Ensaio Sobre o Ego

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Por que nos sentimos mal quando somos criticados?

Por que nos sentimos mal quando não somos elogiados?

Penso que todos nós já passamos por essas situações na vida, mesmo quando éramos crianças, mas por que isso ocorre?

Porque projetamos uma imagem exterior, uma personalidade, e criamos expectativa em relação à percepção das outras pessoas.

Ocorre que essa personalidade projetada não é única, na verdade, projetamos diferentes personalidades, de acordo com as mais diversas situações do cotidiano. Quando estamos em casa sozinhos somos uma pessoa, no ambiente de trabalho somos outra pessoa, nas reuniões em família somos uma terceira pessoa, nas redes sociais somos uma quarta pessoa e assim por diante.

E quem é o responsável por essa projeção de incontáveis personalidades? É o ego.

Segundo o Dicionário Aurélio [1] o ego é “o eu de um indivíduo”, mas exatamente o que é “o eu de um indivíduo”? Bom, essa é uma das questões mais debatidas da história da humanidade e qualquer debate a respeito estará, inevitavelmente, restrito ao âmbito teórico. O importante para o budismo é identificar o ego e compreender que é apenas uma manifestação da consciência e, como tal, impermantente como todos os demais fenômenos da natureza.

Para melhor compreensão, faz-se necessário adentrar em um outro elemento de estudo do budismo, o renascimento.

O sentido de renascimento no budismo é diferente do sentido de reencarnação de outras crenças. A reencarnação pressupõe a existência de uma alma, um espírito, que em determinado momento deixará o corpo físico atual e reencarnará em outro corpo físico. Esse ponto de vista pode nos induzir a pensar que o ego, esse conjunto de conhecimentos e experiências adquiridos nesta vida, é quem efetivamente irá retornar em uma próxima vida.

Na religião católica, após a morte, há duas possibilidades: aquele que seguiu os preceitos de Deus irá para o céu e aquele que não seguiu irá para o inferno. Aquele quem? Só pode ser o ego e as suas personalidades projetadas, pois são levadas em consideração apenas as ações da vida atual, e quem vem comandando as ações nessa vida atual? Não é o ego?

A citação de outras crenças foi feita não como forma de crítica, apenas para demonstrar como é possível confundir o ego, um fenômeno superficial e temporário, com a essência do ser humano, que retornará sob a forma de renascimento ou reencarnação.

No budismo, a essência que renasce em outra existência é independente dessa manifestação denominada ego, a qual se dissolverá com a morte do corpo físico. Essa essência que renascerá é apenas o kamma – carma [2].

Não é muito difícil compreender que o ego é um fenômeno transitório, bastando para tal analisar a situação daquelas pessoas que possuem uma doença cerebral degenerativa, como o Alzheimer. Gradativamente a pessoa vai perdendo sua identidade até que não subsista qualquer traço de sua antiga personalidade. É possível também perceber a precariedade do ego nos acidentes com traumatismo craniano grave, em que a pessoa em alguns casos regride aos primeiros anos de vida e em outros perde totalmente as funções motoras.

O que acontecerá com essas pessoas após o falecimento? Elas retornarão com esse estado de consciência alterado e limitado? Claro que não, o ego, no estado em que se encontre, e todas as demais projeções da personalidade se dissolverão como qualquer outro fenômeno impermanente e prevalecerá o carma produzido em sua última vida, em conjunto com o carma remanescente de existências anteriores.

Vários estudos já foram feitos no intuito de explicar o funcionamento do consciente e do subconsciente, com destaque para a psicanálise de Sigmund Freud, um estudo teórico sobre a personalidade humana.

Para Freud [3], havia o ego, mais aparente, e outros dois elementos mais misteriosos, digamos assim, o id e o superego. O id buscava influenciar o ego sob a forma de um instinto básico. O ego, por sua vez, agia como mediador, na medida em que procurava atender aos anseios do id, mas sem ultrapassar os limites. Já o superego, em contrapartida, era o elemento controlador da relação e o responsável por conter o ego, quando este se perdesse nos devaneios do id.

Pode ser um pouco complicado o entendimento a princípio, mas o que o leitor deve ter em mente é que Freud, em suas sessões de psicanálise, com a utilização da hipnose e observações do sono, percebeu que havia elementos da mente humana ainda pouco explorados e que poderiam influenciar, de forma subconsciente, a conduta do paciente.

Digo isso, para que retornemos às duas perguntas iniciais propostas pelo artigo: Por que nos sentimos mal quando somos criticados ou quando esperamos um elogio que não acontece?

Porque o ego possui uma noção equivocada da realidade e sempre procura atribuir significados, sob a forma de pensamentos e sensações (ou sentimentos) a fenômenos impessoais, que na verdade não possuem qualquer substancialidade.

Quando desejamos que uma pessoa se comporte de determinada forma para conosco ou se abstenha de determinado comportamento ou opinião, devemos ter em mente que esse desejo é ilusório e não representa a verdadeira forma de agir daquela pessoa, que age de acordo com a natureza dela e não como a nossa ou como gostaríamos que ela agisse.

Da mesma forma, aquela pessoa critica porque é da natureza dela criticar. Se você pudesse conviver com ela o dia inteiro poderia perceber esse fato, não é pessoal.

O ego, por ter esse entendimento equivocado da realidade, por tornar tudo pessoal e intencional, por procurar sempre uma razão para todas as coisas, nos causa uma sensação desagradável ao ouvir uma crítica ou não ouvir um elogio esperado, que aos poucos, se não contida, pode se transformar em sentimentos mais prejudiciais, como o ódio por exemplo.

Não estou dizendo que devemos ficar mudos quando não concordamos com uma opinião a nosso respeito, apenas que não deixemos aquele incômodo inicial se desenvolver para algo mais prejudicial para nós mesmos. Podemos também expor nosso ponto de vista, mas sempre com o entendimento de que a crítica não foi pessoal e sim porque é da natureza daquela pessoa criticar. Ela está agindo da forma que compreende ser correta, de acordo com o seu nível de entendimento, e também não devemos criticá-la ou julgá-la.

O Buda nos ensinou que todos os fenômenos são impermanentes e sem substancialidade, quando atribuímos um pensamento negativo como o ódio a determinado fenômeno impessoal, significa que o ego está se manifestando de forma equivocada mais uma vez e deve ser contido antes que esse pensamento possa causar ainda mais danos, como a fala e a ação baseadas nessa noção equivocada da realidade.

Como o ego tem o hábito de projetar diferentes personalidades, de acordo com o ambiente a ser frequentado, esse controle se torna ainda mais difícil. Além de, precariamente e na maioria das vezes equivocado, o ego tentar sempre mapear a personalidade das outras pessoas e tentar imaginar como os outros irão agir em determinada situação, ainda projeta uma outra personalidade para aquela ocasião específica, e que possui expectativas próprias de como as outras pessoas irão reagir àquela personalidade projetada.

Enfim, é muito mais fácil se esforçar para transparecer a nossa verdadeira essência interior em todas as ocasiões. Sei que também não é uma tarefa fácil saber qual é a nossa verdade interior, mas, basicamente, podemos utilizar um mecanismo que pode nos orientar nesse sentido. Sempre que pensarmos em agir de uma forma não verdadeira para conosco, uma forma em que agimos apenas em determinada ocasião, e vai de encontro à forma em que agimos normalmente, pode ser um indicativo de que o ego está projetando uma personalidade para aquela situação específica e, em contrapartida, exigirá um comportamento próprio das outras pessoas, tornado a experiência mais difícil de ser controlada.

Não me refiro a regras sociais. Se no ambiente de trabalho, por exemplo, é exigido determinado traje, isso deve ser cumprido e ponto final, não há qualquer relação com o ego ou com a personalidade da pessoa. É uma regra social, impessoal e que deve ser observada por todos. Cumpra-a com naturalidade.

O ego pode ser percebido como esse diálogo interior, a conversa de você com você mesmo, às vezes silenciosa, às vezes em voz alta, sempre presente, cuja intenção pode ser boa, aparentemente, mas que está profundamente arraigado na dicotomia certo e errado, sempre buscando explicação para todos os fenômenos e atribuindo-lhes valoração. As percepções mentais, por outro lado, são fenômenos impermanentes e impessoais, que surgem e logo cessam, não são direcionados a você nem a qualquer outra pessoa, e por isso o ego falha nessa percepção, por desconhecer a verdadeira natureza de todas as coisas.

Assim, o ego define um caminho de pensamento e ação baseado em uma noção equivocada da realidade, não levando em consideração, principalmente, a Primeira Nobre Verdade do budismo, que é o sofrimento. As coisas são como são, pois, assim é a natureza deste mundo. Não são pessoais, não acontecem direcionadas a você. Estão presentes o tempo todo como fenômenos impessoais, mas quem atribui valoração e provoca sofrimento é o ego e o seu entendimento equivocado da realidade.

Leia o que Yogavacara Rahula, monge budista Theravada, expõe acerca da formação dos processos mentais [4]:

Os conceitos e reações que construímos continuamente na constituição da nossa mente são os obstáculos mais potentes à percepção das coisas na sua verdadeira natureza impermanente, condicionada e sem essência. Na verdade, quando se forma um conceito, o pensamento parece parar de caminhar naquela direção. Os conceitos levam o pensador ainda mais longe da realidade, pois ele considera forças e fatos entidades permanentes e concretas. Esses depósitos conceituais no nosso fluxo de vida subconsciente continuam a influenciar (se não forem detidos) todo o nosso comportamento, julgamentos e sentimentos relativos a todas as experiências subsequentes, acrescentando-lhes ou retirando-lhes qualidades. O conhecimento nada mais é do que conceitos acumulados e, no pensamento conceitual, a lógica, a razão, a imaginação e a experiência de vida desempenham papéis diferentes.

Ignorar as manifestações do ego é o melhor caminho. Não me refiro a criar um sentimento de repulsa em relação a uma parte que nos acompanha por toda a vida, tampouco, inquietação, raiva ou qualquer outro sentimento negativo quando o ego se manifestar, apenas não mais ouvi-lo, pois, suas manifestações são, de fato, distorções da realidade, o que, na maioria das vezes, nos conduz a julgamentos e ações precipitadas.

O que o nosso ego julga ser o correto para nós, de fato não o é e nos afasta da iluminação [5], o objetivo último do budismo, uma vez que induz a pensamentos e ações baseados em percepções equivocadas. Não há o que pensar ou fazer sobre a natureza deste mundo, ele é assim e pronto. Orientar nosso caminho e nossas ações pelo que está no Dhamma, a doutrina budista [6], é o suficiente, pois assim nos ensinou o Buda.

Podemos desenvolver um sentimento de compaixão pelo nosso ego, pois, precisamos dele nesta vida e, acima de tudo, é uma manifestação que nos quer bem, que visa nos proteger, embora, ressalto mais uma vez, sem embasamento para nos conduzir ao caminho da iluminação, apenas ao da ilusão e, consequentemente, nos prender ao ciclo de renascimentos, o samsara [7].

Lembre-se de que negação não é o mesmo que libertação. Se há um conflito interno, uma luta para se combater algum sentimento, esse pode ser um indicativo de que há um desvio no caminho verdadeiro para se chegar ao objetivo.

Deixe o ego se manifestar, pois é a natureza dele, apenas não dê atenção e importância ao que ele diz. Pense no ego como uma criança que ainda precisa de orientação para a formação de seu caráter. Não lute contra o ego ou contra qualquer outro sentimento, apenas deixe-o manifestar sua natureza como uma brisa que passa sem causar qualquer dano à sua casa. Dessa forma, essas manifestações perderão a força com o tempo, pois não influenciarão mais nossos pensamentos e, tampouco, nossas as ações.

Você pode e deve continuar com esse diálogo interior, mas de uma forma aplicada, com o esforço correto, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, fundamentado no Dhamma, sempre ponderando os ensinamentos budistas. Se surgir algum sentimento incômodo, provocado pela raiva, cobiça ou delusão [8], significa que seus pensamentos estão sendo comandados pelo ego e isso não é um bom sinal, procure eliminar pela raiz os pensamentos que fomentam esses sentimentos. É um exercício que encontrará resistência do ego em um primeiro momento, pois significará que ele não estará mais no comando da situação, mas quando os efeitos benéficos puderem ser percebidos, o próprio ego buscará a reflexão antes do julgamento.

Encerro, por enquanto, com esses versos do Dhammapada [9]:

Assim como um arqueiro endireita a haste da flecha, também o homem firme endireita a sua mente – volúvel e instável, tão difícil de domar.

Que ninguém procure o defeito nos outros; que ninguém observe as omissões e acções dos outros. Mas observemos os nossos próprios actos.

O mal é feito a si mesmo; a si mesmo a pessoa se conspurca. A si mesmo deixa de fazer o mal; a si mesmo a pessoa se purifica. Pureza e impureza dependem de si mesmo; ninguém pode purificar outra pessoa.

A continuar…

[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 7.0.2. O Míni Aurélio corresponde à 8ª edição, revista e atualizada, do Minidicionário Aurélio, da Língua Portuguesa, contendo mais de 30 mil verbetes. 2010.

[2] Kamma – carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[3] FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (ed. eletrônica). Vol. XIX. Rio de Janeiro: IMAGO, 1972. p. 12-24.

[4] RAHULA BHIKKHU, Yogavacara. Superando a Ilusão do Eu: Um Guia de Meditação Vipassanā (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2011. p. 55. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana, a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[6] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[7] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[8] Cobiça, raiva e delusão são as três raízes inábeis da mente, responsáveis pelo desejo e, consequentemente, pelo sofrimento. Delusão é uma tradução do vocábulo moha em páli, que significa, a grosso modo, o desconhecimento da realidade como ela verdadeiramente é, ilusão.

[9] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 23, 28, 64. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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