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Equanimidade: Um Refúgio Interior

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É o seu primeiro contato com o budismo? Recomendamos começar por aqui: O Que é Necessário Para Se Tornar Um Budista?


Há quem diga que os obstáculos apresentados pela vida nunca são maiores que a nossa capacidade de superação, mas quando presenciamos o sofrimento de quem amamos ou alguma injustiça na qual não podemos intervir, necessitamos de um esforço maior para entendermos e aceitarmos aquela situação.

Ainda que não sejamos os destinatários diretos daquele problema, nossa boa vontade em ajudar o próximo, nossa compaixão e nosso desejo de que as pessoas possam superar as dificuldades, podem nos trazer sofrimento, na medida em que fazemos tudo ao nosso alcance e não visualizamos os resultados desejados.

Nesse momento, quando nossa ajuda não mais surte os efeitos esperados, a equanimidade pode ser um refúgio para descansarmos nossa mente em paz.

A equanimidade é uma das dez virtudes que conduzem à iluminação [1] – dez perfeições ou paramis [2] – e uma das quatro atitudes sublimes – brahmavihāras –, presentes em todos os seres celestiais que ainda fazem parte do samsara [3], mas que vivem em plenitude de amor bondade, de compaixão, de alegria altruísta e de equanimidade.

Desenvolver a equanimidade plena, ilimitada, não é uma tarefa fácil, mas podemos colocá-la em prática, ainda que de forma limitada. Para tanto, é preciso conhecer o funcionamento do carma [4], saber que cada pessoa é responsável pelos seus próprios atos praticados nesta ou em vidas anteriores.

Assim, prestamos nossa assistência, oferecemos um suporte para facilitar a caminhada de quem necessita, mas sem interferir no curso natural do carma, sem retirar o obstáculo que servirá de meio para o crescimento daquela pessoa, pois, do contrário, será uma ajuda a curto prazo, mas um prejuízo a longo prazo para aquela pessoa.

Ajudamos até o limite em que a pessoa permite ser ajudada e mostramos o caminho, mas a caminhada é de responsabilidade de cada um de nós, e, assim, repousamos nossa mente em paz, com a noção do dever cumprido, na medida em que compreendemos que cada um é responsável pelas próprias ações, e que não podemos mudar a vida das pessoas, apenas auxiliá-las em um processo de transformação interior.

A equanimidade é o fator de equilíbrio entre o amor bondade, a compaixão e a alegria altruísta. É a qualidade que impede o excesso dessas virtudes, que impede a manifestação do sofrimento em decorrência da impossibilidade de auxílio às outras pessoas, que impede o desperdício da energia que pode ser utilizada em benefício de nossa própria prática ou em benefício do próximo.

Se o mundo nos parece injusto, insatisfatório e insuficiente para atender aos desejos de toda a humanidade, também temos nossa parcela de culpa e devemos permitir que ele exista, da forma como foi construído por todos nós, uma vez que é de fundamental importância para a caminhada e o desenvolvimento espiritual de todas as pessoas.

Não se pode confundir equanimidade com indiferença. Se existe boa vontade em ajudar o próximo, se existe compaixão por todos os seres, se desejamos a todos a melhor sorte, se entendemos que nem sempre é possível ajudar como gostaríamos, se aceitamos com imparcialidade as situações da vida, se compreendemos o funcionamento do carma, estamos falando de equanimidade.

Por outro lado, quando criamos preferências em nossa mente, quando rejeitamos determinadas situações, quando praticamos alguma forma de discriminação, quando julgamos as outras pessoas, estamos cultivando o ambiente propício para a indiferença, que é o meio termo entre a atração e a aversão.

Ser equânime não é ser indiferente. A equanimidade é uma virtude, a indiferença um empecilho à nossa prática.

Equanimidade, upekkha, no idioma páli [5], é a unicidade; é o equilíbrio e a libertação da mente; é o abandono da atração e da aversão; é observar as situações da vida, sem manifestar aprovação ou desaprovação; é compreender que não controlamos nem a nossa existência, quanto mais a de outros seres; é aceitar o mundo da forma como foi idealizado por todos nós.

A busca pela paz interior não é uma atitude egoísta, pois todos os seres humanos são possuidores dessa capacidade e do mesmo conjunto de virtudes, embora alguns não consigam despertá-las devido às próprias escolhas, nesta ou em vidas anteriores.

Só teremos a verdadeira capacidade de ajudar as pessoas se nos ajudarmos primeiro.

(…) os seres são os donos das suas ações, herdeiros das suas ações, nascem das suas ações, estão atados às suas ações, possuem as suas ações como refúgio. (…)

Culakammavibhanga Sutta, Majjhima Nikaya [6].

Quando for tocado pelo toque prazeroso
não fique encantado,
não trema ao ser tocado pela dor.
Veja ambos com equanimidade, o prazeroso e o doloroso,
sem ser atraído nem repelido por nada.

Adanta-agutta Sutta, Samyutta Nikaya [7].

Equanimidade, o estado neutro, imparcial, que surge da sensata sabedoria, é um lugar para descansarmos a mente quando não conseguimos ajudar aqueles que amamos a alcançar a felicidade.

Ajahn Jayasaro [8].

(…) Então, equanimidade envolve saber onde focar suas energias e onde focar seus esforços em encontrar a felicidade.

Thanissaro Bhikkhu [9].

O sentimento de equanimidade é a mente justa, a mente de igualdade, a mente de imparcialidade, a mente sem preconceitos, o estado mental perfeitamente equilibrado.

Bhante Henepola Gunaratana [10].

Observação

Mais quatro livros adicionados no módulo “Biblioteca”. Sobre o Amor, de Ajahn Jayasaro, citado neste artigo; A Respiração Como Um Refúgio, de Thanissaro Bhikkhu, citado neste artigo; Os Quatro Fundamentos da Plena Atenção – Maha-Satipatthana Sutta, de Bhante Henepola Gunaratana, citado neste artigo; e, Todos Nós Assediados Pelo Envelhecimento, Morte e Nascimento, de Ayya Khema, citado no artigo anterior, Vamos Falar Sobre o Carma?, totalizando vinte e um livros.

Notas

[1] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[2] As dez perfeições – paramis – ou virtudes que conduzem à iluminação: dana – generosidade; sila – moralidade; nekkhamma – renúncia; pañña – sabedoria; viriya – energia; khanti – tolerância; sacca – fidedignidade; adhittana – determinação; metta – amorosidade; e, upekkha – equanimidade.

[3] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[4] Carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores. Para mais informações, leia o artigo: Vamos Falar Sobre o Carma?

[5] Páli é uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Um único vocábulo em páli pode ter vários significados em uma linguagem moderna, o que torna a tradução uma tarefa difícil.

[6] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN135.php >. Acesso em 20 jul. 2017.

[7] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXXXV.94.php >. Acesso em 20 jul. 2017.

[8] JAYASARO, Ajahn. Sobre o Amor (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 66. Disponível no menu “Biblioteca”.

[9] THANISSARO Bhikkhu. A Respiração Como Um Refúgio (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 31. Disponível no menu “Biblioteca”.

[10] GUNARATANA, Bhante Henepola. Os Quatro Fundamentos da Plena Atenção – Maha-Satipatthana Sutta (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2012. p. 120. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 25 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

Vamos Falar Sobre o Carma?

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Introdução

Em algum momento de nossas vidas, pode ser que nos encontremos em uma situação que parece não ter saída, mas quando olhamos à nossa volta, vemos tanto sofrimento que podemos pensar: – “Até que a situação não é tão ruim assim.”. E seguimos em frente, ainda que continuemos com a sensação de vazio provocada por essa incapacidade de compreensão.

O budismo nos oferece uma importante ferramenta que pode nos auxiliar nesse processo de aceitação e entendimento: a Primeira Nobre Verdade, que é o sofrimento. De acordo com esse ensinamento, faz parte deste mundo a experiência de situações insatisfatórias, uma vez que não sabemos lidar com as mudanças e desejamos algo que não pode ser encontrado: a permanência. Desejamos que os momentos agradáveis permaneçam, desejamos nos manter sempre saudáveis física e mentalmente, desejamos continuar na companhia de nossos familiares queridos, desejamos a estabilidade profissional, desejamos que nossos bens não sejam ameaçados, etc.

O que podemos concluir sobre a Primeira Nobre Verdade, é que o sofrimento reside em nossa incapacidade de compreender o funcionamento da natureza, seu processo inevitável de transformação. Precisamos nos preparar para as mudanças e aceita-las, uma vez que elas ocorrerão, quer queiramos ou não, pois assim é o funcionamento de todo o universo, e a nossa vida não é diferente, também está sujeita aos fenômenos condicionados [1] e impermanentes.

Além desse suporte, o budismo também nos alerta para a importância de nossas ações, e é sob esse aspecto que podemos compreender melhor o funcionamento do kamma (páli), karma (sânscrito) ou carma.

Conceito

Muitas pessoas consideram que o carma é a má sorte, o destino insatisfatório, algo que elas devem carregar para o resto de suas vidas, mas não é esse o significado encontrado no budismo.

Carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

É um processo de ações segmentadas, também conhecido como Lei da Causalidade Moral [2], que é construído momento a momento e, dessa forma, pode ser utilizado para equilibrar ações passadas. Assim, não há motivo para se adotar uma postura desanimadora quando enfrentamos dificuldades, uma vez que existe a possibilidade de que o momento presente seja moldado por meio de ações empreendidas ainda nesta vida. Em outras palavras, nossa vida não está predeterminada pelo carma, apenas condicionada.

No Dicionário Budista, de Nyanatiloka, encontramos a seguinte explicação para o carma [3]:

KARMA: (Skr), Páli: kamma: ‘Ação’, corretamente falando denota as volições saudáveis e não-saudáveis (kusala e akusala-cetana) e seus fatores mentais concomitantes, causando renascimento e moldando o destino dos seres. Essas volições kármicas (kamma-cetana) se tornam manifestas como ações saudáveis ou não-saudáveis pelo corpo (kaya-kamma), fala (vaci-kamma) e mente (mano kamma). Assim, o termo budista Karma de modo nenhum significa o resultado das ações, e com certeza não o destino do homem, ou talvez até de todas as nações (o assim chamado karma global ou de massa), cujas concepções equivocadas se tornaram amplamente difundidas no Ocidente, através da influência da teosofia.

Ajahn Sumedho, em seu livro As Quatro Nobres Verdades, explica o carma da seguinte forma [4]:

Kamma – (em Sanscrito: karma) acção ou causa que é criada ou recriada pelos impulsos habituais, vontade própria ou energias naturais. Denota a vontade benéfica ou prejudicial que se manifesta com o corpo, linguagem e mente. Marcas ou impressões que ficam na nossa mente causando o renascimento e moldando o destino dos seres. Popularmente usado, muitas vezes inclui o sentido de resultado ou efeito da acção, embora o termo correcto para isto seja vipaka.

Outro exemplo de definição, é o encontrado no livro Todos Nós Assediados Pelo Envelhecimento, Morte e Nascimento, de Ayya Khema [5]:

Kamma: ação intencional. Denota a intenção ou volição (cetana) benéfica (kusala) ou prejudicial (akusala) e os seus fatores mentais concomitantes que causam o renascimento e moldam o destino dos seres. As intenções se manifestam como ações benéficas ou prejudiciais com o corpo, linguagem e a mente.

Carma saudável e não saudável

Já sabemos que o carma nada mais é do que a própria ação, mas, segundo o budismo, quais são essas ações saudáveis e não saudáveis?

São dez as ações ou carmas não saudáveis, opostos às dez ações ou carmas saudáveis, uma das muitas demonstrações de dualismo encontradas no budismo, e são classificadas em ações ou carmas do corpo, da fala e da mente.

As três ações ou carmas não saudáveis do corpo são: matar; roubar; e, ter conduta sexual imprópria [6]. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis do corpo são: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa.

As quatro ações ou carmas não saudáveis da fala [7] são: a linguagem mentirosa; a linguagem maliciosa; a linguagem grosseira; e, a linguagem frívola (fútil, inútil). Em contrapartida, as quatro ações ou carmas saudáveis da fala são: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma [8].

As três ações ou carmas não saudáveis da mente são: cobiça ou inveja; má vontade; e, entendimento incorreto. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis da mente são: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e, alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades, ou seja, desenvolver a sabedoria.

Evitando o entendimento incorreto

Compreender adequadamente o carma, significa também identificar quais são as formas de entendimento incorreto e afastá-las. Seguem algumas dúvidas esclarecidas sob a forma de perguntas e respostas:

Podemos concluir que carma e destino são a mesma coisa?

Não. O destino pode ser considerado como a consequência de ações ou carmas passados, e não o próprio carma. Devemos ter em mente que o destino é muitas vezes interpretado como algo inevitável, algo que ocorrerá em nossas vidas independentemente da nossa vontade, contudo, o funcionamento do carma não pode ser compreendido dessa forma, uma vez que está em constante formação e, portanto, mutável.

Tudo o que acontece nas nossas vidas é reflexo de nossas ações ou carmas passados?

Não. O carma é apenas um dos cinco processos que operam nas esferas do físico e do mental. Para responder a essa pergunta, recorremos ao livro Budismo Em Poucas Palavras, de Narada Mahathera [9]:

Segundo o Budismo, existem cinco ordens ou processos (Niyāmas) que operam nas esferas do físico e do mental:

1. Kamma Niyāma: Ordem de ato e consequência – por exemplo, atos desejáveis ou indesejáveis produzem os correspondentes bons ou maus resultados.
2.
Utu Niyāma: Ordem física (inorgânico) – por exemplo, fenómenos sazonais dos ventos e das chuvas.
3.
Bīja Niyāma: Ordem dos germes ou sementes (ordem orgânico-física) – por exemplo, o arroz produzido por sementes de arroz, o sabor doce da cana-de-açúcar ou mel, etc. A teoria científica das células e genes e a similaridade entre gémeos são exemplos desta ordem.
4.
Citta Niyāma: Ordem da mente ou lei psíquica – por exemplo, os processos de consciência (Citta Vīthi), poder da mente, etc.
5.
Dhamma Niyāma: Ordem da norma – por exemplo, os fenómenos naturais que ocorrem quando chega um Bodhisatta em seu último nascimento, gravidade, etc.

Todos os fenómenos mentais ou físicos poderão explicar-se por estas cinco ordens ou processos que abarcam tudo e que são leis em si mesmas.

O Kamma é, portanto, só uma das cinco ordens que prevalecem no universo. Trata-se de uma lei em si mesma, mas não se deve inferir que deve existir um legislador. As leis atuais da natureza, como a lei da gravidade, não necessitam de um legislador. Operam em seu próprio campo sem a intervenção de um agente governante independente.

Devemos aceitar passivamente o carma de vidas passadas?

Não. O funcionamento do carma é segmentado, não linear, o que significa que é construído momento a momento e, dessa forma, pode ser equilibrado com ações saudáveis do presente e seus efeitos podem ser percebidos ainda nesta vida. Portanto, não devemos adotar uma postura desanimadora quando enfrentamos problemas, uma vez que tais efeitos podem ser minimizados ou até mesmo superados. Aceitamos os efeitos do carma, no sentido de não nos revoltarmos, mas mantemos uma postura ativa, buscando agir de forma saudável para que os efeitos indesejados sejam enfraquecidos ao longo do tempo.

É correto o entendimento de que não devemos ajudar as pessoas que sofrem, uma vez que elas são merecedoras desse sofrimento devido às suas ações ou carmas passados?

Não. Acredito que entre os entendimentos incorretos sobre o funcionamento do carma, este seja o mais equivocado de todos. Não devemos, em hipótese alguma, julgar ou buscar explicações para o momento vivido por outras pessoas, pois nosso ego estará sempre equivocado nesse processo de valoração. Devemos lembrar, acima de tudo, que desejaríamos ajuda se estivéssemos em uma situação desfavorável. Então, se tivermos a oportunidade, devemos ajudar, mas de acordo com a nossa capacidade e até o limite em que a outra pessoa permite ser ajudada, pois, cada um tem o seu próprio momento.

Conclusão

Compreender o funcionamento do carma é importante para que possamos manter a calma quando passamos por um momento delicado de saúde, quando sofremos uma agressão, quando deixamos de atingir um objetivo almejado, enfim, quando a vida nos apresenta alguma situação que interfere em nossa tranquilidade, e ter consciência de que, assim como os momentos que nos trazem satisfação são passageiros, aqueles que nos trazem sofrimento também são. Não há porque nos desesperarmos ou nos revoltarmos, pois, agindo dessa forma, apenas iremos acumular mais carma não saudável e complicar ainda mais nosso futuro, seja nesta vida, seja na próxima.

Nessa caminhada, não necessitamos compreender exatamente quais serão os efeitos de nossas ações, sejam elas saudáveis ou não saudáveis, uma vez que o próprio Buda desaconselha que o discípulo utilize seu esforço nessa busca [10]. O importante é sabermos que as ações demoram um pouco a amadurecer e embora não percebamos os resultados inicialmente, em algum momento elas irão gerar frutos.

É certo que vivenciamos situações, até certo ponto, moldadas pelas ações ou carmas produzidos em vidas anteriores, mas podemos igualmente afirmar que esse processo, construído momento a momento, pode ser minimizado.

Nosso desafio é o de, pelo menos, evitar novas ações ou carmas não saudáveis e, dessa forma, reduzir a força do que já foi feito no passado. Contudo, nosso objetivo maior é o cultivo de ações e carmas saudáveis para que possamos, quem sabe, colher os frutos ainda nesta vida e fortalecer nossa caminhada para a próxima.

Mais do que uma busca pessoal, também podemos afirmar que é um exercício em benefício ao próximo. Imagine se todas as pessoas se empenhassem em cultivar hábitos saudáveis, se preocupassem em orientar suas vidas com integridade e honestidade. O mundo não seria melhor?

Há um trecho que sempre cito quando o tema do carma é abordado e que demonstra, com profunda sabedoria, que podemos pôr em prática nosso livre arbítrio, ainda que a nossa vida seja, até certo ponto, moldada pelas ações de vidas passadas. Para tanto, é feita uma comparação com o fluxo de um rio [11]:

Algumas vezes, o fluxo do passado é tão forte que pouco pode ser feito além de rapidamente sair da frente; mas também há momentos nos quais o fluxo é tão suave que pode ser desviado para quase toda direção.

Encerramos com os versos 119 e 120 do Dhammapada [12], para reflexão:

Tudo pode correr bem com aquele que faz o mal, enquanto o mal não amadurece. Mas quando o mal amadurece, o malfeitor vê (penosos resultados) as suas más acções.

Tudo pode correr mal com aquele que faz o bem, enquanto o bem não amadurece. Mas quando o bem amadurece, então o benfeitor vê (bons resultados) as suas boas acções.

Notas

[1] A ideia de fenômeno condicionado é aquela de que nada acontece por acaso. Quando existe uma situação propícia, um fenômeno surge, se transforma ao longo de seu período de existência, e depois desaparece. Nosso corpo talvez seja o maior exemplo de fenômeno condicionado.

[2] MAHATHERA, Narada. Budismo Em Poucas Palavras (ed. eletrônica). Tradução e edição de Ricardo J. C. Sousa, 2013. p. 41. Disponível no menu “Biblioteca”.

[3] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 88-89. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] SUMEDHO Ajahn. As Quatro Nobres Verdades (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2007. p. 63. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] KHEMA, Ayya. Todos Nós Assediados Pelo Envelhecimento, Morte e Nascimento (ed. eletrônica). Acesso ao Insight: Tradução de Michael Beisert. p. 54. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] A definição para comportamento sexual impróprio pode ser encontrada em alguns suttas. Segue o trecho explicativo do Sevitabbasevitabba Sutta, do Majjhima Nikaya. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 14 jul. 2017.
(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva. (…)

[7] No Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, encontramos uma perfeita explicação da linguagem incorreta, bem como da correta. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 14 jul. 2017.
(…) Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício. (…)

[8] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[9] MAHATHERA, Narada. Budismo Em Poucas Palavras (ed. eletrônica). Tradução e edição de Ricardo J. C. Sousa, 2013. p. 48-49. Disponível no menu “Biblioteca”.

[10] É o que o Buda nos diz no Acintita Sutta, do Anguttara Nikaya. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIV.77.php >. Acesso em 14 jul. 2017.

[11] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 12. Disponível no menu “Biblioteca”.

[12] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 50. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 19 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

O Samsara

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O primeiro contato com o ar,
um grito de socorro e a difícil adaptação.
Um ponto de luz, um brilho ofuscante.
Quanto sofrimento!

De repente, tudo é novidade,
uma explosão de cores, sabores e aromas.
Incontáveis sensações, liberdade absoluta.
Quanta satisfação!

E surgem as responsabilidades,
caminhos infinitos, nenhuma orientação.
Escolhas erradas, a difícil arte de aprender.
Quanto sofrimento!

Delas, as recompensas.
A família, o profissional reconhecido,
a formação de um ego exigente.
Quanta satisfação!

E com elas, novas responsabilidades.
Cobranças pessoais, o desafio de ser tolerante,
a manutenção de um ego exigente.
Quanto sofrimento!

A colheita dos frutos da vida,
a noção do dever cumprido,
o descanso merecido do ego.
Quanta satisfação!

Sinais de um corpo cansado,
o implacável efeito do tempo,
a decepção de um ego traído.
Quanto sofrimento!

Memórias vêm e vão,
de obstáculos, realizações e aprendizados.
Uma vida intensa e bem vivida.
Quanta satisfação!

O medo do desconhecido,
a certeza de que tudo é incerto.
O momento do desapego.
Quanto sofrimento!

Ainda há tanto por fazer…
Se eu tivesse mais uma chance,
tudo seria tão diferente…
O desejo.

E o desejo se realiza,
é hora de renascer.


SAMSARA: ‘Roda de Renascimento’, lit. ‘vaguear perpétuo’, é um nome pelo qual é designado o mar da vida sempre agitadamente subindo e descendo, o símbolo desse processo contínuo e sempre renovado de nascimento, envelhecimento, sofrimento e morte. Mais precisamente colocado, Samsara é a cadeia ininterrupta das combinações dos 5 Khandhas, a qual, constantemente mudando de momento a momento segue contìnuamente (sic) uma após a outra por períodos de tempo inconcebíveis. Desse Samsara, uma simples duração vida (sic) constitui somente uma pequena e instável fração; assim, para ser capaz de compreender a primeira nobre verdade do sofrimento universal, deve se colocar o foco sobre o Samsara, sobre essa assustadora cadeia de renascimentos, e não meramente apenas uma simples duração de uma vida, a qual pode ser, é claro, algumas vezes menos dolorosa. – Cf. tilakkhana, anatta, paramatha, patisandhi.

MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 171. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 29 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

Podemos Aprender Até Com As Situações Mais Insignificantes

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Quem se lembra daquele desenho animado do Pica-pau [1], em que os animais da floresta trabalhavam incansavelmente para abastecer suas despensas e se preparavam para o inverno, enquanto que o Pica-pau, despreocupado, apenas vivia o momento presente, mas sem qualquer responsabilidade?

Entre aquelas criaturas trabalhadoras, a formiga merece destaque. Incansável, workaholic [2], talvez acumuladora compulsiva. O problema é que essa pequena criatura, às vezes, demonstra toda sua eficiência não lá fora, mas no conforto do nosso lar, e, quando percebemos, já estamos repartindo nossa comida com elas.

Aplicamos inseticidas em seus esconderijos, que se mostram ineficientes a longo prazo, descobrimos novos instrumentos de extermínio em massa, como aquele gel que as atrai para o “último banquete”, mas todos esses meios falham no seu objetivo, que é o de expulsá-las da nossa residência.

Até ficamos satisfeitos por um tempo, mas logo vemos uma andando aqui, outra andando ali, e então descobrimos mais uma trilha delas. No final, toda aquela matança fora em vão.

Além de demonstrarmos total descaso pela vida dos outros seres, não paramos para refletir sobre o problema, não atacamos a raiz do problema, que não é a presença delas, mas sim a nossa casa, que não se mantém limpa devido aos nossos hábitos.

O budismo nos ensina que não devemos tirar a vida dos outros seres [3], pelo simples fato de que todas as criaturas desejam viver e lutam pelas suas respectivas vidas, não apenas nós seres humanos.

A seguir, descrevo como o problema com as formigas foi resolvido, sem a necessidade de continuar exterminando-as.

Primeiramente, reconhecemos que o problema não era a presença delas, e sim nossos hábitos, meus e os da minha esposa. Jogávamos frequentemente resíduos de bolos e outros doces na lixeira da cozinha e demorávamos para substituir o lixo; acumulávamos embalagens vazias sobre a pia, para posterior separação e reciclagem, e alguns desses recipientes eram fontes de açúcar; repartíamos bolos sem muita atenção e o farelo caia sobre a bancada e sobre o chão; comíamos sem muita atenção e, novamente, deixávamos resíduos por onde quer que passássemos.

Como parte do plano de contingência, continuei utilizando o inseticida do tipo spray, mas sem aplicar sobre elas ou sobre o esconderijo delas, mas dentro da lixeira, como forma de impedir que continuasse a ser uma fonte de alimentos para as formigas, e, assim, elas não mais retornaram à lixeira.

Passamos a lavar, sem muito desperdício de água, as embalagens vazias sobre a pia para tirar o excesso de açúcar, até que pudessem ser ensacadas e separadas do lixo orgânico. As formigas ainda passeavam sobre a pia, mas apenas para beber água, não mais para se alimentar.

Desenvolvemos o hábito de maior atenção ao manusearmos biscoitos, bolos e outras fontes de açúcar. Dessa forma, a presença das formigas pela casa diminuiu consideravelmente, mas ainda era possível vê-las aqui e ali, até que em determinado dia algo extraordinário aconteceu.

Estava tranquilamente sentado na poltrona da sala quando, de repente, ouço um grito vindo da cozinha e dou um pulo de susto: “AMOR! VENHA VER UMA COISA!”.

Vou até a cozinha e vejo uma trilha com centenas de formigas, ou milhares, em mão única em direção à janela. Nessa trilha, também estavam algumas que pareciam as rainhas, bem maiores que as demais, devidamente protegidas por várias outras em volta, que as escoltavam lentamente pela mesma trilha. Vi também, incontáveis formigas carregando pequenos detritos coloridos – brancos, amarelos, azuis, verdes, vermelhos –, e, só então, pudemos perceber como era o nosso hábito alimentar e o quanto de corantes artificiais ingeríamos.

Em um passado não muito distante, esse seria o momento perfeito para matar todas elas com o inseticida do tipo spray, mas apenas permitimos que elas seguissem o caminho delas, talvez motivados por uma forma rudimentar de compaixão. Enfim, estavam abandonando definitivamente a nossa residência, e, por incrível que pareça, isso não nos trouxe a felicidade tão esperada [4].

Durante esse período de reeducação de hábitos pessoais, foi necessário, primeiramente, identificar a raiz do problema, que não era externa, não era a presença delas, e sim interna, nossa forma desleixada e desatenta de lidar com os alimentos. Também, foi necessária uma boa dose de paciência e tolerância, para convivermos harmoniosamente com as formigas até que elas decidissem abandonar nossa residência, o que, de fato, não sabíamos se iria ocorrer.

Esta é apenas uma pequena demonstração de que podemos extrair sempre algo de positivo até daquelas situações que nos parecem mais insignificantes. Ao invés de fomentarmos a intolerância, buscamos lidar da melhor forma com o problema e resolvê-lo definitivamente, do nosso interior para o exterior.

Assim é a vida, que sempre nos apresenta situações que põem à prova nossa paciência e nossa tolerância [5]. Da mesma forma, sempre temos diversas alternativas para lidar com um único tipo de problema apresentado. Alguns desses meios demandam pouco esforço, mas, por outro lado, não nos trazem a solução definitiva do problema. Outros, em contrapartida, exigem grande esforço, mas nos recompensa com a solução definitiva do problema.

E então, qual dos meios escolheremos para lidar com os problemas?

Notas

[1] Quem nunca assistiu ao desenho animado mencionado e gostaria de vê-lo, ou gostaria de relembrá-lo, se assim o desejar, basta pesquisar na internet pelo título: “Pica-pau – Os Trabalhadores da Floresta”.

[2] Aquele viciado em trabalho; trabalhador compulsivo.

[3] “Não matar seres vivos”, um dos Cinco Preceitos, o mínimo exigido daquele que se considera budista.

[4] Não se pode encontrar a felicidade verdadeira em fatores externos, essa felicidade é precária e passageira. O tema é melhor desenvolvido no seguinte artigo: O Budismo e a Verdadeira Felicidade.

[5] Essa é a Primeira das Quatro Nobres Verdades do budismo: o sofrimento. O simples fato de vivermos neste mundo é suficiente para que sejamos expostos a incontáveis situações que põem à prova nossas virtudes e nos provocam sofrimento.

Última revisão: 26 de junho de 2017.
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Contemplação da Lua

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A noite nos oferece um belo objeto de contemplação: a lua.

O brilho da lua nada mais é do que uma ilusão, o reflexo da luz do sol. Ainda assim, essa ilusão é a que nos mantém atentos ao caminho, na escuridão da noite, até o amanhecer do dia, que nos traz a luz verdadeira, e então podemos abandonar a ilusão.

A lua, às vezes, brilha imponente, às vezes, apenas se faz presente. Da mesma forma é o funcionamento da nossa mente, quando serena ou envolta pelos pensamentos.

Enquanto a nuvem de pensamentos se mantém, em vão é o esforço para revelar o brilho verdadeiro da mente. Enquanto a felicidade precária do desejo se mantém, em vão é o esforço para revelar a felicidade verdadeira da mente.

Às vezes utilizamos alguns recursos para nos manter no caminho, mas devemos sempre compreender que chegará um momento em que deveremos abandoná-los também, assim como abrimos mão do brilho da lua, no amanhecer do dia.

Aquele que tendo sido descuidado deixa de o ser, ilumina este mundo como a lua descoberta de nuvens.

Ele, que por boas acções compensa o mal que fez, ilumina este mundo como a lua descoberta de nuvens.

Dhammapada, versos 172 e 173 [1].

Notas

[1] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 68. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 23 de junho de 2017.
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Perguntas Certas, Respostas Necessárias

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É o seu primeiro contato com o budismo? Recomendamos começar por aqui: O Que é Necessário Para Se Tornar Um Budista?


Quando iniciamos a leitura de um livro e gostamos da experiência, queremos prosseguir até o último capítulo. Quando vemos um filme que nos agrada, queremos saber o desfecho da trama. Quando temos acesso a determinado conhecimento de nosso interesse, queremos mais e mais respostas.

O Buda, um ser humano extraordinário, tinha resposta para perguntas imagináveis e inimagináveis, não é à toa que era considerado o mestre dos homens e dos devas [1]. Muitas dessas respostas, adquiriu quando de sua perfeita iluminação [2], momento em que pôde investigar suas vidas anteriores, bem como pensamentos e ações passadas. Isso lhe permitiu analisar as consequências de determinado ato e o quanto fora determinante para moldar sua existência posterior, seja na Terra ou em algum dos outros mundos [3].

O tema de vidas passadas é recorrente no budismo. Existem alguns suttas incríveis que nos dão uma pequena amostra desse vastíssimo conhecimento do Buda, que ultrapassava a fronteira dos homens e do próprio planeta Terra.

No Mahapadana Sutta, do Digha Nikaya, o Buda fala de seus antecessores [4]:

Bhikkhus, noventa e um éons atrás, o Abençoado, um arahant, perfeitamente iluminado Buda Vipassi surgiu no mundo. Trinta e um éons atrás, o Buda Sikhi surgiu; nesse mesmo éon, o Buda Vessabhu surgiu. E neste presente éon afortunado, os Budas Kakusandha, Konagamana e Kassapa surgiram no mundo. E, bhikkhus, neste presente éon afortunado, eu surgi no mundo como um um (sic) arahant, perfeitamente iluminado.

Éon é uma medida de tempo e não há um consenso acerca de sua duração. Para determinada religião, corresponde à eternidade, contudo, em astronomia, já foi utilizado como escala de um bilhão de anos [5].

Mais à frente, no mesmo sutta, o Buda revela o tempo de vida de seus antecessores:

Na época do Buda Vipassi o tempo de vida era de oitenta mil anos; na época do Buda Sikhi setenta mil anos; na época do Buda Vessabhu sessenta mil; na época do Buda Kakusandhu quarenta mil; na época do Buda Konagamana trinta mil; na época do Buda Kassapa era de vinte mil anos. Na minha época o tempo de vida é curto, limitado e passageiro: é raro que alguém viva até os cem anos.

Não é fácil compreender um discurso que fala de noventa e um éons passados, período em que o planeta Terra sequer existia, uma vez que o marco inicial do nosso planeta ocorrera há aproximados 4,54 bilhões de anos atrás [6].

Em outro sutta, o Buda é ainda mais específico sobre o tema de vidas passadas ao abordar o kamma – carma [7] e traçar um paralelo entre a conduta praticada e a sua consequência em um retorno posterior [8]:

Os seres são possuidores e herdeiros de suas ações … as ações dividem os seres em superiores e inferiores.
Existe aquele, mulher ou homem, que destrói seres humanos, é cruel, dedicado a machucar e a matar, sem amor pelas coisas vivas. Através de tais ações, realizadas ou por realizar, essa pessoa, na dissolução do seu corpo na morte, irá cair em um estado inferior de existência, num curso de vida maléfico, na perdição ou inferno… ou se renascer como um ser humano, ele terá, não importa onde, uma vida curta.
E ele se move sorrateiramente em suas ações de corpo, fala e pensamento. Sorrateiros são seus trabalhos, palavras e pensamentos, sorrateiros seus caminhos e posses. Mas eu digo a vocês, monges, qualquer um que persegue caminhos e objetos sorrateiros, terá que esperar dois desses resultados: se atormentar no inferno ou nascer entre os animais que se arrastam.
Existe aquele que tem o hábito de causar dor a outros através dos punhos, pedra, pau ou espada. Através de tais ações irá cair num estado inferior… ou se, renascendo como ser humano, ele terá, onde quer que esteja, muitas doenças.
Existe aquele que tem um temperamento esquentado, rapidamente entra na raiva; à menor coisa que lhe é dita ele fica enfurecido, é bravo, teimoso, mostra excitamento, ódio e suspeita. Através de tais ações irá cair num estado inferior … ou se nascer entre os seres humanos terá uma aparência feia.
Existe aquele que é invejoso, cheio de ciúmes e animosidade. Sente inveja do que os outros recebem como presentes, hospitalidade, honra, veneração, respeito salutar, e oferendas. Através de tais ações ou pensamentos ele irá cair num estado inferior… ou, se nascer como um ser humano ele irá, onde quer que seja, possuir somente pouca influência.
Existe aquele que é arrogante e cheio de vaidade. Ele não saúda quem deveria, nem se levanta para quem deveria, nem respeita ou honra os que são devidos, nem dá presentes para os que deveriam receber presentes. Através de tais ações e pensamentos irá cair num estado inferior … ou se renascer como ser humano, ele irá, onde quer que seja, nascer num berço inferior.

Tanto esse último discurso, como aquele primeiro, em que o Buda fala de seus antecessores, são direcionados aos Bhikkhus, monges budistas, que, obviamente, estão mais preparados para compreender os ensinamentos. Ainda assim, esse último, é de fácil compreensão até mesmo para os praticantes budistas leigos, uma vez que contém mera relação de causa e efeito. Contudo, o mesmo não pode ser dito do primeiro discurso, que pode suscitar mais dúvidas do que esclarecimentos.

É importante que conheçamos nossa limitação de entendimento ao buscarmos explicações para todas as nossas dúvidas. O que faremos com a resposta se a obtivermos? Será útil para nossa prática e crescimento pessoal ou nos deixará com ainda mais dúvidas? Nos trará tranquilidade ou fomentará inquietação por não estarmos preparados para compreendê-la?

Para o Buda, existiam quatro tipos de perguntas [9]: aquela que merece uma resposta categórica, direta ao ponto; aquela que merece uma resposta analítica, construída cuidadosamente, com atenção a todos os pontos importantes; aquela que merece uma contra pergunta; e, aquela que merece ser deixada de lado.

Quanto a essa última, o critério utilizado pelo Buda era o de utilidade: qual benefício traria para a prática do discípulo a resposta a determinada pergunta?

Se considerarmos apenas as perguntas que merecem ser respondidas, de acordo com o critério do Buda, ainda assim, podemos nos surpreender com a resposta, por não ser aquilo que esperamos ouvir. Então, também existe o momento adequado para se responder a uma pergunta cuja resposta possa ser desagradável, embora verdadeira e benéfica ao ouvinte.

O Abhaya Sutta, do Majjhima Nikaya trata exatamente desse tema, conforme introdução de Thanissaro Bhikkhu, que resume o teor do ensinamento [10]:

Neste discurso, o Buda mostra os fatores que decidem o que deve ser dito e o que não deve ser dito. Os principais fatores são três: se uma afirmação é verdadeira ou não, se é benéfica ou não e, se é agradável para os outros ou não. O próprio Buda afirmaria somente aquelas coisas que são verdadeiras e benéficas, e tinha uma noção do momento em que coisas agradáveis e desagradáveis deviam ser ditas.

Os temas “vida passada”, “kamma – carma” e “renascimento”, citados em diversos ensinamentos do Buda, são interdependentes e despertam muito interesse do praticante. No entanto, esse interesse pode ser útil para a nossa prática diária, na medida em que compreendemos seu funcionamento e passamos a agir orientando nossa conduta, mas também pode nos levar a questionamentos do tipo “de onde viemos?”, “para onde vamos?”, que são irrelevantes para a nossa caminhada.

O que está feito, está feito, não pode ser modificado, mas podemos equilibrar as nossas ações prejudiciais passadas com as nossas ações benéficas do presente, e, assim, diminuir os efeitos provocados pelo kamma. Dessa forma, não precisamos nos preocupar com o passado ou com o futuro, basta concentramos no presente momento e vive-lo da forma mais íntegra possível. É o suficiente.

Também, não devemos fomentar uma postura desanimadora ao compreendermos que determinadas situações que enfrentamos são consequências de ações passadas, uma vez que podemos colher os frutos de nossas ações benéficas ainda nesta vida. Há uma passagem que ilustra com profunda sabedoria o funcionamento da lei do kamma [11]:

Os budistas, no entanto, viram que o karma funciona em circuitos múltiplos de feedback, de forma que o momento presente é moldado, tanto por ações do passado, como do próprio presente. Além disso, as ações do presente não são necessariamente determinadas por ações do passado. Em outras palavras, o livre arbítrio existe, ainda que seu alcance seja, até certo ponto, ditado pelo passado. A natureza dessa liberdade é simbolizada por uma imagem usada por esses budistas dos primórdios: água corrente. Algumas vezes, o fluxo do passado é tão forte que pouco pode ser feito além de rapidamente sair da frente; mas também há momentos nos quais o fluxo é tão suave que pode ser desviado para quase toda direção.

Por fim, o próprio Buda define alguns temas que se objetos de suposições, presunções e deduções constantes, podem conduzir à loucura [12]:

Existem esses quatro não conjecturáveis em relação aos quais não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito. Quais quatro?
A extensão búdica dos Budas [ isto é a extensão dos poderes desenvolvidos por um Buda como resultado de tornar-se um Buda] é um não conjecturável sobre o qual não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.
A extensão dos jhanas para uma pessoa que está em jhana [ isto é, a extensão dos poderes que podem ser obtidos enquanto se está absorto em jhana]….
[A maneira precisa como se desenvolvem] os resultados do kamma…
Conjectura acerca [ da origem, etc..] do mundo é um não conjecturável sobre o qual não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.
Esses são os quatro não conjecturáveis em relação aos quais não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.

Que possamos formular as perguntas certas e obter as respostas necessárias, ao alcance de nossa compreensão e em benefício de nossa prática.

[1] “DEVA: (literalmente: Os Radiantes, relativo ao Lat. deus), Seres Celestiais, deidades, celestiais: são seres que moram nos mundos felizes, e que, como regra, são invisíveis aos olhos humanos. Eles estão sujeitos, entretanto, como todos os humanos e outros seres, a repetirem o renascimento, velhice a morte, e, portanto, não estão livres do círculo da existência, e não estão livres da miséria/infelicidade/desventura. Há muitas classes de seres celestiais.“. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 57. Disponível no menu “Biblioteca”. Existem inúmeros suttas em que o Buda é anunciado como “mestre de devas e humanos”. Seguem apenas alguns poucos exemplos: Samanaphala Sutta, do Digha Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN2.php >; Vatthupama Sutta, do Majjhima Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN7.php >; e, Dhajagga Sutta, do Samyutta Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXI.3.php >. Fonte: Acesso ao Insight. Acesso em 17 jun.

[2] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[3] Segundo o budismo, existem diversos mundos de existência. Quatro desses são chamados de mundos inferiores – apaya – e compreendem o inferno, o mundo dos demônios, o mundo dos animais e o mundo dos fantasmas famintos. Também temos o mundo dos humanos e diversos outros mundos superiores com criaturas celestiais em diferentes níveis. É importante ressaltar que a noção de inferno do budismo é diferente daquela apresentada em outras crenças, onde é considerado um castigo eterno para aqueles seres que desviaram do caminho correto. Para o budismo não há permanência eterna em qualquer dos mundos e o inferno é uma forma temporária de equilíbrio do kamma ou carma, que é o produto de nossos pensamentos e de nossas ações, e que determina onde e como renasceremos.

[4] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN14.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[5] Fonte: Wikipedia, The Free Encyclopedia – Aeon. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Aeon >. Acesso em 17 jun. 2017.

[6] Fonte: Wikipedia, The Free Encyclopedia – History of Earth. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Earth#Origin >. Acesso em 17 jun. 2017.

[7] Kamma ou carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[8] RAHULA, Bhante Yogavacara. Cap. III, Karma e Renascimento (ed. eletrônica). p. 12-13. Tradução do livro The Way to Peace and Hapiness. Sri Lanka: Buddhist Cultural Centre, 1997. O sutta citado por Bhante Yogavacara Rahula é o XII, 18, do Samyutta Nikaya, contudo, como não encontrei a tradução para o português, utilizei como referência o próprio livro do autor.

[9] Interpretação a partir do sutta. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIII.67.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[10] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN58.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[11] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 11-12. Disponível no menu “Biblioteca”.

[12] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIV.77.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
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A Tolerância e o Equilíbrio Emocional

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Conciliar a vida em sociedade com o controle da mente pode ser uma tarefa árdua. Se fizermos uma pequena pausa para uma retrospectiva do dia, perceberemos que já acordamos contrariados. Nosso desejo era o de permanecer dormindo no conforto da nossa cama, mas o despertador, merecedor desse nome, nos fez despertar para a realidade, a realidade de uma vida repleta de tarefas e responsabilidades.

Nesse vaivém da vida, somos obrigados a aceitar algumas situações que nos provocam sofrimento, e, tendemos a evitar aquelas em que temos essa possibilidade de escolha, sem investigarmos o porquê do desequilíbrio emocional causado por essas situações.

Assim, esforçamo-nos para a manutenção de um ego aparentemente inabalável. Mas, qual o problema em agirmos assim? O sofrimento é uma coisa ruim, certo? Certo. Então, evitando a situação que provoca esse sentimento nossa vida será mais feliz, certo? Não é bem assim.

Quando evitamos uma situação que nos causa desconforto, na verdade, não estamos aprendendo a lidar melhor com ela, não estamos investigando a origem do sofrimento [1]. Conseguimos desviar daquela situação incômoda, mas logo vem outra e em seguida outra, e, quando percebemos, estamos sofrendo antes mesmo delas aparecerem, temos medo de que algo interfira na nossa aparente tranquilidade, na nossa aparente felicidade.

Contudo, o budismo nos ensina que essas situações continuarão surgindo, pois essa é a natureza do mundo [2], e, o sofrimento, não vem acompanhado dessas situações, é provocado pelo nosso eu, pelo nosso ego, na medida em que desejamos algo que não pode ser encontrado neste mundo, a permanência. Desejamos a estabilidade em um mundo instável, desejamos a continuidade em um mundo em que tudo surge, se transforma e desaparece.

Somente quando compreendemos a natureza como ela é [3], damos um passo em direção ao fim do sofrimento e enxergamos aquelas situações indesejáveis, outrora danosas, como fundamentais para exercitarmos nosso entendimento da realidade e desenvolvermos nossa tolerância.

Acho que todos já ouvimos falar desse tipo de pessoa: “fulano é ótima companhia para sair, mas para trabalhar…”. Esse tipo de pessoa, na verdade, é mais comum do que se imagina, talvez sejamos assim, mas nosso ego não nos deixa admitir isso.

Ajahn Chah, um grande mestre do budismo Theravada, dizia algo mais ou menos assim: “se você não consegue meditar na cidade, não vai ser na floresta que vai conseguir” [4]. Significa que, se a pessoa não é capaz de manter a concentração com os barulhos da cidade, não vai ser no aparente silêncio da floresta que ela vai conseguir, uma vez que os barulhos da floresta também irão prejudicar sua concentração, como o do vento, o das folhas caindo, o do estalar das árvores, o dos pássaros, o dos grilos, o dos sapos, etc.

Utilizando os exemplos acima como analogia, se não enfrentarmos as situações que nos causam sofrimento, como iremos aprender a lidar com elas? Como nos livraremos dos seus efeitos se não investigarmos sua origem?

Quando surgir uma dessas situações, devemos, antes de tudo, antes de falar ou agir, permanecer em silêncio e questionar mentalmente: porque estou reagindo dessa forma? Pelo simples fato de fazermos esse questionamento interno, veremos que aquele sentimento desagradável perderá força, pela simples razão de que não há qualquer substancialidade nele, não existe por si só, foi construído na nossa própria mente.

Quando a mente questiona uma construção dela mesma, não há como sustentar algo sem qualquer substancialidade e o incômodo vai, aos poucos, desaparecendo, sem que para isso tenhamos que recorrer a qualquer auxílio externo. A ajuda reside dentro de nós, apenas não compreendemos isso devido a uma vida inteira voltada para o exterior, uma vida inteira de busca por respostas onde elas não podem ser encontradas.

É claro que a paz, a tranquilidade, a felicidade verdadeira, só podem ser percebidas por aquelas pessoas que cultivam estados mentais hábeis [5], em benefício de si próprias e dos outros seres. Não se pode experimentar sentimentos nobres se prejudicamos a nós mesmos e aos outros seres.

Assim, não é fugindo dos problemas que aprenderemos a lidar melhor com eles. Se não aceitamos as situações que a vida nos apresenta, como desenvolveremos nossa tolerância e manteremos nosso equilíbrio emocional? E o que fazer quando necessitarmos da tolerância alheia se não estamos cultivando-a?

As situações consideradas adversas não trazem, por si só, qualquer sentimento de felicidade ou sofrimento. Essa construção ocorre na nossa mente, de acordo com as expectativas que criamos e sem considerarmos que no mundo impera a lei da impermanência, assim como em todo o universo. Todos os fenômenos da natureza, sejam aqueles externos, sejam aqueles que se passam na nossa própria mente, surgem, se transformam e desaparecem.

Se continuarmos a eliminar as situações que nos causam desconforto, na verdade, nos identificaremos cada vez mais com aquela pessoa agradável para os momentos agradáveis, desagradável para os momentos desagradáveis, uma vez que não desenvolveremos habilidades para lidar com as mudanças que fazem parte deste mundo.

Se continuarmos nesse caminho equivocado, até as pequenas coisas serão causadoras de desequilíbrio e desviarão nossa atenção.

Em contrapartida, apenas com o conhecimento da realidade como ela realmente é, sabendo que é o ego quem atribui valoração às situações enfrentadas no nosso dia a dia, poderemos ser mais tolerantes e manteremos nosso equilíbrio emocional.

Anexos

Abaixo, compartilho trechos dos suttas [6] que serviram de inspiração para este breve artigo:

Sattajatila Sutta, do Samyutta Nikaya [7]:

É vivendo junto com uma pessoa que a sua virtude pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É lidando com uma pessoa que a sua pureza pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É através da adversidade que a tolerância de uma pessoa pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É através da discussão que o (sic) sabedoria de uma pessoa pode ser conhecido (sic) e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.

Kakacupama Sutta, do Majjhima Nikaya [8]:

Antigamente, bhikkhus, aqui mesmo em Savatthi havia uma dona de casa chamada Vedehika. E um bom relato sobre a Senhora Vedehika havia se espalhado: ‘A Senhora Vedehika é boa, a Senhora Vedehika é gentil, a Senhora Vedehika é pacífica.’ Agora a Senhora Vedehika tinha uma empregada chamada Kali, que era destra, ágil e perfeita no seu trabalho. A empregada Kali pensou: ‘Um bom relato sobre a minha senhora tem se espalhado. Como será isso, embora ela não demonstre raiva, a raiva está na verdade presente nela ou está ausente? Ou será que é apenas devido ao meu trabalho perfeito que a minha senhora não demonstra a raiva, mas a raiva, no entanto, está na verdade presente nela? E se eu testasse a minha senhora.’
Assim a empregada Kali se levantou mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou tão tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta tão tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e olhou com cara feia. Então a empregada Kali pensou: ‘O fato é que, apesar da minha senhora não demonstrar raiva, a raiva ainda está na verdade presente nela, não ausente; e é apenas devido ao meu trabalho perfeito que a minha senhora não demonstra raiva, que na verdade está presente nela, não ausente. E se eu testasse a minha senhora um pouco mais.’
Assim a empregada Kali se levantou ainda mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou ainda mais tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta ainda mais tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e disse palavras de desaprovação. Então a empregada Kali pensou: ‘O fato é que, apesar da minha senhora não demonstrar raiva, a raiva ainda está na verdade presente nela, não ausente. E se eu testasse a minha senhora um pouco mais.’
Assim a empregada Kali se levantou ainda mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou ainda mais tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta ainda mais tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e tomou um rolo para massa e golpeou Kali na cabeça, cortando-a.
Então a empregada Kali, com o sangue jorrando da cabeça cortada, denunciou a sua senhora para os vizinhos: ‘Vejam, senhoras, a obra da bondosa senhora! Vejam, senhoras, a obra da gentil senhora! Vejam, senhoras, a obra da pacífica senhora! Como ela pode ficar furiosa e irritada com a sua única empregada por ela se levantar mais tarde? Como ela pode agarrar um rolo de massa, golpeá-la na cabeça e cortá-la?’ Então mais tarde um relato ruim sobre a Senhora Vedehika havia se espalhado: ‘A Senhora Vedehika é grosseira … é violenta … é cruel.’
Da mesma forma, bhikkhus, um bhikkhu é extremamente bom, extremamente gentil, extremamente pacífico, contanto que a linguagem desagradável não o toque. Mas é quando a linguagem desagradável o toca que se pode reconhecer se aquele bhikkhu é realmente bom, gentil e pacífico. Eu não digo que um bhikkhu seja fácil de ser censurado se ele for fácil de ser censurado e aceitar a censura apenas com o propósito de obter mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos. Por que isso?
Porque esse bhikkhu não é fácil de ser censurado e nem aceita a censura quando ele não obtém mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos. Mas quando um bhikkhu é fácil de ser censurado e aceita a censura porque ele honra, respeita e reverencia o Dhamma, eu digo que ele é fácil de ser censurado. Portanto, bhikkhus, vocês devem treinar dessa forma: ‘Nós seremos fáceis de ser censurados e aceitaremos a censura porque nós honramos, respeitamos e reverenciamos o Dhamma.’ Assim é como vocês deveriam treinar, bhikkhus.

Notas

[1] A origem do sofrimento é a segunda das Quatro Nobres Verdades. O desejo pelas formas visuais, pelos sons, aromas, sabores, pelas sensações corporais e pelos objetos mentais; o desejo por ser e o desejo por não ser.

[2] O sofrimento é a primeira das Quatro Nobres Verdades, um ensinamento que nos alerta para a realidade, cujo objetivo é o de demonstrar que podemos encontrar a felicidade verdadeira, aquela que reside dentro de nós, não aquela exterior, frágil e passageira.

[3] Para a compreensão dos ensinamentos do Buda é importante primeiro compreender as Três Características da Existência: impermanência ou transitoriedade; sofrimento ou insatisfatoriedade; e, não-eu ou impessoalidade.

[4] Prometo encontrar a fonte em que Ajahn Chah disse isso e incluir no menu “Biblioteca” para consulta.

[5] Para a definição de “estados mentais hábeis”, podemos utilizar o ensinamento do kamma – carma saudável. Três ações ou carmas saudáveis do corpo: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa. Quatro ações ou carmas saudáveis da fala: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma. Três ações ou carmas saudáveis da mente: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades. Para mais informações, recomendo a leitura do artigo A Meditação e o Mosquito: O Que Aprendi Sobre Concentração e Virtude.

[6] Os suttas são os ensinamentos de extensão curta, média ou longa atribuídos ao Buda. Foram inicialmente transmitidos pela tradição oral e, posteriormente, escritos em páli, um antigo idioma da Índia.

[7] Esse trecho é a resposta do Buda ao rei Pasenadi de Kosala, que disse, como forma de pôr à prova a percepção do Buda, que seus espiões disfarçados de ascetas – aquela pessoa que abandona a vida social em busca da perfeição espiritual – eram homens santos. Após a revelação da verdade pelo rei, o Buda ainda acrescentou: “Um homem não é conhecido com facilidade pela forma externa nem se deve confiar numa rápida avaliação, pois com a aparência de bem controlados homens descontrolados se apresentam neste mundo. Tal como um brinco falso feito de argila, tal como uma moeda de bronze banhada a ouro, alguns se apresentam disfarçados: impuros no íntimo, belos no exterior.”. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNIII.11.php >. Acesso em 13 jun. 2017.

[8] Esse trecho é uma história citada pelo Buda, com o propósito de demonstrar a seus discípulos que eles deveriam sempre manter o controle da mente, ainda que fossem insultados ou presenciassem alguma outra pessoa sendo insultada. O Buda ainda acrescenta mais à frente: “Bhikkhus, existem esses cinco tipos de linguagem que alguém pode usar ao se dirigirem a vocês: a fala dele poderá ser no momento adequado ou inadequado, verdadeira ou falsa, gentil ou grosseira, conectada com o benéfico ou com o prejudicial, dita com a mente cheia de amor bondade ou com raiva. Nesses casos, bhikkhus, assim é como vocês deveriam treinar: ‘Nossas mentes não serão afetadas e nós não diremos palavras ruins; nós permaneceremos compassivos pelo bem-estar dele, com a mente plena de amor bondade, sem raiva. Permaneceremos permeando aquela pessoa com a mente imbuída de amor bondade e começando com ela, permaneceremos permeando todo o mundo com a mente imbuída de amor bondade, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade.’ Assim é como vocês deveriam treinar, bhikkhus.”. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN21.php >. Acesso em 13 jun. 2017.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
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A Joia Tríplice ou Triplo Refúgio

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Desde a época do Buda é comum que o discípulo busque refúgio na Joia Tríplice: o Buda, um ser humano perfeitamente iluminado [1], que dedicou sua vida aos ensinamentos do caminho para a libertação de todo o sofrimento; o Dhamma, a doutrina, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda; e, a Sangha, a comunidade de discípulos do Buda, responsável pela manutenção e divulgação desse conhecimento.

Contudo, para o leigo, penso que esse processo interior deve ser feito com plena convicção, com certeza de que esse é o verdadeiro caminho a ser seguido e com a determinação suficiente para, pelo menos, cumprir os Cinco Preceitos, que é o mínimo exigido para que a pessoa possa ser considerada budista.

No Velama Sutta, do Anguttara Nikaya, o Buda estabelece uma escala de virtudes em seu discurso a um chefe de família, e assim expõe a relação entre os cinco preceitos e o refúgio na Joia Tríplice [2]:

Se com uma mente clara com serena confiança alguém se empenhasse em seguir as regras de treinamento – abster-se de matar seres vivos, abster-se de tomar aquilo que não tenha sido dado, abster-se do comportamento sexual impróprio, abster-se da linguagem mentirosa, abster-se do vinho, álcool e outros embriagantes que causam a negligência – isso seria mais frutífero do que, … se alguém com uma mente clara com serena confiança buscasse refúgio no Buda, Dhamma e Sangha.

Nesse discurso, o Buda deixa claro que a prática, o respeito aos Cinco Preceitos, é mais importante que a mera intenção de buscar refúgio na Joia Tríplice.

Também, é importante ponderar sobre os ensinamentos básicos do Buda, como as Três Características da Existência, as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo.

Igualmente relevante, é o exame de conceitos que servem de base para o budismo, como o kamma – carma [3] e o samsara – o ciclo de renascimentos do budismo [4]. Quanto a estes, se conflitarem com convicções internas ou dogmas religiosos adotados previamente, pode ser um indicativo de empecilhos no avanço do caminho budista.

O budismo é uma busca interior e é comum exigir sempre mais de si mesmo, na medida em que se avança no estudo dos ensinamentos do Buda. É comum também, experimentar arrependimento de ações passadas, mas o budismo nos orienta a ter confiança nos ensinamentos e a focar no momento presente, não nos pensamentos de ações passadas ou futuras. E, mais importante, aceitar o Dhamma é como aceitar um trabalho de grande responsabilidade. Todos os estados mentais e ações inábeis cultivados após o conhecimento do Dhamma terão um impacto muito maior na sua vida, pois você será conhecedor da verdade.

O trecho abaixo explica o significado da Joia Tríplice e como o praticante se torna um budista [5]:

O TRIPLO REFÚGIO

O Buddha, o Dhamma e o Sangha, são designados “As Três Jóias” (tiratana) pela sua pureza inigualável e por serem, para o budista, aquilo que há de mais precioso no mundo. Estas “Três Jóias” constituem também o “Triplo Refúgio” (ti-saraṇa) que o praticante assume, ao proferir as palavras com as quais o declara ou reafirma, ao adoptá-las como guias da sua vida e do seu pensamento.

A fórmula Pāli do Refúgio é ainda a mesma aquando do tempo do Buddha:

Buddhaṃ saraṇaṃ gacchāmi.
Dhammaṃ saraṇaṃ gacchāmi.
Sanghaṃ saraṇaṃ gacchāmi.

Eu busco o refúgio no Buddha
Eu busco o refúgio no Dhamma
Eu busco o refúgio no Sangha

É através do simples acto de recitar esta fórmula três vezes* que uma pessoa se considera budista.

Encerro com um pequeno verso do livro Através do Musgo … Havia Apenas a Jornada Sagrada, no Momento Presente …, de Karin Bagøien [6]:

O Buddha, o Dhamma, a Sangha.
Sabedoria, Verdade e Virtude.
Pela Tríplice Joia repousei minha cabeça.
É por isso que o coração está em paz.

Notas

[1] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[2] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIX.20.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[3] Kamma ou carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[4] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[5] MAHATHERA, Nyanatiloka. A Palavra do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 23. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] BAGØIEN Karin. Através do Musgo … Havia Apenas a Jornada Sagrada, no Momento Presente … Autobiografia de Karin Bagoien (ed. eletrônica). 2016. p. 55. Disponível no menu “Biblioteca”. Tradução do livro Truth Heals: Issues Through The Moss. Malásia: Inward Path Publisher, 1998.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
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Os Cinco Preceitos

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Introdução

O Buda possuía discípulos com diferentes níveis de determinação e entendimento. Para aqueles decididos a abandonar suas posses e seu modo de vida em sociedade pela busca de um ideal maior, o Buda criou as 227 regras de conduta do Patimokkha, o Código de Disciplina dos bhikkhus, monges budistas. Todavia, para aqueles discípulos leigos que ainda viviam em sociedade, estabeleceu cinco preceitos básicos a serem seguidos: não matar seres vivos; não tomar aquilo que não for dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência.

1. Primeiro Preceito: não matar seres vivos

Seres vivos significa não apenas outro ser humano, mas qualquer outro ser que compartilhe da nossa existência no samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1]. Então, podemos incluir os animais considerados irracionais, bem como as criaturas minúsculas, como os insetos.

É claro que a ação ou kamma [2] de matar outro ser humano traz mais consequências que a ação ou kamma de matar um animal irracional, que por sua vez é mais grave que matar um inseto. Contudo, todos esses atos são lamentáveis e trazem consequências.

O budismo expõe a realidade como ela efetivamente é, não como gostaríamos que fosse, e sempre nos apresenta o caminho correto a ser seguido. Antes de pôr fim à vida de um inseto intencionalmente, pense nesse poder que lhe foi dado e como irá administrá-lo. Lembre-se da Primeira Nobre Verdade, que nos ensina que faz parte deste mundo a experiência de sensações consideradas desagradáveis, como a investida de um mosquito por exemplo. Reflita sobre a sensação em si, que não é pessoal e logo irá passar, devido à sua natureza impermanente, e dê preferência ao repelente, não ao inseticida.

2. Segundo Preceito: não tomar aquilo que não foi dado

Essa regra é autoexplicativa, não furtar e não roubar.

Furtar, segundo o Dicionário Aurélio [3]:

1. Subtrair fraudulentamente (coisa alheia); roubar.
2.
Fazer passar como seu (trabalho, ideia, etc.).

Roubar, segundo o Dicionário Aurélio [4]:

1. Tomar (objeto, coisa móvel) da posse de alguém, mediante ameaça ou violência.
(
…)

3. Terceiro Preceito: não ter comportamento sexual impróprio

O Buda nos explica em alguns de seus discursos o que é considerado comportamento sexual improprio, veja um exemplo [5]:

(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva.

Portanto, não há subjetividade no termo “impróprio”, uma vez que o seu significado pode ser encontrado nos ensinamentos.

Comportamento sexual improprio é aquele realizado sem o consentimento da outra parte; aquele realizado apenas para satisfazer o próprio desejo, não se importando com os sentimentos da outra parte; e, aquele realizado com pessoa comprometida com outro relacionamento ou quando se está em um relacionamento e realiza atividade sexual com outra pessoa, infidelidade conjugal.

4. Quarto Preceito: não mentir

A linguagem mentirosa deve ser evitada por aqueles que pretendem seguir os cinco preceitos, mas é apenas um dos tipos de linguagem incorreta a ser combatida para aqueles que pretendem pôr em prática o exercício da palavra correta, que é um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, e que demandará um esforço maior.

Além da mentira, também faz parte da linguagem incorreta a linguagem maliciosa, a linguagem grosseira e a linguagem frívola.

O Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, nos esclarece como identificar cada um dos tipos de linguagem incorreta, e assim evita-las [6]:

Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício.

5. Quinto Preceito: não consumir substâncias embriagantes que causam negligência

O Buda falava frequentemente em “vinho, álcool e outros embriagantes…”, mas obviamente podemos ampliar o entendimento para aquelas substâncias que, além da negligência, também causam a dependência, como o fumo, as drogas ou quaisquer outras substâncias modernas que provoquem os mesmos efeitos.

O termo utilizado pelo Buda era “não consumir”, mas ainda assim algumas pessoas questionam se beber com moderação é ir contra o preceito. Particularmente, entendo que consumir álcool, em qualquer dose, é ir contra o preceito, uma vez que o termo utilizado pelo Buda foi “não consumir”, bem claro e autoexplicativo. Caso contrário, teria utilizado o termo “consumir com moderação”, mas não o fez.

Além do mais, não creio que tenha existido professor tão hábil e preciso com as palavras quanto o Buda. Seus ensinamentos são claros, alguns de difícil entendimento, diga-se de passagem, mas não deixam margem à diferentes interpretações. Quando se tem dúvida sobre um determinado ensinamento, basta aprofundar-se nos estudos que certamente a dúvida é dirimida em outra passagem.

Observação: para aqueles que participam de retiros de meditação budista, é necessário, durante o período de sua realização, abster-se de qualquer prática sexual, uma ampliação do terceiro preceito, bem como a observação de três preceitos adicionais: não comer nos horários proibidos; não ouvir música, cantar, dançar, ver espetáculos de entretenimento, usar ornamentos, usar perfumes, e embelezar o corpo com cosméticos; e, não deitar em leitos elevados e luxuosos.

Mé Chi Kéu, em sua biografia escrita por Bhikkhu Dick Sīlaratano, nos diz o seguinte sobre os Cinco Preceitos [7]:

Cada um dos cinco preceitos carrega um benefício em particular. Ao abster-se de machucar seres vivos, podemos esperar boa saúde e longevidade. Ao abster-se de roubar, nossa riqueza e propriedades estarão a salvo de furtos e desaventuras. Ao abster-se de adultério, parceiros serão fiéis e viverão com contentamento sem sentir culpa ou vergonha. Ao abster-se de mentir, ganharemos a confiança alheia e seremos sempre respeitados por nossa integridade. Ao abster-se de intoxicantes, guardaremos nossa inteligência e permaneceremos pessoas sábias e claras, que não são facilmente enganadas ou confundidas.
(…)
Primeiro você deve abster-se de machucar seres vivos. Ao fazê-lo, aprenderá a restringir sua raiva e promover bem-querer. Você deve abster-se de tomar coisas sem o consentimento do dono. Ao descartar a mentalidade de um ladrão, a cobiça é posta em xeque e a renúncia ganha espaço para crescer. Todas as relações sexuais inapropriadas devem ser abandonadas, porque evitar má conduta sexual ajuda a diminuir o desejo sexual e desenvolve o espírito de contentamento. Ao abster-se de dizer mentiras, sempre dizendo a verdade, você controla as tendências à fala falsa e dá ênfase à honestidade em todos seus envolvimentos. Abster-se de intoxicantes evita excitação mental danosa e cultiva o desenvolvimento de sati, que é o pré-requisito básico para manter todos os preceitos morais de uma maneira suave e constante.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Kamma ou carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[3], [4] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 7.0.2. O Míni Aurélio corresponde à 8a. edição, revista e atualizada, do Minidicionário Aurélio, da Língua Portuguesa, contendo mais de 30 mil verbetes. 2010.

[5] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[6] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[7] SĪLARATANO, Bhikkhu Dick. Sua Jornada ao Despertar Espiritual e Iluminação (Biografia de Mé Chi Kéu) (ed. eletrônica). Tailândia: Forest Dhamma Books, 2017. p. 42, 91-92. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 25 de julho de 2017.
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O Nobre Caminho Óctuplo

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São os oito passos necessários para a libertação de todo o sofrimento, e assim, não mais retornar ao samsara, o ciclo de renascimentos [1].

É um grande desafio até para os monges, quanto mais para os praticantes leigos que vivem em sociedade, mas vale o esforço para colocá-los em prática.

O primeiro desses passos é o entendimento correto, entender as Quatro Nobres Verdades;

O segundo passo é o cultivo do pensamento correto, o pensamento de renúncia ou desapego, o pensamento da generosidade, o pensamento de metta (amor e bondade), o pensamento da compaixão;

O terceiro passo é a palavra correta, a palavra amigável, a palavra que une as pessoas, a verdade;

O quarto passo é a ação correta, que para os budistas leigos é a obediência aos Cinco Preceitos;

O quinto passo é o modo de vida correto que é a condução da vida em sociedade com honestidade, abstendo-se de atividades comerciais ou profissionais que causem prejuízo a outros seres vivos;

O sexto passo é o esforço correto, que é identificar quando um pensamento prejudicial surge na mente e substituí-lo por um pensamento benéfico, e assim, com a prática, impedir totalmente que o pensamento prejudicial floresça, que é o objetivo final deste passo;

O sétimo passo é a atenção correta ou atenção plena correta, que é desenvolvida por meio da meditação, mas deve ser estendida durante todo o período do dia e, após determinado nível de prática, também durante a noite;

O oitavo passo é a concentração correta, ou seja, o resultado da prática satisfatória da meditação, os quatro jhanas, que são os estágios de absorção mental.

No Magga-vibhanga Sutta, do Samyutta Nikaya, o tema do Nobre Caminho Óctuplo é abordado pelo Buda em seu discurso [2]:

Em Savatthi. “Bhikkhus, eu ensinarei e analisarei para vocês o Nobre Caminho Óctuplo. Ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer.” – “Sim, venerável senhor,” os bhikkhus responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“E qual, bhikkhus, é o Nobre Caminho Óctuplo? Entendimento Correto, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correta, Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta.
“E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.
E o que é pensamento correto? O pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto.”
“E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta.”
“E o que é ação correta? Abster-se de tirar a vida de outros seres, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta.”
“E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto.”
“E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto.”
“E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (ii) Ele permanece contemplando as sensações como sensações – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iii) Ele permanece contemplando a mente como mente – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iv) Ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.
“E o que é concentração correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ (iv) Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentração correta.”

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXLV.8.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
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