Contemplação da Lua

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A noite nos oferece um belo objeto de contemplação: a lua.

O brilho da lua nada mais é do que uma ilusão, o reflexo da luz do sol. Ainda assim, essa ilusão é a que nos mantém atentos ao caminho, na escuridão da noite, até o amanhecer do dia, que nos traz a luz verdadeira, e então podemos abandonar a ilusão.

A lua, às vezes, brilha imponente, às vezes, apenas se faz presente. Da mesma forma é o funcionamento da nossa mente, quando serena ou envolta pelos pensamentos.

Enquanto a nuvem de pensamentos se mantém, em vão é o esforço para revelar o brilho verdadeiro da mente. Enquanto a felicidade precária do desejo se mantém, em vão é o esforço para revelar a felicidade verdadeira da mente.

Às vezes utilizamos alguns recursos para nos manter no caminho, mas devemos sempre compreender que chegará um momento em que deveremos abandoná-los também, assim como abrimos mão do brilho da lua, no amanhecer do dia.

Aquele que tendo sido descuidado deixa de o ser, ilumina este mundo como a lua descoberta de nuvens.

Ele, que por boas acções compensa o mal que fez, ilumina este mundo como a lua descoberta de nuvens.

Dhammapada, versos 172 e 173 [1].

Notas

[1] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 68. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 23 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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O Budismo e a Verdadeira Felicidade

 

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Muita coisa mudou desde que o Buda atingiu a iluminação [1] e nos deixou o legado de inúmeros textos, com preciosos ensinamentos, denominados suttas [2], há mais de dois mil e quinhentos anos atrás.

De lá para cá, esse conjunto de ensinamentos migrou de região para região, e o contato com diferentes culturas, inevitavelmente, fez com que o budismo se dividisse em diferentes linhas de pensamento.

Há o budismo tradicional, aquele baseado unicamente nas escrituras atribuídas ao Buda e na sua verdade revelada; há o budismo que segue a linha esotérica, cuja iniciação é necessária para o exercício de determinadas práticas, o qual utiliza a entoação de mantras e a visualização de deidades [3] como forma de auxílio à busca pela iluminação; há o budismo com ênfase na meditação, e não tanto no estudo das escrituras; entre outros.

Enfim, para cada tipo de pessoa parece existir um tipo de budismo a ser indicado. Contudo, seja qual for a tradição a ser adotada, a essência sempre estará presente, com mais ênfase ou menos ênfase, dependendo da linha de pensamento em que é orientado, mas estará lá, presente e acessível para quem desejar investigar a realidade.

Essa essência é o ensinamento das Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho para a cessação do sofrimento.

Embora todos esses quatro elementos contenham o termo “sofrimento”, o que se busca é a libertação desse estado mental prejudicial e o cultivo da felicidade verdadeira, aquela adormecida em nossa própria mente, não aquela encontrada no que a sociedade tem a nos oferecer, a qual chamaremos de felicidade ilusória, a felicidade frágil e passageira.

O que acontece, na realidade, é que os conceitos de felicidade e sofrimento estão invertidos na nossa mente, o que pensamos que nos trará felicidade, na verdade, é a fonte de todo o sofrimento da humanidade: o desejo.

Da mesma forma, podemos pensar, equivocadamente, que sofrer é não nos tornamos o profissional bem-sucedido que pensaríamos ser; que sofrer é não ter recursos financeiros suficientes para consumir tudo aquilo que a sociedade tem a nos oferecer; que sofrer é olhar a foto de dez, vinte anos atrás e perceber que o tempo passou e que envelhecemos…

Contudo, se observarmos com sabedoria, perceberemos que a causa do sofrimento, na verdade, é o desejo pelo ser, o desejo pelo possuir, o desejo pelo permanecer…

Se tivermos determinação, até conseguiremos realizar boa parte dos nossos desejos e objetivos em nossa vida, mas sempre existirá uma parcela de imprevisibilidade pelo caminho, inerente ao mundo, vivenciada por todos nós. Compreender esse fenômeno da forma como ele é, impessoal, impermanente [4], também é de grande importância para se evitar o sofrimento. Em outras palavras, desenvolver a aceitação ao que nos é apresentado pela vida.

É comum que, equivocadamente, atribuamos à felicidade ilusória a condição de objeto de nossa busca durante toda a vida e, quando pensamos tê-la alcançado, surge um novo desejo que se sobrepõe àquela noção aparente de felicidade.

Essa felicidade precária nunca trará verdadeira e duradoura satisfação, uma vez que estamos buscando-a na fonte do sofrimento: o desejo. E continuamos a nossa busca enganosa, o nosso cultivo do desejo por “belezas para olhar, sons agradáveis para ouvir, aromas interessantes para cheirar, sabores formidáveis para experimentar, prazeres do corpo para se esbaldar” [5]; do desejo pelo ser; do desejo pelo possuir; do desejo pela permanência de sensações e experiências em um mundo em que a impermanência se faz presente em todas as coisas.

Por outro lado, a felicidade verdadeira é aquela revelada quando se abre mão de todo esse desejo, quando se percebe a natureza impermanente do mundo em que vivemos, um eterno ciclo de nascimento, envelhecimento e morte [6], e, porque não dizer, uma eterna busca pela felicidade ilusória. A felicidade verdadeira já está dentro de nós, apenas não podemos percebê-la devido ao nosso modo de vida, uma vida de busca exterior.

Esse entendimento, todavia, pode nos levar a formular a seguinte questão: é possível viver em sociedade e, ao mesmo tempo, livrar-se do sofrimento e experimentar a felicidade verdadeira? Talvez não totalmente, mas podemos minimizar consideravelmente o sofrimento e, dessa forma, experimentar a felicidade verdadeira.

A felicidade verdadeira aumenta na medida em que diminuímos o desejo. Quando diminuímos o desejo, consequentemente, o sofrimento também é reduzido. Esse, por sinal, é um bom indicativo de que estamos no caminho correto, uma vez que são fenômenos opostos. Quando um é cultivado o outro é enfraquecido e vice-versa.

Abrir mão do desejo, contudo, não é uma tarefa fácil. Significa, em suma, dizer um sonoro e alto “NÃO” para o modo de vida imposto pela sociedade, um modo de vida voltado para o consumo e estimulado desde que éramos crianças.

Obviamente que o abandono total do desejo é incompatível com a vida em sociedade, necessitamos de parte do que ela oferece até para que possamos integrá-la. O que devemos desenvolver é a noção de utilidade daquilo que nos é colocado à disposição, e, sempre que surgir o desejo, ponderar: “realmente necessitamos daquilo que a sociedade nos coloca à disposição?”.

Necessitamos de roupas para viver em sociedade, mas podemos comprar o necessário para sermos considerados pessoas equilibradas, ou seja, nem aquela que usa a mesma roupa todo dia, nem aquela que possui o guarda-roupa cheio de roupas que nunca usou. Aproveite a oportunidade para o desenvolvimento de outra virtude [7], a generosidade, e doe aquilo que não utiliza.

Necessitamos de equipamentos eletrônicos para nos comunicarmos em sociedade, mas não necessariamente os de última geração ou os modelos mais recentes. Contente-se com aquele aparelho que ainda cumpre o seu propósito.

Necessitamos de alimentos para suprir nossas necessidades básicas, mas estamos realmente consumindo aqueles alimentos necessários para a manutenção do nosso corpo? Aqueles que contém nutrientes verdadeiros?

Enfim, encontrar esse equilíbrio entre o desejo e o consumo é a solução para continuarmos vivendo em sociedade e, ao mesmo tempo, mantermos o controle da nossa mente e da nossa vida.

A sociedade sempre estará presente, nos impondo o seu modo de agir, nos transmitindo a noção de que tudo o que nos é oferecido é útil, mas, quem assumirá as consequências desse modo de vida comum somos nós.

A felicidade verdadeira aparece no momento em que percebemos que a sociedade não mais exerce esse poder de influência sobre nossos desejos. Que o consumo não é mais o nosso objetivo de vida. Ainda desejamos o que ela tem a nos oferecer, mas sob outro ponto de vista, o ponto de vista da utilidade, da necessidade, e não do consumo pelo consumo, ou da mera satisfação do desejo.

Quando praticamos esse exercício de conter os nossos desejos, gradualmente, esse poder exercido pela sociedade, outrora incontrolável, se torna mais suave e controlável e, concomitantemente, desenvolve-se um alívio, um sentimento de libertação e, posteriormente, conseguimos experimentar felicidade verdadeira, aquela proporcionada pelo abandono gradual do desejo.

Epílogo

A elaboração deste artigo foi fruto do desejo, o desejo em demonstrar que o budismo é uma mensagem de otimismo, o desejo de que as pessoas compreendam que elas buscam a felicidade onde não se pode encontrá-la. Buscam lá fora, em lugares distantes, mas esquecem de que já a possuem, internamente, adormecida transitoriamente, como a natureza de todas as coisas.

Chegará o dia em que deveremos abandoná-la também, mas, por enquanto, faz-se necessário despertá-la.

Notas

[1] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[2] Os suttas são os ensinamentos de extensão curta, média ou longa atribuídos ao Buda. Foram inicialmente transmitidos pela tradição oral e, posteriormente, escritos em páli, um antigo idioma da Índia.

[3] O conceito de deidades no budismo não está relacionado com a crença em deuses ou divindades. As deidades, na verdade, são personificações de virtudes ou ideais a serem atingidos por aqueles que pretendem alcançar a iluminação.

[4] Ver artigo: As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

[5] Esse trecho representa um elemento de estudo do budismo: “os desejos sensuais ou sensoriais”. Foi definido com tamanha precisão por Thanissaro Bhikkhu, que decidi manter o texto original. THANISSARO BHIKKHU. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 27. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[7] Não se pode avançar no caminho budista sem o desenvolvimento de virtudes, da mesma forma, não se pode obter melhores resultados na meditação se os estados mentais inábeis ainda forem cultivados. A generosidade é uma das dez perfeições, uma das dez qualidades que conduzem ao estado de um Buda. “PARAMI = PARAMITA: ‘Perfeição’. As 10 qualidades conduzindo à Budeidade: Perfeição em Dar (ou Liberalidade; dana-parami), (2) em Moralidade (sila-p.), (3) Renúncia (nekkhamma-p.), (4) Sabedoria (pañña-p.), (5) Energia (viriya-p.), (6) Paciência ou Tolerância/Suportar; (khanti-p.), (7) Fidedignidade (sacca-p.), (8) Resolução/Determinação (adhitthana-p.), (9) Bondade Amorosa (metta-p.), (10) Equanimidade (upekkha-p.).”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 136. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.