Podemos Aprender Até Com As Situações Mais Insignificantes

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Quem se lembra daquele desenho animado do Pica-pau [1], em que os animais da floresta trabalhavam incansavelmente para abastecer suas despensas e se preparavam para o inverno, enquanto que o Pica-pau, despreocupado, apenas vivia o momento presente, mas sem qualquer responsabilidade?

Entre aquelas criaturas trabalhadoras, a formiga merece destaque. Incansável, workaholic [2], talvez acumuladora compulsiva. O problema é que essa pequena criatura, às vezes, demonstra toda sua eficiência não lá fora, mas no conforto do nosso lar, e, quando percebemos, já estamos repartindo nossa comida com elas.

Aplicamos inseticidas em seus esconderijos, que se mostram ineficientes a longo prazo, descobrimos novos instrumentos de extermínio em massa, como aquele gel que as atrai para o “último banquete”, mas todos esses meios falham no seu objetivo, que é o de expulsá-las da nossa residência.

Até ficamos satisfeitos por um tempo, mas logo vemos uma andando aqui, outra andando ali, e então descobrimos mais uma trilha delas. No final, toda aquela matança fora em vão.

Além de demonstrarmos total descaso pela vida dos outros seres, não paramos para refletir sobre o problema, não atacamos a raiz do problema, que não é a presença delas, mas sim a nossa casa, que não se mantém limpa devido aos nossos hábitos.

O budismo nos ensina que não devemos tirar a vida dos outros seres [3], pelo simples fato de que todas as criaturas desejam viver e lutam pelas suas respectivas vidas, não apenas nós seres humanos.

A seguir, descrevo como o problema com as formigas foi resolvido, sem a necessidade de continuar exterminando-as.

Primeiramente, reconhecemos que o problema não era a presença delas, e sim nossos hábitos, meus e os da minha esposa. Jogávamos frequentemente resíduos de bolos e outros doces na lixeira da cozinha e demorávamos para substituir o lixo; acumulávamos embalagens vazias sobre a pia, para posterior separação e reciclagem, e alguns desses recipientes eram fontes de açúcar; repartíamos bolos sem muita atenção e o farelo caia sobre a bancada e sobre o chão; comíamos sem muita atenção e, novamente, deixávamos resíduos por onde quer que passássemos.

Como parte do plano de contingência, continuei utilizando o inseticida do tipo spray, mas sem aplicar sobre elas ou sobre o esconderijo delas, mas dentro da lixeira, como forma de impedir que continuasse a ser uma fonte de alimentos para as formigas, e, assim, elas não mais retornaram à lixeira.

Passamos a lavar, sem muito desperdício de água, as embalagens vazias sobre a pia para tirar o excesso de açúcar, até que pudessem ser ensacadas e separadas do lixo orgânico. As formigas ainda passeavam sobre a pia, mas apenas para beber água, não mais para se alimentar.

Desenvolvemos o hábito de maior atenção ao manusearmos biscoitos, bolos e outras fontes de açúcar. Dessa forma, a presença das formigas pela casa diminuiu consideravelmente, mas ainda era possível vê-las aqui e ali, até que em determinado dia algo extraordinário aconteceu.

Estava tranquilamente sentado na poltrona da sala quando, de repente, ouço um grito vindo da cozinha e dou um pulo de susto: “AMOR! VENHA VER UMA COISA!”.

Vou até a cozinha e vejo uma trilha com centenas de formigas, ou milhares, em mão única em direção à janela. Nessa trilha, também estavam algumas que pareciam as rainhas, bem maiores que as demais, devidamente protegidas por várias outras em volta, que as escoltavam lentamente pela mesma trilha. Vi também, incontáveis formigas carregando pequenos detritos coloridos – brancos, amarelos, azuis, verdes, vermelhos –, e, só então, pudemos perceber como era o nosso hábito alimentar e o quanto de corantes artificiais ingeríamos.

Em um passado não muito distante, esse seria o momento perfeito para matar todas elas com o inseticida do tipo spray, mas apenas permitimos que elas seguissem o caminho delas, talvez motivados por uma forma rudimentar de compaixão. Enfim, estavam abandonando definitivamente a nossa residência, e, por incrível que pareça, isso não nos trouxe a felicidade tão esperada [4].

Durante esse período de reeducação de hábitos pessoais, foi necessário, primeiramente, identificar a raiz do problema, que não era externa, não era a presença delas, e sim interna, nossa forma desleixada e desatenta de lidar com os alimentos. Também, foi necessária uma boa dose de paciência e tolerância, para convivermos harmoniosamente com as formigas até que elas decidissem abandonar nossa residência, o que, de fato, não sabíamos se iria ocorrer.

Esta é apenas uma pequena demonstração de que podemos extrair sempre algo de positivo até daquelas situações que nos parecem mais insignificantes. Ao invés de fomentarmos a intolerância, buscamos lidar da melhor forma com o problema e resolvê-lo definitivamente, do nosso interior para o exterior.

Assim é a vida, que sempre nos apresenta situações que põem à prova nossa paciência e nossa tolerância [5]. Da mesma forma, sempre temos diversas alternativas para lidar com um único tipo de problema apresentado. Alguns desses meios demandam pouco esforço, mas, por outro lado, não nos trazem a solução definitiva do problema. Outros, em contrapartida, exigem grande esforço, mas nos recompensa com a solução definitiva do problema.

E então, qual dos meios escolheremos para lidar com os problemas?

Notas

[1] Quem nunca assistiu ao desenho animado mencionado e gostaria de vê-lo, ou gostaria de relembrá-lo, se assim o desejar, basta pesquisar na internet pelo título: “Pica-pau – Os Trabalhadores da Floresta”.

[2] Aquele viciado em trabalho; trabalhador compulsivo.

[3] “Não matar seres vivos”, um dos Cinco Preceitos, o mínimo exigido daquele que se considera budista.

[4] Não se pode encontrar a felicidade verdadeira em fatores externos, essa felicidade é precária e passageira. O tema é melhor desenvolvido no seguinte artigo: O Budismo e a Verdadeira Felicidade.

[5] Essa é a Primeira das Quatro Nobres Verdades do budismo: o sofrimento. O simples fato de vivermos neste mundo é suficiente para que sejamos expostos a incontáveis situações que põem à prova nossas virtudes e nos provocam sofrimento.

Última revisão: 26 de junho de 2017.
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Os Cinco Preceitos

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Introdução

O Buda possuía discípulos com diferentes níveis de determinação e entendimento. Para aqueles decididos a abandonar suas posses e seu modo de vida em sociedade pela busca de um ideal maior, o Buda criou as 227 regras de conduta do Patimokkha, o Código de Disciplina dos bhikkhus, monges budistas. Todavia, para aqueles discípulos leigos que ainda viviam em sociedade, estabeleceu cinco preceitos básicos a serem seguidos: não matar seres vivos; não tomar aquilo que não for dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência.

1. Primeiro Preceito: não matar seres vivos

Seres vivos significa não apenas outro ser humano, mas qualquer outro ser que compartilhe da nossa existência no samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1]. Então, podemos incluir os animais considerados irracionais, bem como as criaturas minúsculas, como os insetos.

É claro que a ação ou kamma [2] de matar outro ser humano traz mais consequências que a ação ou kamma de matar um animal irracional, que por sua vez é mais grave que matar um inseto. Contudo, todos esses atos são lamentáveis e trazem consequências.

O budismo expõe a realidade como ela efetivamente é, não como gostaríamos que fosse, e sempre nos apresenta o caminho correto a ser seguido. Antes de pôr fim à vida de um inseto intencionalmente, pense nesse poder que lhe foi dado e como irá administrá-lo. Lembre-se da Primeira Nobre Verdade, que nos ensina que faz parte deste mundo a experiência de sensações consideradas desagradáveis, como a investida de um mosquito por exemplo. Reflita sobre a sensação em si, que não é pessoal e logo irá passar, devido à sua natureza impermanente, e dê preferência ao repelente, não ao inseticida.

2. Segundo Preceito: não tomar aquilo que não foi dado

Essa regra é autoexplicativa, não furtar e não roubar.

Furtar, segundo o Dicionário Aurélio [3]:

1. Subtrair fraudulentamente (coisa alheia); roubar.
2.
Fazer passar como seu (trabalho, ideia, etc.).

Roubar, segundo o Dicionário Aurélio [4]:

1. Tomar (objeto, coisa móvel) da posse de alguém, mediante ameaça ou violência.
(
…)

3. Terceiro Preceito: não ter comportamento sexual impróprio

O Buda nos explica em alguns de seus discursos o que é considerado comportamento sexual improprio, veja um exemplo [5]:

(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva.

Portanto, não há subjetividade no termo “impróprio”, uma vez que o seu significado pode ser encontrado nos ensinamentos.

Comportamento sexual improprio é aquele realizado sem o consentimento da outra parte; aquele realizado apenas para satisfazer o próprio desejo, não se importando com os sentimentos da outra parte; e, aquele realizado com pessoa comprometida com outro relacionamento ou quando se está em um relacionamento e realiza atividade sexual com outra pessoa, infidelidade conjugal.

4. Quarto Preceito: não mentir

A linguagem mentirosa deve ser evitada por aqueles que pretendem seguir os cinco preceitos, mas é apenas um dos tipos de linguagem incorreta a ser combatida para aqueles que pretendem pôr em prática o exercício da palavra correta, que é um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, e que demandará um esforço maior.

Além da mentira, também faz parte da linguagem incorreta a linguagem maliciosa, a linguagem grosseira e a linguagem frívola.

O Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, nos esclarece como identificar cada um dos tipos de linguagem incorreta, e assim evita-las [6]:

Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício.

5. Quinto Preceito: não consumir substâncias embriagantes que causam negligência

O Buda falava frequentemente em “vinho, álcool e outros embriagantes…”, mas obviamente podemos ampliar o entendimento para aquelas substâncias que, além da negligência, também causam a dependência, como o fumo, as drogas ou quaisquer outras substâncias modernas que provoquem os mesmos efeitos.

O termo utilizado pelo Buda era “não consumir”, mas ainda assim algumas pessoas questionam se beber com moderação é ir contra o preceito. Particularmente, entendo que consumir álcool, em qualquer dose, é ir contra o preceito, uma vez que o termo utilizado pelo Buda foi “não consumir”, bem claro e autoexplicativo. Caso contrário, teria utilizado o termo “consumir com moderação”, mas não o fez.

Além do mais, não creio que tenha existido professor tão hábil e preciso com as palavras quanto o Buda. Seus ensinamentos são claros, alguns de difícil entendimento, diga-se de passagem, mas não deixam margem à diferentes interpretações. Quando se tem dúvida sobre um determinado ensinamento, basta aprofundar-se nos estudos que certamente a dúvida é dirimida em outra passagem.

Observação: para aqueles que participam de retiros de meditação budista, é necessário, durante o período de sua realização, abster-se de qualquer prática sexual, uma ampliação do terceiro preceito, bem como a observação de três preceitos adicionais: não comer nos horários proibidos; não ouvir música, cantar, dançar, ver espetáculos de entretenimento, usar ornamentos, usar perfumes, e embelezar o corpo com cosméticos; e, não deitar em leitos elevados e luxuosos.

Mé Chi Kéu, em sua biografia escrita por Bhikkhu Dick Sīlaratano, nos diz o seguinte sobre os Cinco Preceitos [7]:

Cada um dos cinco preceitos carrega um benefício em particular. Ao abster-se de machucar seres vivos, podemos esperar boa saúde e longevidade. Ao abster-se de roubar, nossa riqueza e propriedades estarão a salvo de furtos e desaventuras. Ao abster-se de adultério, parceiros serão fiéis e viverão com contentamento sem sentir culpa ou vergonha. Ao abster-se de mentir, ganharemos a confiança alheia e seremos sempre respeitados por nossa integridade. Ao abster-se de intoxicantes, guardaremos nossa inteligência e permaneceremos pessoas sábias e claras, que não são facilmente enganadas ou confundidas.
(…)
Primeiro você deve abster-se de machucar seres vivos. Ao fazê-lo, aprenderá a restringir sua raiva e promover bem-querer. Você deve abster-se de tomar coisas sem o consentimento do dono. Ao descartar a mentalidade de um ladrão, a cobiça é posta em xeque e a renúncia ganha espaço para crescer. Todas as relações sexuais inapropriadas devem ser abandonadas, porque evitar má conduta sexual ajuda a diminuir o desejo sexual e desenvolve o espírito de contentamento. Ao abster-se de dizer mentiras, sempre dizendo a verdade, você controla as tendências à fala falsa e dá ênfase à honestidade em todos seus envolvimentos. Abster-se de intoxicantes evita excitação mental danosa e cultiva o desenvolvimento de sati, que é o pré-requisito básico para manter todos os preceitos morais de uma maneira suave e constante.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Kamma ou carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[3], [4] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 7.0.2. O Míni Aurélio corresponde à 8a. edição, revista e atualizada, do Minidicionário Aurélio, da Língua Portuguesa, contendo mais de 30 mil verbetes. 2010.

[5] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[6] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[7] SĪLARATANO, Bhikkhu Dick. Sua Jornada ao Despertar Espiritual e Iluminação (Biografia de Mé Chi Kéu) (ed. eletrônica). Tailândia: Forest Dhamma Books, 2017. p. 42, 91-92. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 25 de julho de 2017.
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O Nobre Caminho Óctuplo

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São os oito passos necessários para a libertação de todo o sofrimento, e assim, não mais retornar ao samsara, o ciclo de renascimentos [1].

É um grande desafio até para os monges, quanto mais para os praticantes leigos que vivem em sociedade, mas vale o esforço para colocá-los em prática.

O primeiro desses passos é o entendimento correto, entender as Quatro Nobres Verdades;

O segundo passo é o cultivo do pensamento correto, o pensamento de renúncia ou desapego, o pensamento da generosidade, o pensamento de metta (amor e bondade), o pensamento da compaixão;

O terceiro passo é a palavra correta, a palavra amigável, a palavra que une as pessoas, a verdade;

O quarto passo é a ação correta, que para os budistas leigos é a obediência aos Cinco Preceitos;

O quinto passo é o modo de vida correto que é a condução da vida em sociedade com honestidade, abstendo-se de atividades comerciais ou profissionais que causem prejuízo a outros seres vivos;

O sexto passo é o esforço correto, que é identificar quando um pensamento prejudicial surge na mente e substituí-lo por um pensamento benéfico, e assim, com a prática, impedir totalmente que o pensamento prejudicial floresça, que é o objetivo final deste passo;

O sétimo passo é a atenção correta ou atenção plena correta, que é desenvolvida por meio da meditação, mas deve ser estendida durante todo o período do dia e, após determinado nível de prática, também durante a noite;

O oitavo passo é a concentração correta, ou seja, o resultado da prática satisfatória da meditação, os quatro jhanas, que são os estágios de absorção mental.

No Magga-vibhanga Sutta, do Samyutta Nikaya, o tema do Nobre Caminho Óctuplo é abordado pelo Buda em seu discurso [2]:

Em Savatthi. “Bhikkhus, eu ensinarei e analisarei para vocês o Nobre Caminho Óctuplo. Ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer.” – “Sim, venerável senhor,” os bhikkhus responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“E qual, bhikkhus, é o Nobre Caminho Óctuplo? Entendimento Correto, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correta, Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta.
“E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.
E o que é pensamento correto? O pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto.”
“E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta.”
“E o que é ação correta? Abster-se de tirar a vida de outros seres, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta.”
“E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto.”
“E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto.”
“E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (ii) Ele permanece contemplando as sensações como sensações – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iii) Ele permanece contemplando a mente como mente – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iv) Ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.
“E o que é concentração correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ (iv) Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentração correta.”

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXLV.8.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
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O Que é Necessário Para Se Tornar Um Budista?

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Introdução

Para que uma pessoa se considere budista não é necessário participar de qualquer cerimônia de iniciação. Contudo, o verdadeiro budista é aquele que entende e pratica. De nada adianta ser um profundo conhecedor dos discursos proferidos pelo Buda e seus ensinamentos se nada é colocado em prática. Nesse caso, estaremos diante de um estudioso do budismo e não de um budista propriamente dito.

É importante que não existam conflitos internos entre crenças ou dogmas religiosos e os elementos de estudo do budismo, que são utilizados como base para a explicação dos ensinamentos.

Como exemplo, cito o fato de o budismo considerar que fazemos parte de um ciclo de renascimentos, chamado samsara. Ou seja, a morte não é o fim de tudo, e, tampouco nos conduzirá a um local de repouso eterno. Nada é permanente na concepção budista, tudo é impermanente, temporário. Nascemos, envelhecemos e em determinado momento morreremos. Durante esse período de vida, agimos algumas vezes de forma saudável, outras vezes de forma não saudável, o que o budismo chama de kamma ou carma, e assim orientamos nossa presente vida, bem como preparamos o próximo renascimento, e posteriores.

Então, se tudo lhe pareceu estranho, de difícil compreensão ou aceitação, pode ser que o budismo não seja o caminho a seguir, nesse primeiro momento. Por outro lado, se o que foi exposto lhe pareceu razoável, este pode ser um indicativo de que vale a pena o esforço em entender e praticar os ensinamentos do Buda, e, posteriormente, confirmar por si mesmo se valeu a pena.

Basicamente, considero necessário o entendimento das Três Características da Existência (anicca – impermanência; dukkha – sofrimento; e, anatta – não-eu), das Quatro Nobres Verdades (o sofrimento; a causa do sofrimento; a cessação do sofrimento; e, o caminho que leva à cessação do sofrimento – o Nobre Caminho Óctuplo); a prática dos Cinco Preceitos (não matar seres vivos; não tomar aquilo que não foi dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência); e, o esforço em praticar o Nobre Caminho Óctuplo (compreensão correta; pensamento correto; palavra correta; ação correta; modo de vida correto; esforço correto; atenção correta; e, concentração correta).

Adicionalmente, é comum a busca por refúgio interior na chamada Joia Tríplice: o Buda, um ser humano que atingiu a iluminação, o objetivo último do budismo, e dedicou sua vida aos ensinamentos do caminho para a libertação de todo o sofrimento; o Dhamma, a doutrina, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda; e, a Sangha, a comunidade de discípulos do Buda, responsável pela manutenção e divulgação desse conhecimento.

1. A vida do Buda

Conhecer um pouco sobre a vida do Buda nos traz sentimentos de esperança e de profunda gratidão. Esperança, pois descobrimos que o Buda, até os seus 29 anos, teve experiências de vida comuns a todos nós, como o casamento e o nascimento de seu filho. Gratidão, pois descobrimos que o Buda abriu mão de um futuro próspero e promissor para investigar as causas do sofrimento e nos mostrar o caminho para a libertação.

Segue um resumo da vida do Buda [1]:

O BUDDHA ou Iluminado – lit. Aquele que sabe ou o Desperto – é o nome honorífico conferido ao Sábio indiano, Gotama, que desvendou e proclamou ao mundo a lei da libertação, conhecida no Ocidente pelo nome de Budismo. Nasceu no Século VI a.C., em Kapilavatthu, filho do rei que na época regia o País Sakya, um principado situado na zona de fronteira com o actual Nepal. O seu nome próprio era Siddhattha e seu nome de clã, Gotama (Sânscrito: Siddhārtha Gautama). Aos 29 anos de idade, renunciou ao esplendor da sua vida principesca como herdeiro real, e tornou-se um asceta mendicante, com o propósito de descobrir uma solução para aquilo que antes havia reconhecido como um mundo de sofrimento. Depois de uma busca de seis anos sob a orientação de vários instrutores religiosos e de um período de auto-mortificação infrutífera, Siddhattha finalmente alcançou a Iluminação Perfeita (sammāsambodhi), debaixo da árvore Bodhi em Gayā (actualmente Boddh-Gayā). Seguiram-se quarenta e cinco anos de incansável ensinamento e pregação, e finalmente, no seu octogésimo ano de vida, morre em Kusinara “aquele ser não iludido que surgiu para a bênção e alegria do mundo”. O Buddha não é nem um deus nem um profeta, nem a encarnação de um deus, mas um ser humano supremo que, através do seu próprio empenho, alcançou a redenção final, a sabedoria perfeita, tornando-se “o mestre sem par de deuses e homens”. É um “Salvador” unicamente no sentido em que mostra aos homens como se salvarem a si próprios, seguindo até ao fim, na prática, o caminho percorrido e mostrado por ele. O Buddha, na sua consumada harmonia de sabedoria e compaixão, encarna o ideal universal e intemporal do homem Aperfeiçoado.

2. As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

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3. As Quatro Nobres Verdades

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4. Os Cinco Preceitos

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5. O Nobre Caminho Óctuplo

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6. A Joia Tríplice ou Triplo Refúgio

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7. Encerramento

Encerro, para reflexão, com alguns versos do Dhammapada, a obra que contém a síntese dos ensinamentos do Buda [2]:

Por muito que recite os textos sagrados, se não agir nesse sentido, o homem descuidado é como um pastor que só conta as vacas dos outros – ele não beneficia das bênçãos da vida santa.

Por pouco que recite os textos sagrados, se o homem colocar o Ensinamento em prática, abandonando a luxúria, o ódio e a ilusão, com verdadeira sabedoria e espírito livre, apegado a nada deste ou de qualquer outro mundo – ele realmente participa das bênçãos de uma vida santa.

Aquele que destrói a vida, profere mentiras, toma o que não é seu, vai ter com a esposa de outro, e é viciado em bebidas alcoólicas – tal homem desenterra a sua própria raiz mesmo neste mundo.

Aquele que se refugiou no Buddha, no Ensinamento e no Sangha, penetra com sabedoria transcendental as Quatro Nobres Verdades – o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o Nobre Caminho Óctuplo que conduz à cessação de sofrimento.

Notas

[1] MAHATHERA, Nyanatiloka. A Palavra do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 20-21. Disponível no menu “Biblioteca”.

[2] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 16, 72, 90. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
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