A Meditação e o Mosquito: O Que Aprendi Sobre Concentração e Virtude

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Era uma das minhas primeiras práticas de meditação. Cheguei por volta de 7h no escritório, bebi uma xícara de chá verde, comi um pão e preparei-me para a prática. Como faço sempre, reafirmo o refúgio na Joia Tríplice; o Buda, o Dhamma e a Sangha, e então inicio a meditação.

Nessa época, já conhecia o básico dos ensinamentos do Buda, como as Três Características da Existência (anicca – impermanência, dukkha – sofrimento e anatta – não-eu), as Quatro Nobres Verdades (o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho para a cessação do sofrimento) e os Cinco Preceitos (não matar seres vivos; não tomar aquilo que não foi dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência).

No que diz respeito aos Cinco Preceitos, mais precisamente o primeiro, não matar seres vivos, já havia compreendido que não se tratava apenas de outros seres humanos, mas de todas as criaturas que compartilham da nossa existência no samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1].

Ao dirigir-me para o local de meditação, vi aquele que seria a causa do descumprimento do primeiro preceito, o mosquito. Notei aquele minúsculo ser, que contrastava com o fundo branco da parede, e logo imaginei que eu seria o seu café da manhã, assim como o chá verde e o pão foram o meu, uma vez que eu permaneceria imóvel pelos próximos quarenta e cinco minutos.

Naquele momento, nem me passou pela cabeça tentar capturá-lo e libertá-lo na janela para que seguisse seu rumo, o sentimento que eu tive, lamentavelmente, foi o de soberba. Internamente, o ego [2] se manifestou da seguinte forma: “Quem essa criatura pensa que é para interferir na minha sessão de meditação?”. E então, com um maço de papel, apliquei-lhe um golpe e a pobre criatura permaneceu estática no chão. Naquele momento, ainda me foi concedida a oportunidade de redenção, pois o mosquito não estava morto, apenas atordoado, e eu poderia tê-lo recolhido e jogado-o pela janela. Nesse caso, haveria uma grande chance de sobrevivência para ele, mas o desfecho foi ainda mais cruel, recolhi a pequena criatura, e, com ódio, joguei-o no vaso sanitário e permaneci olhando para ter certeza de que ele desceria com a água e não mais retornaria.

Então, com aparente satisfação pelo “dever cumprido” e indiferença pela vida de outro ser, sentei-me para a meditação. Contudo, aquela prática foi uma das piores que já experimentei, se não a pior. Logo após os minutos iniciais, os quais chamo de período de adaptação ao silêncio, quando a consciência interior, aquela independente do ego, começa a se tornar um pouco mais presente, pude perceber a gravidade do ato. Matar intencionalmente um inseto, por si só, já é um ato lamentável, mas quando você o faz com ódio, o resultado é ainda pior.

O que era para ser uma meditação de quarenta e cinco minutos, foi abreviada para alguns poucos minutos, devido à agitação mental provocada pelo ato impensado.

Nunca fui uma pessoa cruel com os outros seres vivos de uma maneira geral, mas sempre existiram alguns que faziam parte da minha “lista negra” e um deles era o mosquito. Quanto a esses, considerados pelo ego como menos dignos em relação aos demais, não havia espaço para compaixão.

Contudo, como a vida é um eterno aprendizado, ao esforçar-me para melhor compreender a Primeira Nobre Verdade do budismo, o sofrimento, percebi que, pelo simples fato de termos nascidos neste mundo, estamos sujeitos a situações desagradáveis, e, a investida de um mosquito, é apenas uma insignificante amostra do que isso representa.

O mosquito não está entre as causas do sofrimento, assim como nenhum dos outros fatores externos, a causa está dentro de nós, no ego, que sempre busca atribuir valoração a fenômenos impessoais e impermanentes.

Veja bem, não estou fazendo apologia à dengue, à zika, à chicungunha e, tampouco, à febre amarela, uma vez que não considero conflitante com o budismo o ato da conscientização e prevenção da proliferação dos mosquitos, cuidando para que não haja acúmulo de água parada. Também, não é necessário permitir que o mosquito se alimente do nosso sangue, pois existem repelentes.

Não parece existir mérito em desejar o bem apenas para aquelas pessoas próximas: parentes e amigos. Da mesma forma, não faz muita diferença cuidar apenas daqueles animais considerados “fofinhos”: cães e gatos. A virtude está na igualdade, tratar a todos da melhor forma, desejar a todos a melhor sorte.

Esse fato aconteceu realmente e foi narrado com o intuito de utilizá-lo como objeto de reflexão para uma relação de interdependência no budismo: o avanço na prática da meditação e o desenvolvimento de virtudes.

Se o ato praticado contra um mosquito foi suficiente para perturbar o resultado de uma prática meditativa, o que faria uma ação prejudicial a outro ser humano?

Qualquer pessoa pode beneficiar-se dos efeitos da meditação, basta que reserve um período do dia, sem interrupções, sente-se confortavelmente, concentre-se na respiração e, em pouco tempo, perceberá uma redução do estresse. Contudo, para o budista, a meditação é apenas um dos elementos da prática. Esse ponto, a meu ver, é o que diferencia a meditação budista das outras formas de meditação da moda.

O caminho budista está fundamentado em três pilares [3]: sila – moralidade (ou virtude); samadhi – concentração; e, pañña – sabedoria, nessa ordem. Portanto, a sabedoria (pañña) só é alcançada pela prática continuada da meditação (samadhi), que, por sua vez, não se desenvolve se não houver um comprometimento do praticante em abandonar as ações não saudáveis e cultivar as ações saudáveis (sila).

Mas o que são as ações saudáveis e não saudáveis? Para responder a essa pergunta é preciso adentrar em um outro elemento de estudo do budismo, o kamma – carma.

Kamma – carma, para o budismo, é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores. Esse é um dos temas mais interessantes do budismo e será objeto de um artigo próprio, em breve. Por enquanto, é suficiente saber quais são as ações ou carmas saudáveis e não saudáveis.

São dez as ações ou carmas não saudáveis, opostos às dez ações ou carmas saudáveis, uma das muitas demonstrações de dualismo encontradas no budismo, e são classificadas em ações ou carmas do corpo, da fala e da mente.

As três ações ou carmas não saudáveis do corpo são: matar; roubar; e, ter conduta sexual imprópria [4]. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis do corpo são: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa.

As quatro ações ou carmas não saudáveis da fala [5] são: a linguagem mentirosa; a linguagem maliciosa; a linguagem grosseira; e, a linguagem frívola (fútil, inútil). Em contrapartida, as quatro ações ou carmas saudáveis da fala são: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma [6].

As três ações ou carmas não saudáveis da mente são: cobiça ou inveja; má vontade; e, entendimento incorreto. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis da mente são: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades.

Assim, o cultivo das ações ou carmas saudáveis é importante para equilibrar as ações ou carmas não saudáveis desta vida e anteriores, bem como para servir de suporte para o aumento da concentração na meditação, uma vez que os estados mentais inábeis são causas frequentes de interferências na prática e o desvio de pensamentos, dificultando consideravelmente o avanço no caminho budista.

Adicionalmente, temos no budismo a lista das dez perfeições – parami [7], um conjunto de virtudes que conduzem a pessoa ao estado de um Buda, as quais podemos, na medida das nossas limitações, tentar coloca-las em prática, quais sejam [8]:

Dana – generosidade; sila – moralidade; nekkhamma – renúncia; pañña – sabedoria; viriya – energia; khanti – tolerância; sacca – fidedignidade; adhittana – determinação; metta – amorisidade; upekkha – equanimidade.

É importante pesquisar e estudar para entender qual o significado de cada uma dessas virtudes, uma vez que, dificilmente, uma única palavra de nosso idioma moderno é suficiente para exprimir todo o sentido do vocábulo em páli [9].

É a tarefa de casa para todos nós.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] O “eu” ou “ego”, nada mais é do que um fenômeno condicionado, estimulado desde o nosso nascimento para reagir às situações do cotidiano e que, devido à sua natureza impermanente, em determinado momento deixará de existir.

[3] O Nobre Caminho Óctuplo representa, na verdade, o desenvolvimentos desses três pilares. Sila – moralidade (ou virtude): palavra correta; ação correta; e, modo de vida correto. Samadhi – concentração: esforço correto; atenção plena correta; e, concentração correta. Pañña – sabedoria: entendimento correto; e, pensamento correto.

[4] A definição para comportamento sexual impróprio pode ser encontrada em alguns suttas. Segue o trecho explicativo do Sevitabbasevitabba Sutta, do Majjhima Nikaya. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 2 jun. 2017.
(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva.
(…)

[5] No Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, encontramos uma perfeita explicação da linguagem incorreta, bem como da correta. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 2 jun. 2017.
(…)
Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício.
(…)

[6] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[7] Prevalece no budismo o entendimento de que o conceito de dez perfeições – parami não pode ser encontrado nos ensinamentos originais atribuídos ao Buda, tendo sido, portanto, uma contribuição posterior.

[8] Resumo do parágrafo encontrado em: MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 137. Disponível no menu “Biblioteca”.

[9] Páli é uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Um único vocábulo em páli pode ter vários significados em uma linguagem moderna, o que torna a tradução uma tarefa difícil. É comum nos depararmos com textos budistas que já foram objeto de até três traduções: do páli para o tailandês, do tailandês para o inglês e do inglês para o português.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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