As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

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Introdução

Nos textos budistas da tradição Theravada é comum encontrar expressões do idioma páli, uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Assim, os termos anicca, dukkha e anatta são frequentemente traduzidos como: impermanência, sofrimento e não-eu. Contudo, também é possível encontrar a seguinte tradução para esses vocábulos: transitoriedade, insatisfatoriedade e impessoalidade, respectivamente. Essa última, por sinal, se não for a mais precisa, é a que proporciona melhor entendimento.

Essas características estão presentes em todos os fenômenos da natureza, sejam aqueles considerados externos, sejam aqueles que fazem parte do nosso próprio corpo, física ou mentalmente.

Apenas a título de exemplo, quando visualizamos determinada forma que nos desperta desejo, como uma roupa, aquele objeto, por si só, é transitório, insatisfatório e impessoal. Da mesma forma, os olhos e a construção mental que alimentam esse desejo, a vontade de ter o objeto, também são transitórios, insatisfatórios e impessoais.

O interessante é que essas três características estão interligadas, e compreender uma delas, qualquer que seja, significa facilitar o entendimento das demais.

1. Anicca (impermanência ou transitoriedade)

A impermanência, anicca, é um fenômeno presente em todo o universo. Tudo tem uma origem, se transforma e, por fim, desaparece. Percebemos essa natureza transitória em todas as coisas, seja em algo considerado belo que sofre ação do tempo, seja em um som que ouvimos e logo cessa, seja em um aroma identificado que logo se dissolve no ar ou seja em um sabor apreciado que logo é saciado. Com o corpo, não é diferente: nascemos, crescemos, experimentamos sensações corporais agradáveis e desagradáveis – que também surgem e cessam –, envelhecemos, e, inevitavelmente, morreremos.

Nesse sentido, encontramos o seguinte trecho no Dicionário Budista, de Nyanatiloka [1]:

Impermanência das coisas é o surgimento, o desaparecimento e mudança das coisas, ou o desaparecimento das coisas que vieram a aparecer. O significado é que essas coisas nunca persistem da mesma forma, mas que elas estão desaparecendo e se dissolvendo momento a momento.
A impermanência é o aspecto encontrado em todos os fenômenos, seja material ou mental, grosseiro ou sutil, interno ou externo: “Todas as formações são impermanentes”. (…)

Ajahn Sumedho, por sua vez, destaca a observação da impermanência nas percepções mentais [2]:

(…) E o que podemos observar acerca de ‘como as coisas são’ é que toda a experiência sensorial é impermanente. Tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e tocamos; todas as condições mentais – os nossos sentimentos, memórias e pensamentos – são condições mentais em constante mudança, as quais surgem e cessam. (…)

A impermanência não é uma criação do budismo, é uma realidade inerente a todas as coisas, que pode ser percebida por qualquer pessoa, e assim, servir de importante ferramenta para a diminuição do desejo.

Por que desejar aquilo que é transitório, precário? Não parece, em um primeiro momento, uma escolha muito sábia. Desejar o que é impermanente significa sofrer quando se perde o objeto do desejo, ou pior, sofrer antecipadamente, antes mesmo de se conquistar o objeto do desejo, e assim, sofrer novamente depois, uma vez que a perda é inevitável, devido à natureza da impermanência.

Transcrevo, para reflexão, trecho do livro Pura Bondade, de Ajahn Candasiri [3]:

Nas nossas vidas por vezes experienciamos coisas lindíssimas. Temos também relacionamentos especiais, nos quais sentimos uma afinidade maravilhosa e um grande à-vontade com determinadas pessoas. Pode acontecer o desejo de nos agarrarmos a essas experiências. Mas precisamos compreender que a vida envolve uma espécie de implacabilidade. É annica – simplesmente continua a fluir, quer queiramos ou não.

2. Dukkha (sofrimento ou insatisfatoriedade)

O sofrimento, dukkha, se manifesta exatamente porque não temos a compreensão correta do fenômeno da impermanência. Como vivemos em um mundo em constante transformação é natural que ocorram situações inesperadas e transitórias, pois essa é a natureza do mundo. Contudo, desejamos ser bem-sucedidos profissionalmente, ter uma vida feliz, permanecer sempre com aparência agradável. Ao nos depararmos com alguma situação que interfere nesse desejo ilusório de permanência, nesse desejo ilusório de ser, ter ou permanecer, sofremos, pois não sabemos lidar com as mudanças. Não consideramos, ainda, que as situações adversas também são impermanentes, também irão passar.

Em resumo, tudo que está sujeito ao fenômeno da impermanência também é fonte de sofrimento ou insatisfatoriedade. Bases externas: formas, sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais. Bases internas: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.

Este tema é de profunda importância para o budismo e também é a primeira das Quatro Nobres Verdades. Ressalte-se, que a questão do sofrimento é frequentemente mencionada no budismo não como forma de pessimismo, mas apenas como objeto de reflexão e para que saibamos que há um caminho para a sua libertação, o Nobre Caminho Óctuplo.

3. Anatta (não-eu ou impessoalidade)

Aqui, não se busca questionar a existência do “eu” ou do “ego”. Nesse sentido, nos explica Thanissaro Bhikkhu [4]:

Não-eu (anatta): É extremamente importante que o leitor não pense equivocadamente que o Buddha ensinou que “não existe um ser” ou que “não há um eu”. Pelo contrário, ele sempre se negava a contestar perguntas sobre este assunto por considerá-las mal formadas e sempre recomendava não se empenhar em investigar: “Se existe um eu ou não”. Este termo, assim como “inconstância” (anicca) e “sofrimento” (dukkha), era ensinado pelo Buddha como ferramenta mental e “percepção” (anupassana) a ser exercitada com o objetivo de produzir certo resultado – o desapego e a despaixão na mente.

É irrelevante para o estudo obter alguma conclusão acerca da existência ou não do “eu” ou “ego”. O importante é compreender a impessoalidade presente em todos os fenômenos da natureza. Nesse sentido [5]:

ANATTA: ‘Não-self’, Não ego, sem ego, impessoalidade: é a última das Três Características da existência (ti-lakkhana, q.v.). A doutrina do Anatta ensina que nem dentro do fenômeno corporal e mental da existência, nem fora deles, pode ser encontrado qualquer coisa que no sentido último possa ser considerado como uma entidade-Ego existente por si, alma ou qualquer outra substancia exisente (sic). (…)

Ajahn Chah, por sua vez, ressalta o caráter impessoal, não-eu de sensações como a felicidade e o sofrimento [6]:

Quando consideramos o corpo ou a mente, podemos colocar ambos no mesmo “saco”, no “saco” do Transitório, Imperfeito e Não-eu – aniccam, dukkham, anatta. Eles são simples condições da Natureza, surgem, dependendo de factores de suporte, existem por um período de tempo e depois acabam. Quando existem condições apropriadas, elas voltam, existem por um período de tempo e depois acabam outra vez. Estas coisas não são um “eu”, um “ser”, um “nós” ou um “eles”. Não existe ninguém nessas coisas, apenas sensações. A felicidade não tem um “eu” intrínseco, o sofrimento não tem um “eu” intrínseco. Nenhum “eu” pode ser encontrado, pois são simples elementos da natureza que começam, existem e acabam, passando por este constante ciclo de mudança.

O “eu” ou “ego”, nada mais é do que um fenômeno condicionado, estimulado desde o nosso nascimento para reagir às situações do cotidiano e que, devido à sua natureza impermanente, em determinado momento deixará de existir [7].

Assim, acredito que o objetivo do ensinamento de anatta – não-eu, seja o de nos transmitir o entendimento de que esse “eu” ou “ego” aparente não deve ser reconhecido como uma entidade que comanda nossos pensamentos e nossas ações e, sendo assim, não é o destinatário dos objetos do desejo presentes no mundo: formas, sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais.

Quando desejamos alguma coisa porque entendemos que aquilo nos trará satisfação é irrelevante para o entendimento do “não-eu”, se o “eu” ou “ego” existe ou não. A compreensão de que não é correto desejar algo porque não existe “eu” ou “ego” é inadequada. É irrelevante se existe ou não.

É inadequado desejar algo porque o desejo também é uma construção do “eu” ou “ego” e não algo inerente à sua natureza. Por isso dizemos que todas as coisas são impessoais ou não-eu.

Nesse discurso do Buda, é possível perceber como as três características da existência estão perfeitamente relacionadas [8]:

Assim ouvi. Em certa ocasião, o Abençoado estava em Benares, no Parque do Gamo, em Isipatana. Lá ele se dirigiu ao grupo de cinco bhikkhus desta forma: “Bhikkhus” – “Venerável Senhor,” eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“A forma, bhikkhus, é não-eu. Pois, bhikkhus, se a forma fosse o eu, essa forma não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’ Mas porque a forma é não-eu, a forma conduz ao sofrimento e não é possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’
“A sensação é não-eu…
“A percepção é não-eu…
“As formações volitivas são não-eu…
“A consciência é não-eu. Pois, bhikkhus, se a consciência fosse o eu, essa consciência não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’ Mas porque a consciência é não-eu, a consciência conduz ao sofrimento e não é possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’
“O que vocês pensam, bhikkhus, a forma é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.
“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“… a sensação é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… a percepção é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… as formações volitivas são permanentes ou impermanentes?
“Impermanentes, senhor.
“O que vocês pensam, bhikkhus, a consciência é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.
“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“Portanto, bhikkhus, qualquer forma, quer seja do passado, futuro ou presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior, próxima ou distante: toda forma deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’
“Qualquer sensação …
“Qualquer percepção …
“Quaisquer formações volitivas …
“Qualquer consciência, quer seja do passado, do futuro ou do presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior; próxima ou distante: toda consciência deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’
“Vendo dessa forma, o nobre discípulo bem instruído se desencanta com a forma, se desencanta com a sensação, se desencanta com a percepção, se desencanta com as formações volitivas, se desencanta com a consciência. Desencantado ele se torna desapegado. Através do desapego a sua mente é libertada. Quando ela está libertada surge o conhecimento: ‘Libertada.’ Ele compreende que: ‘O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.’”
Isso foi o que o Abençoado disse. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado. E enquanto essa explanação estava sendo dada, as mentes do grupo de cinco bhikkhus, foram libertadas das impurezas através do desapego.

Notas

[1] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 22. Disponível no menu “Biblioteca”.

[2] SUMEDHO Ajahn. Plena Atenção: O Caminho Para a Imortalidade (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 9-10. Disponível no menu “Biblioteca”.

[3] CANDASIRI Ajahn, Pura Bondade (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 20. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 58. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 21. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] APPAMADO Bhikkhu. Folhas da Árvore Bodhi (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 6. Disponível no menu “Biblioteca”.

[7] Para o budismo não existe qualquer entidade eterna, permanente, seja o “eu”, o “ego” ou a “alma”. Esse entendimento pode nos levar à seguinte questão: Se esses três elementos são impermanentes o que renasce? O kamma – carma.

[8] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXXII.59.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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