Os Cinco Preceitos

lifebelt-1790134_1280

Introdução

O Buda possuía discípulos com diferentes níveis de determinação e entendimento. Para aqueles decididos a abandonar suas posses e seu modo de vida em sociedade pela busca de um ideal maior, o Buda criou as 227 regras de conduta do Patimokkha, o Código de Disciplina dos bhikkhus, monges budistas. Todavia, para aqueles discípulos leigos que ainda viviam em sociedade, estabeleceu cinco preceitos básicos a serem seguidos: não matar seres vivos; não tomar aquilo que não for dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência.

1. Primeiro Preceito: não matar seres vivos

Seres vivos significa não apenas outro ser humano, mas qualquer outro ser que compartilhe da nossa existência no samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1]. Então, podemos incluir os animais considerados irracionais, bem como as criaturas minúsculas, como os insetos.

É claro que a ação ou kamma [2] de matar outro ser humano traz mais consequências que a ação ou kamma de matar um animal irracional, que por sua vez é mais grave que matar um inseto. Contudo, todos esses atos são lamentáveis e trazem consequências.

O budismo expõe a realidade como ela efetivamente é, não como gostaríamos que fosse, e sempre nos apresenta o caminho correto a ser seguido. Antes de pôr fim à vida de um inseto intencionalmente, pense nesse poder que lhe foi dado e como irá administrá-lo. Lembre-se da Primeira Nobre Verdade, que nos ensina que faz parte deste mundo a experiência de sensações consideradas desagradáveis, como a investida de um mosquito por exemplo. Reflita sobre a sensação em si, que não é pessoal e logo irá passar, devido à sua natureza impermanente, e dê preferência ao repelente, não ao inseticida.

2. Segundo Preceito: não tomar aquilo que não foi dado

Essa regra é autoexplicativa, não furtar e não roubar.

Furtar, segundo o Dicionário Aurélio [3]:

1. Subtrair fraudulentamente (coisa alheia); roubar.
2.
Fazer passar como seu (trabalho, ideia, etc.).

Roubar, segundo o Dicionário Aurélio [4]:

1. Tomar (objeto, coisa móvel) da posse de alguém, mediante ameaça ou violência.
(
…)

3. Terceiro Preceito: não ter comportamento sexual impróprio

O Buda nos explica em alguns de seus discursos o que é considerado comportamento sexual improprio, veja um exemplo [5]:

(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva.

Portanto, não há subjetividade no termo “impróprio”, uma vez que o seu significado pode ser encontrado nos ensinamentos.

Comportamento sexual improprio é aquele realizado sem o consentimento da outra parte; aquele realizado apenas para satisfazer o próprio desejo, não se importando com os sentimentos da outra parte; e, aquele realizado com pessoa comprometida com outro relacionamento ou quando se está em um relacionamento e realiza atividade sexual com outra pessoa, infidelidade conjugal.

4. Quarto Preceito: não mentir

A linguagem mentirosa deve ser evitada por aqueles que pretendem seguir os cinco preceitos, mas é apenas um dos tipos de linguagem incorreta a ser combatida para aqueles que pretendem pôr em prática o exercício da palavra correta, que é um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, e que demandará um esforço maior.

Além da mentira, também faz parte da linguagem incorreta a linguagem maliciosa, a linguagem grosseira e a linguagem frívola.

O Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, nos esclarece como identificar cada um dos tipos de linguagem incorreta, e assim evita-las [6]:

Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício.

5. Quinto Preceito: não consumir substâncias embriagantes que causam negligência

O Buda falava frequentemente em “vinho, álcool e outros embriagantes…”, mas obviamente podemos ampliar o entendimento para aquelas substâncias que, além da negligência, também causam a dependência, como o fumo, as drogas ou quaisquer outras substâncias modernas que provoquem os mesmos efeitos.

O termo utilizado pelo Buda era “não consumir”, mas ainda assim algumas pessoas questionam se beber com moderação é ir contra o preceito. Particularmente, entendo que consumir álcool, em qualquer dose, é ir contra o preceito, uma vez que o termo utilizado pelo Buda foi “não consumir”, bem claro e autoexplicativo. Caso contrário, teria utilizado o termo “consumir com moderação”, mas não o fez.

Além do mais, não creio que tenha existido professor tão hábil e preciso com as palavras quanto o Buda. Seus ensinamentos são claros, alguns de difícil entendimento, diga-se de passagem, mas não deixam margem à diferentes interpretações. Quando se tem dúvida sobre um determinado ensinamento, basta aprofundar-se nos estudos que certamente a dúvida é dirimida em outra passagem.

Observação: para aqueles que participam de retiros de meditação budista, é necessário, durante o período de sua realização, abster-se de qualquer prática sexual, uma ampliação do terceiro preceito, bem como a observação de três preceitos adicionais: não comer nos horários proibidos; não ouvir música, cantar, dançar, ver espetáculos de entretenimento, usar ornamentos, usar perfumes, e embelezar o corpo com cosméticos; e, não deitar em leitos elevados e luxuosos.

Mé Chi Kéu, em sua biografia escrita por Bhikkhu Dick Sīlaratano, nos diz o seguinte sobre os Cinco Preceitos [7]:

Cada um dos cinco preceitos carrega um benefício em particular. Ao abster-se de machucar seres vivos, podemos esperar boa saúde e longevidade. Ao abster-se de roubar, nossa riqueza e propriedades estarão a salvo de furtos e desaventuras. Ao abster-se de adultério, parceiros serão fiéis e viverão com contentamento sem sentir culpa ou vergonha. Ao abster-se de mentir, ganharemos a confiança alheia e seremos sempre respeitados por nossa integridade. Ao abster-se de intoxicantes, guardaremos nossa inteligência e permaneceremos pessoas sábias e claras, que não são facilmente enganadas ou confundidas.
(…)
Primeiro você deve abster-se de machucar seres vivos. Ao fazê-lo, aprenderá a restringir sua raiva e promover bem-querer. Você deve abster-se de tomar coisas sem o consentimento do dono. Ao descartar a mentalidade de um ladrão, a cobiça é posta em xeque e a renúncia ganha espaço para crescer. Todas as relações sexuais inapropriadas devem ser abandonadas, porque evitar má conduta sexual ajuda a diminuir o desejo sexual e desenvolve o espírito de contentamento. Ao abster-se de dizer mentiras, sempre dizendo a verdade, você controla as tendências à fala falsa e dá ênfase à honestidade em todos seus envolvimentos. Abster-se de intoxicantes evita excitação mental danosa e cultiva o desenvolvimento de sati, que é o pré-requisito básico para manter todos os preceitos morais de uma maneira suave e constante.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Kamma ou carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[3], [4] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 7.0.2. O Míni Aurélio corresponde à 8a. edição, revista e atualizada, do Minidicionário Aurélio, da Língua Portuguesa, contendo mais de 30 mil verbetes. 2010.

[5] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[6] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[7] SĪLARATANO, Bhikkhu Dick. Sua Jornada ao Despertar Espiritual e Iluminação (Biografia de Mé Chi Kéu) (ed. eletrônica). Tailândia: Forest Dhamma Books, 2017. p. 42, 91-92. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 25 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

Anúncios

6 comentários sobre “Os Cinco Preceitos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s