo passo é o cultivo do pensamento correto, o pensamento de renúncia ou desapego, o pensamento da generosidade, o pensamento de metta (amor e bondade), o pensamento da compaixão;

O terceiro passo é a palavra correta, a palavra amigável, a palavra que une as pessoas, a verdade;

O quarto passo é a ação correta, que para os budistas leigos é a obediência aos Cinco Preceitos;

O quinto passo é o modo de vida correto que é a condução da vida em sociedade com honestidade, abstendo-se de atividades comerciais ou profissionais que causem prejuízo a outros seres vivos;

O sexto passo é o esforço correto, que é identificar quando um pensamento prejudicial surge na mente e substituí-lo por um pensamento benéfico, e assim, com a prática, impedir totalmente que o pensamento prejudicial floresça, que é o objetivo final deste passo;

O sétimo passo é a atenção correta ou atenção plena correta, que é desenvolvida por meio da meditação, mas deve ser estendida durante todo o período do dia e, após determinado nível de prática, também durante a noite;

O oitavo passo é a concentração correta, ou seja, o resultado da prática satisfatória da meditação, os quatro jhanas, que são os estágios de absorção mental.

No Magga-vibhanga Sutta, do Samyutta Nikaya, o tema do Nobre Caminho Óctuplo é abordado pelo Buda em seu discurso [2]:

Em Savatthi. “Bhikkhus, eu ensinarei e analisarei para vocês o Nobre Caminho Óctuplo. Ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer.” – “Sim, venerável senhor,” os bhikkhus responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“E qual, bhikkhus, é o Nobre Caminho Óctuplo? Entendimento Correto, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correta, Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta.
“E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.
E o que é pensamento correto? O pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto.”
“E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta.”
“E o que é ação correta? Abster-se de tirar a vida de outros seres, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta.”
“E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto.”
“E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto.”
“E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (ii) Ele permanece contemplando as sensações como sensações – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iii) Ele permanece contemplando a mente como mente – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iv) Ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.
“E o que é concentração correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ (iv) Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentração correta.”

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXLV.8.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

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As Quatro Nobres Verdades

Introdução

Nossa vida é uma eterna busca pela felicidade e, quando pensamos tê-la encontrado, ocorrem situações que a colocam em segundo plano. Então, retomamos a busca pela felicidade. Não é assim que acontece?

Isso acontece porque buscamos a felicidade naquilo que o mundo tem a nos oferecer, buscamos externamente, contudo, a felicidade verdadeira já está dentro de nós. Essa felicidade exterior é ilusória e frágil, não dura muito, não nos satisfaz. Por outro lado, a felicidade verdadeira, aquela interior, é revelada quando abrimos mão do desejo: o desejo de ser, o desejo de ter e o desejo de permanecer. Revelada quando nos contentamos com aquilo que somos e aquilo que temos, e quando não mais tememos as mudanças, que fazem parte deste mundo.

O ensinamento das Quatro Nobres Verdades é a essência do budismo e a sua função é a de nos mostrar a realidade para que possamos enxergar o mundo como ele realmente é. Um mundo repleto de situações que podem nos trazer sofrimento se não soubermos lidar com elas e outras que nos trarão sofrimento de qualquer forma.

Ao final, no entanto, nos ensina o caminho para a completa libertação de todo o sofrimento, à libertação do samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1].

1. A Primeira Nobre Verdade: o sofrimento

Em um primeiro contato com o budismo a Primeira Nobre Verdade pode nos causar uma sensação incômoda, pois aquele pensamento que tínhamos até então, o de que poderíamos ser felizes da maneira como vivíamos, é facilmente abalado.

A Primeira Nobre Verdade nos mostra que o simples fato de nascer neste mundo já é um ato de sofrimento, e assim permanece até o último dia de nossas vidas, uma vez que lidamos com incontáveis e recorrentes situações adversas.

Ninguém melhor para explicar a Primeira Nobre Verdade que o próprio Buda, que o faz com a clareza habitual no Mahasatipatthana Sutta, do Digha Nikaya [2]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade do sofrimento? O nascimento é sofrimento; o envelhecimento é sofrimento; a morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.
“E o que, amigos, é nascimento? O nascimento dos seres nas várias classes de seres, o próximo nascimento, o estabelecimento [num ventre], a geração, a manifestação dos agregados, a obtenção das bases para contato – a isto se denomina nascimento.
“E o que, amigos, é o envelhecimento? O envelhecimento dos seres nas várias categorias de seres, a sua idade avançada, os dentes quebradiços, os cabelos grisalhos, a pele enrugada, o declínio da vida, o enfraquecimento das faculdades – a isto se denomina envelhecimento.
“E o que, amigos, é a morte? O falecimento de seres nas várias categorias de seres, a sua morte, a dissolução, o desaparecimento, o morrer, a finalização do tempo, a dissolução dos agregados, o cadáver descartado – a isto de (sic) denomina morte.
“E o que, amigos, é a tristeza? A tristeza, entristecimento, sofrimento, tristeza interior, arrependimento interior, de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina tristeza.
“E o que, amigos, é a lamentação? O pranto e o lamento, chorar e lamentar, o choro e a lamentação de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina lamentação.
“E o que, amigos, é a dor? Dor no corpo, desconforto corporal, a sensação dolorosa e desconfortável que surge do contato corporal – a isto se denomina dor.
“E o que, amigos, é a angústia? Dor mental, desconforto mental, a sensação dolorosa e desconfortável que surge do contato mental – a isto se denomina angústia.
“E o que, amigos, é o desespero? A confusão e o desespero, a tribulação e a desesperação de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina desespero.
“E o que, amigos, é ‘não obter o que se deseja é sofrimento’? Para os seres sujeitos ao nascimento surge o desejo: ‘Ah, que nós não estivéssemos sujeitos ao nascimento! Que o nascimento não viesse para nós!’ Mas isto não pode ser obtido pelo desejo e não obter o que se deseja é sofrimento. Para os seres sujeitos ao envelhecimento … sujeitos à enfermidade … sujeitos à morte … sujeitos à tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero, surge o desejo: ‘Ah, que nós não estivéssemos sujeitos à tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero! Que a tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero não surjam para nós!’ Mas isto não pode ser obtido pelo desejo e não obter o que se deseja é sofrimento.
“E o que, amigos são os cinco agregados influenciados pelo apego que, em resumo, são sofrimento? Eles são: o agregado da forma material influenciado pelo apego, o agregado da sensação influenciado pelo apego, o agregado da percepção influenciado pelo apego, o agregado das formações volitivas influenciado pelo apego e o agregado da consciência influenciado pelo apego. Esses são os cinco agregados influenciados pelo apego que, em resumo, são sofrimento. A isto se denomina a nobre verdade do sofrimento.

2. A Segunda Nobre Verdade: a origem do sofrimento

A origem do sofrimento é o desejo. O desejo pelos prazeres sensoriais (formas visuais, sons, aromas, sabores, sensações corporais e objetos mentais), o desejo por ser e o desejo por não ser.

Quando se deseja algo, há cobiça, e quando esse objeto do desejo é conquistado, há prazer, mas apenas superficial e temporário. Uma vez na posse do objeto do desejo, surge o sofrimento ao pensar que se pode perder o que foi conquistado ou quando efetivamente se perde. Da mesma forma, quando não se conquista o que se deseja, o que é cobiçado, surge o sofrimento.

Continuamos com a explicação de nosso professor maior [3]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade da origem do sofrimento? É o desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir.
“E onde surge e se estabelece esse desejo? Qualquer coisa no mundo que seja cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“E o que no mundo é cativante e tentador? O olho no mundo é cativante e tentador. O ouvido … O nariz … A língua … O corpo … A mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo. Formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo são cativantes e tentadores, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Consciência no olho, consciência no ouvido, consciência no nariz, consciência na língua, consciência no corpo, consciência na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Sensação tendo como condição o contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Percepção de formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Intenção por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Desejo por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Pensamento aplicado às formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Pensamento sustentado nas formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo. A isto se denomina a nobre verdade da origem do sofrimento.

3. A Terceira Nobre Verdade: a cessação do sofrimento

Aprendemos quais são as formas de sofrimento e que o desejo é o responsável por cultivá-las. A cessação do sofrimento, portanto, é o abandono desse desejo. Nesse sentido, o Buda nos ensina a identificá-lo para que possamos abandoná-lo [4]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade da cessação do sofrimento? É o desaparecimento e cessação sem deixar nenhum vestígio daquele mesmo desejo, abrir mão, descartar, libertar-se, despegar desse mesmo desejo. E como ocorre o abandono desse desejo, como ocorre a sua cessação?
“Qualquer coisa no mundo que seja cativante e tentadora, nisso ocorre a cessação. E o que no mundo é cativante e tentador. O ouvido … O nariz … A língua … O corpo … A mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo. Formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo são cativantes e tentadores, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Consciência no olho, consciência no ouvido, consciência no nariz, consciência na língua, consciência no corpo, consciência na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Sensação tendo como condição o contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, do contato na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Percepção de formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Intenção por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Desejo por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Pensamento aplicado às formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Pensamento sustentado nas formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação. A isto se denomina a nobre verdade da cessação do sofrimento.

4. A Quarta Nobre Verdade: o caminho que conduz à cessação do sofrimento

Esse é o objetivo do ensinamento das Quatro Nobres Verdades, nos mostrar qual é o caminho para o abandono do desejo e a libertação de todo o sofrimento, que é o Nobre Caminho Óctuplo.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2], [3], [4] Fonte: Acesso ao Insight. < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN22.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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Palavras-chave: autoajuda, Buda, budismo, budista, equilíbrio, felicidade, meditação, mente, origem, pensamento, sabedoria, saúde, sociedade, sofrimento, virtude.

As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

Introdução

Nos textos budistas da tradição Theravada é comum encontrar expressões do idioma páli, uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Assim, os termos anicca, dukkha e anatta são frequentemente traduzidos como: impermanência, sofrimento e não-eu. Contudo, também é possível encontrar a seguinte tradução para esses vocábulos: transitoriedade, insatisfatoriedade e impessoalidade, respectivamente. Essa última, por sinal, se não for a mais precisa, é a que proporciona melhor entendimento.

Essas características estão presentes em todos os fenômenos da natureza, sejam aqueles considerados externos, sejam aqueles que fazem parte do nosso próprio corpo, física ou mentalmente.

Apenas a título de exemplo, quando visualizamos determinada forma que nos desperta desejo, como uma roupa, aquele objeto, por si só, é transitório, insatisfatório e impessoal. Da mesma forma, os olhos e a construção mental que alimentam esse desejo, a vontade de ter o objeto, também são transitórios, insatisfatórios e impessoais.

O interessante é que essas três características estão interligadas, e compreender uma delas, qualquer que seja, significa facilitar o entendimento das demais.

1. Anicca (impermanência ou transitoriedade)

A impermanência, anicca, é um fenômeno presente em todo o universo. Tudo tem uma origem, se transforma e, por fim, desaparece. Percebemos essa natureza transitória em todas as coisas, seja em algo considerado belo que sofre ação do tempo, seja em um som que ouvimos e logo cessa, seja em um aroma identificado que logo se dissolve no ar ou seja em um sabor apreciado que logo é saciado. Com o corpo, não é diferente: nascemos, crescemos, experimentamos sensações corporais agradáveis e desagradáveis – que também surgem e cessam –, envelhecemos, e, inevitavelmente, morreremos.

Nesse sentido, encontramos o seguinte trecho no Dicionário Budista, de Nyanatiloka [1]:

Impermanência das coisas é o surgimento, o desaparecimento e mudança das coisas, ou o desaparecimento das coisas que vieram a aparecer. O significado é que essas coisas nunca persistem da mesma forma, mas que elas estão desaparecendo e se dissolvendo momento a momento.
A impermanência é o aspecto encontrado em todos os fenômenos, seja material ou mental, grosseiro ou sutil, interno ou externo: “Todas as formações são impermanentes”. (…)

Ajahn Sumedho, por sua vez, destaca a observação da impermanência nas percepções mentais [2]:

(…) E o que podemos observar acerca de ‘como as coisas são’ é que toda a experiência sensorial é impermanente. Tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e tocamos; todas as condições mentais – os nossos sentimentos, memórias e pensamentos – são condições mentais em constante mudança, as quais surgem e cessam. (…)

A impermanência não é uma criação do budismo, é uma realidade inerente a todas as coisas, que pode ser percebida por qualquer pessoa, e assim, servir de importante ferramenta para a diminuição do desejo.

Por que desejar aquilo que é transitório, precário? Não parece, em um primeiro momento, uma escolha muito sábia. Desejar o que é impermanente significa sofrer quando se perde o objeto do desejo, ou pior, sofrer antecipadamente, antes mesmo de se conquistar o objeto do desejo, e assim, sofrer novamente depois, uma vez que a perda é inevitável, devido à natureza da impermanência.

Transcrevo, para reflexão, trecho do livro Pura Bondade, de Ajahn Candasiri [3]:

Nas nossas vidas por vezes experienciamos coisas lindíssimas. Temos também relacionamentos especiais, nos quais sentimos uma afinidade maravilhosa e um grande à-vontade com determinadas pessoas. Pode acontecer o desejo de nos agarrarmos a essas experiências. Mas precisamos compreender que a vida envolve uma espécie de implacabilidade. É annica – simplesmente continua a fluir, quer queiramos ou não.

2. Dukkha (sofrimento ou insatisfatoriedade)

O sofrimento, dukkha, se manifesta exatamente porque não temos a compreensão correta do fenômeno da impermanência. Como vivemos em um mundo em constante transformação é natural que ocorram situações inesperadas e transitórias, pois essa é a natureza do mundo. Contudo, desejamos ser bem-sucedidos profissionalmente, ter uma vida feliz, permanecer sempre com aparência agradável. Ao nos depararmos com alguma situação que interfere nesse desejo ilusório de permanência, nesse desejo ilusório de ser, ter ou permanecer, sofremos, pois não sabemos lidar com as mudanças. Não consideramos, ainda, que as situações adversas também são impermanentes, também irão passar.

Em resumo, tudo que está sujeito ao fenômeno da impermanência também é fonte de sofrimento ou insatisfatoriedade. Bases externas: formas, sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais. Bases internas: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.

Este tema é de profunda importância para o budismo e também é a primeira das Quatro Nobres Verdades. Ressalte-se, que a questão do sofrimento é frequentemente mencionada no budismo não como forma de pessimismo, mas apenas como objeto de reflexão e para que saibamos que há um caminho para a sua libertação, o Nobre Caminho Óctuplo.

3. Anatta (não-eu ou impessoalidade)

Aqui, não se busca questionar a existência do “eu” ou do “ego”. Nesse sentido, nos explica Thanissaro Bhikkhu [4]:

Não-eu (anatta): É extremamente importante que o leitor não pense equivocadamente que o Buddha ensinou que “não existe um ser” ou que “não há um eu”. Pelo contrário, ele sempre se negava a contestar perguntas sobre este assunto por considerá-las mal formadas e sempre recomendava não se empenhar em investigar: “Se existe um eu ou não”. Este termo, assim como “inconstância” (anicca) e “sofrimento” (dukkha), era ensinado pelo Buddha como ferramenta mental e “percepção” (anupassana) a ser exercitada com o objetivo de produzir certo resultado – o desapego e a despaixão na mente.

É irrelevante para o estudo obter alguma conclusão acerca da existência ou não do “eu” ou “ego”. O importante é compreender a impessoalidade presente em todos os fenômenos da natureza. Nesse sentido [5]:

ANATTA: ‘Não-self’, Não ego, sem ego, impessoalidade: é a última das Três Características da existência (ti-lakkhana, q.v.). A doutrina do Anatta ensina que nem dentro do fenômeno corporal e mental da existência, nem fora deles, pode ser encontrado qualquer coisa que no sentido último possa ser considerado como uma entidade-Ego existente por si, alma ou qualquer outra substancia exisente (sic). (…)

Ajahn Chah, por sua vez, ressalta o caráter impessoal, não-eu de sensações como a felicidade e o sofrimento [6]:

Quando consideramos o corpo ou a mente, podemos colocar ambos no mesmo “saco”, no “saco” do Transitório, Imperfeito e Não-eu – aniccam, dukkham, anatta. Eles são simples condições da Natureza, surgem, dependendo de factores de suporte, existem por um período de tempo e depois acabam. Quando existem condições apropriadas, elas voltam, existem por um período de tempo e depois acabam outra vez. Estas coisas não são um “eu”, um “ser”, um “nós” ou um “eles”. Não existe ninguém nessas coisas, apenas sensações. A felicidade não tem um “eu” intrínseco, o sofrimento não tem um “eu” intrínseco. Nenhum “eu” pode ser encontrado, pois são simples elementos da natureza que começam, existem e acabam, passando por este constante ciclo de mudança.

O “eu” ou “ego”, nada mais é do que um fenômeno condicionado, estimulado desde o nosso nascimento para reagir às situações do cotidiano e que, devido à sua natureza impermanente, em determinado momento deixará de existir [7].

Assim, acredito que o objetivo do ensinamento de anatta – não-eu, seja o de nos transmitir o entendimento de que esse “eu” ou “ego” aparente não deve ser reconhecido como uma entidade que comanda nossos pensamentos e nossas ações e, sendo assim, não é o destinatário dos objetos do desejo presentes no mundo: formas, sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais.

Quando desejamos alguma coisa porque entendemos que aquilo nos trará satisfação é irrelevante para o entendimento do “não-eu”, se o “eu” ou “ego” existe ou não. A compreensão de que não é correto desejar algo porque não existe “eu” ou “ego” é inadequada. É irrelevante se existe ou não.

É inadequado desejar algo porque o desejo também é uma construção do “eu” ou “ego” e não algo inerente à sua natureza. Por isso dizemos que todas as coisas são impessoais ou não-eu.

Nesse discurso do Buda, é possível perceber como as três características da existência estão perfeitamente relacionadas [8]:

Assim ouvi. Em certa ocasião, o Abençoado estava em Benares, no Parque do Gamo, em Isipatana. Lá ele se dirigiu ao grupo de cinco bhikkhus desta forma: “Bhikkhus” – “Venerável Senhor,” eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“A forma, bhikkhus, é não-eu. Pois, bhikkhus, se a forma fosse o eu, essa forma não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’ Mas porque a forma é não-eu, a forma conduz ao sofrimento e não é possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’
“A sensação é não-eu…
“A percepção é não-eu…
“As formações volitivas são não-eu…
“A consciência é não-eu. Pois, bhikkhus, se a consciência fosse o eu, essa consciência não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’ Mas porque a consciência é não-eu, a consciência conduz ao sofrimento e não é possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’
“O que vocês pensam, bhikkhus, a forma é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.
“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“… a sensação é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… a percepção é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… as formações volitivas são permanentes ou impermanentes?
“Impermanentes, senhor.
“O que vocês pensam, bhikkhus, a consciência é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.
“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“Portanto, bhikkhus, qualquer forma, quer seja do passado, futuro ou presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior, próxima ou distante: toda forma deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’
“Qualquer sensação …
“Qualquer percepção …
“Quaisquer formações volitivas …
“Qualquer consciência, quer seja do passado, do futuro ou do presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior; próxima ou distante: toda consciência deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’
“Vendo dessa forma, o nobre discípulo bem instruído se desencanta com a forma, se desencanta com a sensação, se desencanta com a percepção, se desencanta com as formações volitivas, se desencanta com a consciência. Desencantado ele se torna desapegado. Através do desapego a sua mente é libertada. Quando ela está libertada surge o conhecimento: ‘Libertada.’ Ele compreende que: ‘O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.’”
Isso foi o que o Abençoado disse. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado. E enquanto essa explanação estava sendo dada, as mentes do grupo de cinco bhikkhus, foram libertadas das impurezas através do desapego.

Notas

[1] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 22. Disponível no menu “Biblioteca”.

[2] SUMEDHO Ajahn. Plena Atenção: O Caminho Para a Imortalidade (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 9-10. Disponível no menu “Biblioteca”.

[3] CANDASIRI Ajahn, Pura Bondade (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 20. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 58. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 21. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] APPAMADO Bhikkhu. Folhas da Árvore Bodhi (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 6. Disponível no menu “Biblioteca”.

[7] Para o budismo não existe qualquer entidade eterna, permanente, seja o “eu”, o “ego” ou a “alma”. Esse entendimento pode nos levar à seguinte questão: Se esses três elementos são impermanentes o que renasce? O kamma – carma.

[8] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXXII.59.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
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Palavras-chave: autoajuda, Buda, budismo, budista, equilíbrio, felicidade, meditação, mente, origem, pensamento, sabedoria, saúde, sociedade, sofrimento, virtude.