Equanimidade: Um Refúgio Interior

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Há quem diga que os obstáculos apresentados pela vida nunca são maiores que a nossa capacidade de superação, mas quando presenciamos o sofrimento de quem amamos ou alguma injustiça na qual não podemos intervir, necessitamos de um esforço maior para entendermos e aceitarmos aquela situação.

Ainda que não sejamos os destinatários diretos daquele problema, nossa boa vontade em ajudar o próximo, nossa compaixão e nosso desejo de que as pessoas possam superar as dificuldades, podem nos trazer sofrimento, na medida em que fazemos tudo ao nosso alcance e não visualizamos os resultados desejados.

Nesse momento, quando nossa ajuda não mais surte os efeitos esperados, a equanimidade pode ser um refúgio para descansarmos nossa mente em paz.

A equanimidade é uma das dez virtudes que conduzem à iluminação [1] – dez perfeições ou paramis [2] – e uma das quatro atitudes sublimes – brahmavihāras –, presentes em todos os seres celestiais que ainda fazem parte do samsara [3], mas que vivem em plenitude de amor bondade, de compaixão, de alegria altruísta e de equanimidade.

Desenvolver a equanimidade plena, ilimitada, não é uma tarefa fácil, mas podemos colocá-la em prática, ainda que de forma limitada. Para tanto, é preciso conhecer o funcionamento do carma [4], saber que cada pessoa é responsável pelos seus próprios atos praticados nesta ou em vidas anteriores.

Assim, prestamos nossa assistência, oferecemos um suporte para facilitar a caminhada de quem necessita, mas sem interferir no curso natural do carma, sem retirar o obstáculo que servirá de meio para o crescimento daquela pessoa, pois, do contrário, será uma ajuda a curto prazo, mas um prejuízo a longo prazo para aquela pessoa.

Ajudamos até o limite em que a pessoa permite ser ajudada e mostramos o caminho, mas a caminhada é de responsabilidade de cada um de nós, e, assim, repousamos nossa mente em paz, com a noção do dever cumprido, na medida em que compreendemos que cada um é responsável pelas próprias ações, e que não podemos mudar a vida das pessoas, apenas auxiliá-las em um processo de transformação interior.

A equanimidade é o fator de equilíbrio entre o amor bondade, a compaixão e a alegria altruísta. É a qualidade que impede o excesso dessas virtudes, que impede a manifestação do sofrimento em decorrência da impossibilidade de auxílio às outras pessoas, que impede o desperdício da energia que pode ser utilizada em benefício de nossa própria prática ou em benefício do próximo.

Se o mundo nos parece injusto, insatisfatório e insuficiente para atender aos desejos de toda a humanidade, também temos nossa parcela de culpa e devemos permitir que ele exista, da forma como foi construído por todos nós, uma vez que é de fundamental importância para a caminhada e o desenvolvimento espiritual de todas as pessoas.

Não se pode confundir equanimidade com indiferença. Se existe boa vontade em ajudar o próximo, se existe compaixão por todos os seres, se desejamos a todos a melhor sorte, se entendemos que nem sempre é possível ajudar como gostaríamos, se aceitamos com imparcialidade as situações da vida, se compreendemos o funcionamento do carma, estamos falando de equanimidade.

Por outro lado, quando criamos preferências em nossa mente, quando rejeitamos determinadas situações, quando praticamos alguma forma de discriminação, quando julgamos as outras pessoas, estamos cultivando o ambiente propício para a indiferença, que é o meio termo entre a atração e a aversão.

Ser equânime não é ser indiferente. A equanimidade é uma virtude, a indiferença um empecilho à nossa prática.

Equanimidade, upekkha, no idioma páli [5], é a unicidade; é o equilíbrio e a libertação da mente; é o abandono da atração e da aversão; é observar as situações da vida, sem manifestar aprovação ou desaprovação; é compreender que não controlamos nem a nossa existência, quanto mais a de outros seres; é aceitar o mundo da forma como foi idealizado por todos nós.

A busca pela paz interior não é uma atitude egoísta, pois todos os seres humanos são possuidores dessa capacidade e do mesmo conjunto de virtudes, embora alguns não consigam despertá-las devido às próprias escolhas, nesta ou em vidas anteriores.

Só teremos a verdadeira capacidade de ajudar as pessoas se nos ajudarmos primeiro.

(…) os seres são os donos das suas ações, herdeiros das suas ações, nascem das suas ações, estão atados às suas ações, possuem as suas ações como refúgio. (…)

Culakammavibhanga Sutta, Majjhima Nikaya [6].

Quando for tocado pelo toque prazeroso
não fique encantado,
não trema ao ser tocado pela dor.
Veja ambos com equanimidade, o prazeroso e o doloroso,
sem ser atraído nem repelido por nada.

Adanta-agutta Sutta, Samyutta Nikaya [7].

Equanimidade, o estado neutro, imparcial, que surge da sensata sabedoria, é um lugar para descansarmos a mente quando não conseguimos ajudar aqueles que amamos a alcançar a felicidade.

Ajahn Jayasaro [8].

(…) Então, equanimidade envolve saber onde focar suas energias e onde focar seus esforços em encontrar a felicidade.

Thanissaro Bhikkhu [9].

O sentimento de equanimidade é a mente justa, a mente de igualdade, a mente de imparcialidade, a mente sem preconceitos, o estado mental perfeitamente equilibrado.

Bhante Henepola Gunaratana [10].

Observação

Mais quatro livros adicionados no módulo “Biblioteca”. Sobre o Amor, de Ajahn Jayasaro, citado neste artigo; A Respiração Como Um Refúgio, de Thanissaro Bhikkhu, citado neste artigo; Os Quatro Fundamentos da Plena Atenção – Maha-Satipatthana Sutta, de Bhante Henepola Gunaratana, citado neste artigo; e, Todos Nós Assediados Pelo Envelhecimento, Morte e Nascimento, de Ayya Khema, citado no artigo anterior, Vamos Falar Sobre o Carma?, totalizando vinte e um livros.

Notas

[1] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[2] As dez perfeições – paramis – ou virtudes que conduzem à iluminação: dana – generosidade; sila – moralidade; nekkhamma – renúncia; pañña – sabedoria; viriya – energia; khanti – tolerância; sacca – fidedignidade; adhittana – determinação; metta – amorosidade; e, upekkha – equanimidade.

[3] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[4] Carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores. Para mais informações, leia o artigo: Vamos Falar Sobre o Carma?

[5] Páli é uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Um único vocábulo em páli pode ter vários significados em uma linguagem moderna, o que torna a tradução uma tarefa difícil.

[6] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN135.php >. Acesso em 20 jul. 2017.

[7] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXXXV.94.php >. Acesso em 20 jul. 2017.

[8] JAYASARO, Ajahn. Sobre o Amor (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 66. Disponível no menu “Biblioteca”.

[9] THANISSARO Bhikkhu. A Respiração Como Um Refúgio (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 31. Disponível no menu “Biblioteca”.

[10] GUNARATANA, Bhante Henepola. Os Quatro Fundamentos da Plena Atenção – Maha-Satipatthana Sutta (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2012. p. 120. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 25 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.