Vamos Falar Sobre o Carma?

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Introdução

Em algum momento de nossas vidas, pode ser que nos encontremos em uma situação que parece não ter saída, mas quando olhamos à nossa volta, vemos tanto sofrimento que podemos pensar: – “Até que a situação não é tão ruim assim.”. E seguimos em frente, ainda que continuemos com a sensação de vazio provocada por essa incapacidade de compreensão.

O budismo nos oferece uma importante ferramenta que pode nos auxiliar nesse processo de aceitação e entendimento: a Primeira Nobre Verdade, que é o sofrimento. De acordo com esse ensinamento, faz parte deste mundo a experiência de situações insatisfatórias, uma vez que não sabemos lidar com as mudanças e desejamos algo que não pode ser encontrado: a permanência. Desejamos que os momentos agradáveis permaneçam, desejamos nos manter sempre saudáveis física e mentalmente, desejamos continuar na companhia de nossos familiares queridos, desejamos a estabilidade profissional, desejamos que nossos bens não sejam ameaçados, etc.

O que podemos concluir sobre a Primeira Nobre Verdade, é que o sofrimento reside em nossa incapacidade de compreender o funcionamento da natureza, seu processo inevitável de transformação. Precisamos nos preparar para as mudanças e aceita-las, uma vez que elas ocorrerão, quer queiramos ou não, pois assim é o funcionamento de todo o universo, e a nossa vida não é diferente, também está sujeita aos fenômenos condicionados [1] e impermanentes.

Além desse suporte, o budismo também nos alerta para a importância de nossas ações, e é sob esse aspecto que podemos compreender melhor o funcionamento do kamma (páli), karma (sânscrito) ou carma.

Conceito

Muitas pessoas consideram que o carma é a má sorte, o destino insatisfatório, algo que elas devem carregar para o resto de suas vidas, mas não é esse o significado encontrado no budismo.

Carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

É um processo de ações segmentadas, também conhecido como Lei da Causalidade Moral [2], que é construído momento a momento e, dessa forma, pode ser utilizado para equilibrar ações passadas. Assim, não há motivo para se adotar uma postura desanimadora quando enfrentamos dificuldades, uma vez que existe a possibilidade de que o momento presente seja moldado por meio de ações empreendidas ainda nesta vida. Em outras palavras, nossa vida não está predeterminada pelo carma, apenas condicionada.

No Dicionário Budista, de Nyanatiloka, encontramos a seguinte explicação para o carma [3]:

KARMA: (Skr), Páli: kamma: ‘Ação’, corretamente falando denota as volições saudáveis e não-saudáveis (kusala e akusala-cetana) e seus fatores mentais concomitantes, causando renascimento e moldando o destino dos seres. Essas volições kármicas (kamma-cetana) se tornam manifestas como ações saudáveis ou não-saudáveis pelo corpo (kaya-kamma), fala (vaci-kamma) e mente (mano kamma). Assim, o termo budista Karma de modo nenhum significa o resultado das ações, e com certeza não o destino do homem, ou talvez até de todas as nações (o assim chamado karma global ou de massa), cujas concepções equivocadas se tornaram amplamente difundidas no Ocidente, através da influência da teosofia.

Ajahn Sumedho, em seu livro As Quatro Nobres Verdades, explica o carma da seguinte forma [4]:

Kamma – (em Sanscrito: karma) acção ou causa que é criada ou recriada pelos impulsos habituais, vontade própria ou energias naturais. Denota a vontade benéfica ou prejudicial que se manifesta com o corpo, linguagem e mente. Marcas ou impressões que ficam na nossa mente causando o renascimento e moldando o destino dos seres. Popularmente usado, muitas vezes inclui o sentido de resultado ou efeito da acção, embora o termo correcto para isto seja vipaka.

Outro exemplo de definição, é o encontrado no livro Todos Nós Assediados Pelo Envelhecimento, Morte e Nascimento, de Ayya Khema [5]:

Kamma: ação intencional. Denota a intenção ou volição (cetana) benéfica (kusala) ou prejudicial (akusala) e os seus fatores mentais concomitantes que causam o renascimento e moldam o destino dos seres. As intenções se manifestam como ações benéficas ou prejudiciais com o corpo, linguagem e a mente.

Carma saudável e não saudável

Já sabemos que o carma nada mais é do que a própria ação, mas, segundo o budismo, quais são essas ações saudáveis e não saudáveis?

São dez as ações ou carmas não saudáveis, opostos às dez ações ou carmas saudáveis, uma das muitas demonstrações de dualismo encontradas no budismo, e são classificadas em ações ou carmas do corpo, da fala e da mente.

As três ações ou carmas não saudáveis do corpo são: matar; roubar; e, ter conduta sexual imprópria [6]. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis do corpo são: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa.

As quatro ações ou carmas não saudáveis da fala [7] são: a linguagem mentirosa; a linguagem maliciosa; a linguagem grosseira; e, a linguagem frívola (fútil, inútil). Em contrapartida, as quatro ações ou carmas saudáveis da fala são: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma [8].

As três ações ou carmas não saudáveis da mente são: cobiça ou inveja; má vontade; e, entendimento incorreto. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis da mente são: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e, alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades, ou seja, desenvolver a sabedoria.

Evitando o entendimento incorreto

Compreender adequadamente o carma, significa também identificar quais são as formas de entendimento incorreto e afastá-las. Seguem algumas dúvidas esclarecidas sob a forma de perguntas e respostas:

Podemos concluir que carma e destino são a mesma coisa?

Não. O destino pode ser considerado como a consequência de ações ou carmas passados, e não o próprio carma. Devemos ter em mente que o destino é muitas vezes interpretado como algo inevitável, algo que ocorrerá em nossas vidas independentemente da nossa vontade, contudo, o funcionamento do carma não pode ser compreendido dessa forma, uma vez que está em constante formação e, portanto, mutável.

Tudo o que acontece nas nossas vidas é reflexo de nossas ações ou carmas passados?

Não. O carma é apenas um dos cinco processos que operam nas esferas do físico e do mental. Para responder a essa pergunta, recorremos ao livro Budismo Em Poucas Palavras, de Narada Mahathera [9]:

Segundo o Budismo, existem cinco ordens ou processos (Niyāmas) que operam nas esferas do físico e do mental:

1. Kamma Niyāma: Ordem de ato e consequência – por exemplo, atos desejáveis ou indesejáveis produzem os correspondentes bons ou maus resultados.
2.
Utu Niyāma: Ordem física (inorgânico) – por exemplo, fenómenos sazonais dos ventos e das chuvas.
3.
Bīja Niyāma: Ordem dos germes ou sementes (ordem orgânico-física) – por exemplo, o arroz produzido por sementes de arroz, o sabor doce da cana-de-açúcar ou mel, etc. A teoria científica das células e genes e a similaridade entre gémeos são exemplos desta ordem.
4.
Citta Niyāma: Ordem da mente ou lei psíquica – por exemplo, os processos de consciência (Citta Vīthi), poder da mente, etc.
5.
Dhamma Niyāma: Ordem da norma – por exemplo, os fenómenos naturais que ocorrem quando chega um Bodhisatta em seu último nascimento, gravidade, etc.

Todos os fenómenos mentais ou físicos poderão explicar-se por estas cinco ordens ou processos que abarcam tudo e que são leis em si mesmas.

O Kamma é, portanto, só uma das cinco ordens que prevalecem no universo. Trata-se de uma lei em si mesma, mas não se deve inferir que deve existir um legislador. As leis atuais da natureza, como a lei da gravidade, não necessitam de um legislador. Operam em seu próprio campo sem a intervenção de um agente governante independente.

Devemos aceitar passivamente o carma de vidas passadas?

Não. O funcionamento do carma é segmentado, não linear, o que significa que é construído momento a momento e, dessa forma, pode ser equilibrado com ações saudáveis do presente e seus efeitos podem ser percebidos ainda nesta vida. Portanto, não devemos adotar uma postura desanimadora quando enfrentamos problemas, uma vez que tais efeitos podem ser minimizados ou até mesmo superados. Aceitamos os efeitos do carma, no sentido de não nos revoltarmos, mas mantemos uma postura ativa, buscando agir de forma saudável para que os efeitos indesejados sejam enfraquecidos ao longo do tempo.

É correto o entendimento de que não devemos ajudar as pessoas que sofrem, uma vez que elas são merecedoras desse sofrimento devido às suas ações ou carmas passados?

Não. Acredito que entre os entendimentos incorretos sobre o funcionamento do carma, este seja o mais equivocado de todos. Não devemos, em hipótese alguma, julgar ou buscar explicações para o momento vivido por outras pessoas, pois nosso ego estará sempre equivocado nesse processo de valoração. Devemos lembrar, acima de tudo, que desejaríamos ajuda se estivéssemos em uma situação desfavorável. Então, se tivermos a oportunidade, devemos ajudar, mas de acordo com a nossa capacidade e até o limite em que a outra pessoa permite ser ajudada, pois, cada um tem o seu próprio momento.

Conclusão

Compreender o funcionamento do carma é importante para que possamos manter a calma quando passamos por um momento delicado de saúde, quando sofremos uma agressão, quando deixamos de atingir um objetivo almejado, enfim, quando a vida nos apresenta alguma situação que interfere em nossa tranquilidade, e ter consciência de que, assim como os momentos que nos trazem satisfação são passageiros, aqueles que nos trazem sofrimento também são. Não há porque nos desesperarmos ou nos revoltarmos, pois, agindo dessa forma, apenas iremos acumular mais carma não saudável e complicar ainda mais nosso futuro, seja nesta vida, seja na próxima.

Nessa caminhada, não necessitamos compreender exatamente quais serão os efeitos de nossas ações, sejam elas saudáveis ou não saudáveis, uma vez que o próprio Buda desaconselha que o discípulo utilize seu esforço nessa busca [10]. O importante é sabermos que as ações demoram um pouco a amadurecer e embora não percebamos os resultados inicialmente, em algum momento elas irão gerar frutos.

É certo que vivenciamos situações, até certo ponto, moldadas pelas ações ou carmas produzidos em vidas anteriores, mas podemos igualmente afirmar que esse processo, construído momento a momento, pode ser minimizado.

Nosso desafio é o de, pelo menos, evitar novas ações ou carmas não saudáveis e, dessa forma, reduzir a força do que já foi feito no passado. Contudo, nosso objetivo maior é o cultivo de ações e carmas saudáveis para que possamos, quem sabe, colher os frutos ainda nesta vida e fortalecer nossa caminhada para a próxima.

Mais do que uma busca pessoal, também podemos afirmar que é um exercício em benefício ao próximo. Imagine se todas as pessoas se empenhassem em cultivar hábitos saudáveis, se preocupassem em orientar suas vidas com integridade e honestidade. O mundo não seria melhor?

Há um trecho que sempre cito quando o tema do carma é abordado e que demonstra, com profunda sabedoria, que podemos pôr em prática nosso livre arbítrio, ainda que a nossa vida seja, até certo ponto, moldada pelas ações de vidas passadas. Para tanto, é feita uma comparação com o fluxo de um rio [11]:

Algumas vezes, o fluxo do passado é tão forte que pouco pode ser feito além de rapidamente sair da frente; mas também há momentos nos quais o fluxo é tão suave que pode ser desviado para quase toda direção.

Encerramos com os versos 119 e 120 do Dhammapada [12], para reflexão:

Tudo pode correr bem com aquele que faz o mal, enquanto o mal não amadurece. Mas quando o mal amadurece, o malfeitor vê (penosos resultados) as suas más acções.

Tudo pode correr mal com aquele que faz o bem, enquanto o bem não amadurece. Mas quando o bem amadurece, então o benfeitor vê (bons resultados) as suas boas acções.

Notas

[1] A ideia de fenômeno condicionado é aquela de que nada acontece por acaso. Quando existe uma situação propícia, um fenômeno surge, se transforma ao longo de seu período de existência, e depois desaparece. Nosso corpo talvez seja o maior exemplo de fenômeno condicionado.

[2] MAHATHERA, Narada. Budismo Em Poucas Palavras (ed. eletrônica). Tradução e edição de Ricardo J. C. Sousa, 2013. p. 41. Disponível no menu “Biblioteca”.

[3] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 88-89. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] SUMEDHO Ajahn. As Quatro Nobres Verdades (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2007. p. 63. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] KHEMA, Ayya. Todos Nós Assediados Pelo Envelhecimento, Morte e Nascimento (ed. eletrônica). Acesso ao Insight: Tradução de Michael Beisert. p. 54. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] A definição para comportamento sexual impróprio pode ser encontrada em alguns suttas. Segue o trecho explicativo do Sevitabbasevitabba Sutta, do Majjhima Nikaya. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 14 jul. 2017.
(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva. (…)

[7] No Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, encontramos uma perfeita explicação da linguagem incorreta, bem como da correta. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 14 jul. 2017.
(…) Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício. (…)

[8] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[9] MAHATHERA, Narada. Budismo Em Poucas Palavras (ed. eletrônica). Tradução e edição de Ricardo J. C. Sousa, 2013. p. 48-49. Disponível no menu “Biblioteca”.

[10] É o que o Buda nos diz no Acintita Sutta, do Anguttara Nikaya. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIV.77.php >. Acesso em 14 jul. 2017.

[11] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 12. Disponível no menu “Biblioteca”.

[12] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 50. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 19 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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Perguntas Certas, Respostas Necessárias

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Quando iniciamos a leitura de um livro e gostamos da experiência, queremos prosseguir até o último capítulo. Quando vemos um filme que nos agrada, queremos saber o desfecho da trama. Quando temos acesso a determinado conhecimento de nosso interesse, queremos mais e mais respostas.

O Buda, um ser humano extraordinário, tinha resposta para perguntas imagináveis e inimagináveis, não é à toa que era considerado o mestre dos homens e dos devas [1]. Muitas dessas respostas, adquiriu quando de sua perfeita iluminação [2], momento em que pôde investigar suas vidas anteriores, bem como pensamentos e ações passadas. Isso lhe permitiu analisar as consequências de determinado ato e o quanto fora determinante para moldar sua existência posterior, seja na Terra ou em algum dos outros mundos [3].

O tema de vidas passadas é recorrente no budismo. Existem alguns suttas incríveis que nos dão uma pequena amostra desse vastíssimo conhecimento do Buda, que ultrapassava a fronteira dos homens e do próprio planeta Terra.

No Mahapadana Sutta, do Digha Nikaya, o Buda fala de seus antecessores [4]:

Bhikkhus, noventa e um éons atrás, o Abençoado, um arahant, perfeitamente iluminado Buda Vipassi surgiu no mundo. Trinta e um éons atrás, o Buda Sikhi surgiu; nesse mesmo éon, o Buda Vessabhu surgiu. E neste presente éon afortunado, os Budas Kakusandha, Konagamana e Kassapa surgiram no mundo. E, bhikkhus, neste presente éon afortunado, eu surgi no mundo como um um (sic) arahant, perfeitamente iluminado.

Éon é uma medida de tempo e não há um consenso acerca de sua duração. Para determinada religião, corresponde à eternidade, contudo, em astronomia, já foi utilizado como escala de um bilhão de anos [5].

Mais à frente, no mesmo sutta, o Buda revela o tempo de vida de seus antecessores:

Na época do Buda Vipassi o tempo de vida era de oitenta mil anos; na época do Buda Sikhi setenta mil anos; na época do Buda Vessabhu sessenta mil; na época do Buda Kakusandhu quarenta mil; na época do Buda Konagamana trinta mil; na época do Buda Kassapa era de vinte mil anos. Na minha época o tempo de vida é curto, limitado e passageiro: é raro que alguém viva até os cem anos.

Não é fácil compreender um discurso que fala de noventa e um éons passados, período em que o planeta Terra sequer existia, uma vez que o marco inicial do nosso planeta ocorrera há aproximados 4,54 bilhões de anos atrás [6].

Em outro sutta, o Buda é ainda mais específico sobre o tema de vidas passadas ao abordar o kamma – carma [7] e traçar um paralelo entre a conduta praticada e a sua consequência em um retorno posterior [8]:

Os seres são possuidores e herdeiros de suas ações … as ações dividem os seres em superiores e inferiores.
Existe aquele, mulher ou homem, que destrói seres humanos, é cruel, dedicado a machucar e a matar, sem amor pelas coisas vivas. Através de tais ações, realizadas ou por realizar, essa pessoa, na dissolução do seu corpo na morte, irá cair em um estado inferior de existência, num curso de vida maléfico, na perdição ou inferno… ou se renascer como um ser humano, ele terá, não importa onde, uma vida curta.
E ele se move sorrateiramente em suas ações de corpo, fala e pensamento. Sorrateiros são seus trabalhos, palavras e pensamentos, sorrateiros seus caminhos e posses. Mas eu digo a vocês, monges, qualquer um que persegue caminhos e objetos sorrateiros, terá que esperar dois desses resultados: se atormentar no inferno ou nascer entre os animais que se arrastam.
Existe aquele que tem o hábito de causar dor a outros através dos punhos, pedra, pau ou espada. Através de tais ações irá cair num estado inferior… ou se, renascendo como ser humano, ele terá, onde quer que esteja, muitas doenças.
Existe aquele que tem um temperamento esquentado, rapidamente entra na raiva; à menor coisa que lhe é dita ele fica enfurecido, é bravo, teimoso, mostra excitamento, ódio e suspeita. Através de tais ações irá cair num estado inferior … ou se nascer entre os seres humanos terá uma aparência feia.
Existe aquele que é invejoso, cheio de ciúmes e animosidade. Sente inveja do que os outros recebem como presentes, hospitalidade, honra, veneração, respeito salutar, e oferendas. Através de tais ações ou pensamentos ele irá cair num estado inferior… ou, se nascer como um ser humano ele irá, onde quer que seja, possuir somente pouca influência.
Existe aquele que é arrogante e cheio de vaidade. Ele não saúda quem deveria, nem se levanta para quem deveria, nem respeita ou honra os que são devidos, nem dá presentes para os que deveriam receber presentes. Através de tais ações e pensamentos irá cair num estado inferior … ou se renascer como ser humano, ele irá, onde quer que seja, nascer num berço inferior.

Tanto esse último discurso, como aquele primeiro, em que o Buda fala de seus antecessores, são direcionados aos Bhikkhus, monges budistas, que, obviamente, estão mais preparados para compreender os ensinamentos. Ainda assim, esse último, é de fácil compreensão até mesmo para os praticantes budistas leigos, uma vez que contém mera relação de causa e efeito. Contudo, o mesmo não pode ser dito do primeiro discurso, que pode suscitar mais dúvidas do que esclarecimentos.

É importante que conheçamos nossa limitação de entendimento ao buscarmos explicações para todas as nossas dúvidas. O que faremos com a resposta se a obtivermos? Será útil para nossa prática e crescimento pessoal ou nos deixará com ainda mais dúvidas? Nos trará tranquilidade ou fomentará inquietação por não estarmos preparados para compreendê-la?

Para o Buda, existiam quatro tipos de perguntas [9]: aquela que merece uma resposta categórica, direta ao ponto; aquela que merece uma resposta analítica, construída cuidadosamente, com atenção a todos os pontos importantes; aquela que merece uma contra pergunta; e, aquela que merece ser deixada de lado.

Quanto a essa última, o critério utilizado pelo Buda era o de utilidade: qual benefício traria para a prática do discípulo a resposta a determinada pergunta?

Se considerarmos apenas as perguntas que merecem ser respondidas, de acordo com o critério do Buda, ainda assim, podemos nos surpreender com a resposta, por não ser aquilo que esperamos ouvir. Então, também existe o momento adequado para se responder a uma pergunta cuja resposta possa ser desagradável, embora verdadeira e benéfica ao ouvinte.

O Abhaya Sutta, do Majjhima Nikaya trata exatamente desse tema, conforme introdução de Thanissaro Bhikkhu, que resume o teor do ensinamento [10]:

Neste discurso, o Buda mostra os fatores que decidem o que deve ser dito e o que não deve ser dito. Os principais fatores são três: se uma afirmação é verdadeira ou não, se é benéfica ou não e, se é agradável para os outros ou não. O próprio Buda afirmaria somente aquelas coisas que são verdadeiras e benéficas, e tinha uma noção do momento em que coisas agradáveis e desagradáveis deviam ser ditas.

Os temas “vida passada”, “kamma – carma” e “renascimento”, citados em diversos ensinamentos do Buda, são interdependentes e despertam muito interesse do praticante. No entanto, esse interesse pode ser útil para a nossa prática diária, na medida em que compreendemos seu funcionamento e passamos a agir orientando nossa conduta, mas também pode nos levar a questionamentos do tipo “de onde viemos?”, “para onde vamos?”, que são irrelevantes para a nossa caminhada.

O que está feito, está feito, não pode ser modificado, mas podemos equilibrar as nossas ações prejudiciais passadas com as nossas ações benéficas do presente, e, assim, diminuir os efeitos provocados pelo kamma. Dessa forma, não precisamos nos preocupar com o passado ou com o futuro, basta concentramos no presente momento e vive-lo da forma mais íntegra possível. É o suficiente.

Também, não devemos fomentar uma postura desanimadora ao compreendermos que determinadas situações que enfrentamos são consequências de ações passadas, uma vez que podemos colher os frutos de nossas ações benéficas ainda nesta vida. Há uma passagem que ilustra com profunda sabedoria o funcionamento da lei do kamma [11]:

Os budistas, no entanto, viram que o karma funciona em circuitos múltiplos de feedback, de forma que o momento presente é moldado, tanto por ações do passado, como do próprio presente. Além disso, as ações do presente não são necessariamente determinadas por ações do passado. Em outras palavras, o livre arbítrio existe, ainda que seu alcance seja, até certo ponto, ditado pelo passado. A natureza dessa liberdade é simbolizada por uma imagem usada por esses budistas dos primórdios: água corrente. Algumas vezes, o fluxo do passado é tão forte que pouco pode ser feito além de rapidamente sair da frente; mas também há momentos nos quais o fluxo é tão suave que pode ser desviado para quase toda direção.

Por fim, o próprio Buda define alguns temas que se objetos de suposições, presunções e deduções constantes, podem conduzir à loucura [12]:

Existem esses quatro não conjecturáveis em relação aos quais não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito. Quais quatro?
A extensão búdica dos Budas [ isto é a extensão dos poderes desenvolvidos por um Buda como resultado de tornar-se um Buda] é um não conjecturável sobre o qual não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.
A extensão dos jhanas para uma pessoa que está em jhana [ isto é, a extensão dos poderes que podem ser obtidos enquanto se está absorto em jhana]….
[A maneira precisa como se desenvolvem] os resultados do kamma…
Conjectura acerca [ da origem, etc..] do mundo é um não conjecturável sobre o qual não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.
Esses são os quatro não conjecturáveis em relação aos quais não se devem fazer conjecturas, porque trará loucura e tormento a quem conjecturar a seu respeito.

Que possamos formular as perguntas certas e obter as respostas necessárias, ao alcance de nossa compreensão e em benefício de nossa prática.

[1] “DEVA: (literalmente: Os Radiantes, relativo ao Lat. deus), Seres Celestiais, deidades, celestiais: são seres que moram nos mundos felizes, e que, como regra, são invisíveis aos olhos humanos. Eles estão sujeitos, entretanto, como todos os humanos e outros seres, a repetirem o renascimento, velhice a morte, e, portanto, não estão livres do círculo da existência, e não estão livres da miséria/infelicidade/desventura. Há muitas classes de seres celestiais.“. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 57. Disponível no menu “Biblioteca”. Existem inúmeros suttas em que o Buda é anunciado como “mestre de devas e humanos”. Seguem apenas alguns poucos exemplos: Samanaphala Sutta, do Digha Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN2.php >; Vatthupama Sutta, do Majjhima Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN7.php >; e, Dhajagga Sutta, do Samyutta Nikaya < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXI.3.php >. Fonte: Acesso ao Insight. Acesso em 17 jun.

[2] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[3] Segundo o budismo, existem diversos mundos de existência. Quatro desses são chamados de mundos inferiores – apaya – e compreendem o inferno, o mundo dos demônios, o mundo dos animais e o mundo dos fantasmas famintos. Também temos o mundo dos humanos e diversos outros mundos superiores com criaturas celestiais em diferentes níveis. É importante ressaltar que a noção de inferno do budismo é diferente daquela apresentada em outras crenças, onde é considerado um castigo eterno para aqueles seres que desviaram do caminho correto. Para o budismo não há permanência eterna em qualquer dos mundos e o inferno é uma forma temporária de equilíbrio do kamma ou carma, que é o produto de nossos pensamentos e de nossas ações, e que determina onde e como renasceremos.

[4] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN14.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[5] Fonte: Wikipedia, The Free Encyclopedia – Aeon. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Aeon >. Acesso em 17 jun. 2017.

[6] Fonte: Wikipedia, The Free Encyclopedia – History of Earth. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Earth#Origin >. Acesso em 17 jun. 2017.

[7] Kamma ou carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[8] RAHULA, Bhante Yogavacara. Cap. III, Karma e Renascimento (ed. eletrônica). p. 12-13. Tradução do livro The Way to Peace and Hapiness. Sri Lanka: Buddhist Cultural Centre, 1997. O sutta citado por Bhante Yogavacara Rahula é o XII, 18, do Samyutta Nikaya, contudo, como não encontrei a tradução para o português, utilizei como referência o próprio livro do autor.

[9] Interpretação a partir do sutta. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIII.67.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[10] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN58.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

[11] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 11-12. Disponível no menu “Biblioteca”.

[12] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIV.77.php >. Acesso em 17 jun. 2017.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

A Meditação e o Mosquito: O Que Aprendi Sobre Concentração e Virtude

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Era uma das minhas primeiras práticas de meditação. Cheguei por volta de 7h no escritório, bebi uma xícara de chá verde, comi um pão e preparei-me para a prática. Como faço sempre, reafirmo o refúgio na Joia Tríplice; o Buda, o Dhamma e a Sangha, e então inicio a meditação.

Nessa época, já conhecia o básico dos ensinamentos do Buda, como as Três Características da Existência (anicca – impermanência, dukkha – sofrimento e anatta – não-eu), as Quatro Nobres Verdades (o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho para a cessação do sofrimento) e os Cinco Preceitos (não matar seres vivos; não tomar aquilo que não foi dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência).

No que diz respeito aos Cinco Preceitos, mais precisamente o primeiro, não matar seres vivos, já havia compreendido que não se tratava apenas de outros seres humanos, mas de todas as criaturas que compartilham da nossa existência no samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1].

Ao dirigir-me para o local de meditação, vi aquele que seria a causa do descumprimento do primeiro preceito, o mosquito. Notei aquele minúsculo ser, que contrastava com o fundo branco da parede, e logo imaginei que eu seria o seu café da manhã, assim como o chá verde e o pão foram o meu, uma vez que eu permaneceria imóvel pelos próximos quarenta e cinco minutos.

Naquele momento, nem me passou pela cabeça tentar capturá-lo e libertá-lo na janela para que seguisse seu rumo, o sentimento que eu tive, lamentavelmente, foi o de soberba. Internamente, o ego [2] se manifestou da seguinte forma: “Quem essa criatura pensa que é para interferir na minha sessão de meditação?”. E então, com um maço de papel, apliquei-lhe um golpe e a pobre criatura permaneceu estática no chão. Naquele momento, ainda me foi concedida a oportunidade de redenção, pois o mosquito não estava morto, apenas atordoado, e eu poderia tê-lo recolhido e jogado-o pela janela. Nesse caso, haveria uma grande chance de sobrevivência para ele, mas o desfecho foi ainda mais cruel, recolhi a pequena criatura, e, com ódio, joguei-o no vaso sanitário e permaneci olhando para ter certeza de que ele desceria com a água e não mais retornaria.

Então, com aparente satisfação pelo “dever cumprido” e indiferença pela vida de outro ser, sentei-me para a meditação. Contudo, aquela prática foi uma das piores que já experimentei, se não a pior. Logo após os minutos iniciais, os quais chamo de período de adaptação ao silêncio, quando a consciência interior, aquela independente do ego, começa a se tornar um pouco mais presente, pude perceber a gravidade do ato. Matar intencionalmente um inseto, por si só, já é um ato lamentável, mas quando você o faz com ódio, o resultado é ainda pior.

O que era para ser uma meditação de quarenta e cinco minutos, foi abreviada para alguns poucos minutos, devido à agitação mental provocada pelo ato impensado.

Nunca fui uma pessoa cruel com os outros seres vivos de uma maneira geral, mas sempre existiram alguns que faziam parte da minha “lista negra” e um deles era o mosquito. Quanto a esses, considerados pelo ego como menos dignos em relação aos demais, não havia espaço para compaixão.

Contudo, como a vida é um eterno aprendizado, ao esforçar-me para melhor compreender a Primeira Nobre Verdade do budismo, o sofrimento, percebi que, pelo simples fato de termos nascidos neste mundo, estamos sujeitos a situações desagradáveis, e, a investida de um mosquito, é apenas uma insignificante amostra do que isso representa.

O mosquito não está entre as causas do sofrimento, assim como nenhum dos outros fatores externos, a causa está dentro de nós, no ego, que sempre busca atribuir valoração a fenômenos impessoais e impermanentes.

Veja bem, não estou fazendo apologia à dengue, à zika, à chicungunha e, tampouco, à febre amarela, uma vez que não considero conflitante com o budismo o ato da conscientização e prevenção da proliferação dos mosquitos, cuidando para que não haja acúmulo de água parada. Também, não é necessário permitir que o mosquito se alimente do nosso sangue, pois existem repelentes.

Não parece existir mérito em desejar o bem apenas para aquelas pessoas próximas: parentes e amigos. Da mesma forma, não faz muita diferença cuidar apenas daqueles animais considerados “fofinhos”: cães e gatos. A virtude está na igualdade, tratar a todos da melhor forma, desejar a todos a melhor sorte.

Esse fato aconteceu realmente e foi narrado com o intuito de utilizá-lo como objeto de reflexão para uma relação de interdependência no budismo: o avanço na prática da meditação e o desenvolvimento de virtudes.

Se o ato praticado contra um mosquito foi suficiente para perturbar o resultado de uma prática meditativa, o que faria uma ação prejudicial a outro ser humano?

Qualquer pessoa pode beneficiar-se dos efeitos da meditação, basta que reserve um período do dia, sem interrupções, sente-se confortavelmente, concentre-se na respiração e, em pouco tempo, perceberá uma redução do estresse. Contudo, para o budista, a meditação é apenas um dos elementos da prática. Esse ponto, a meu ver, é o que diferencia a meditação budista das outras formas de meditação da moda.

O caminho budista está fundamentado em três pilares [3]: sila – moralidade (ou virtude); samadhi – concentração; e, pañña – sabedoria, nessa ordem. Portanto, a sabedoria (pañña) só é alcançada pela prática continuada da meditação (samadhi), que, por sua vez, não se desenvolve se não houver um comprometimento do praticante em abandonar as ações não saudáveis e cultivar as ações saudáveis (sila).

Mas o que são as ações saudáveis e não saudáveis? Para responder a essa pergunta é preciso adentrar em um outro elemento de estudo do budismo, o kamma – carma.

Kamma – carma, para o budismo, é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores. Esse é um dos temas mais interessantes do budismo e será objeto de um artigo próprio, em breve. Por enquanto, é suficiente saber quais são as ações ou carmas saudáveis e não saudáveis.

São dez as ações ou carmas não saudáveis, opostos às dez ações ou carmas saudáveis, uma das muitas demonstrações de dualismo encontradas no budismo, e são classificadas em ações ou carmas do corpo, da fala e da mente.

As três ações ou carmas não saudáveis do corpo são: matar; roubar; e, ter conduta sexual imprópria [4]. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis do corpo são: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa.

As quatro ações ou carmas não saudáveis da fala [5] são: a linguagem mentirosa; a linguagem maliciosa; a linguagem grosseira; e, a linguagem frívola (fútil, inútil). Em contrapartida, as quatro ações ou carmas saudáveis da fala são: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma [6].

As três ações ou carmas não saudáveis da mente são: cobiça ou inveja; má vontade; e, entendimento incorreto. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis da mente são: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades.

Assim, o cultivo das ações ou carmas saudáveis é importante para equilibrar as ações ou carmas não saudáveis desta vida e anteriores, bem como para servir de suporte para o aumento da concentração na meditação, uma vez que os estados mentais inábeis são causas frequentes de interferências na prática e o desvio de pensamentos, dificultando consideravelmente o avanço no caminho budista.

Adicionalmente, temos no budismo a lista das dez perfeições – parami [7], um conjunto de virtudes que conduzem a pessoa ao estado de um Buda, as quais podemos, na medida das nossas limitações, tentar coloca-las em prática, quais sejam [8]:

Dana – generosidade; sila – moralidade; nekkhamma – renúncia; pañña – sabedoria; viriya – energia; khanti – tolerância; sacca – fidedignidade; adhittana – determinação; metta – amorisidade; upekkha – equanimidade.

É importante pesquisar e estudar para entender qual o significado de cada uma dessas virtudes, uma vez que, dificilmente, uma única palavra de nosso idioma moderno é suficiente para exprimir todo o sentido do vocábulo em páli [9].

É a tarefa de casa para todos nós.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] O “eu” ou “ego”, nada mais é do que um fenômeno condicionado, estimulado desde o nosso nascimento para reagir às situações do cotidiano e que, devido à sua natureza impermanente, em determinado momento deixará de existir.

[3] O Nobre Caminho Óctuplo representa, na verdade, o desenvolvimentos desses três pilares. Sila – moralidade (ou virtude): palavra correta; ação correta; e, modo de vida correto. Samadhi – concentração: esforço correto; atenção plena correta; e, concentração correta. Pañña – sabedoria: entendimento correto; e, pensamento correto.

[4] A definição para comportamento sexual impróprio pode ser encontrada em alguns suttas. Segue o trecho explicativo do Sevitabbasevitabba Sutta, do Majjhima Nikaya. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 2 jun. 2017.
(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva.
(…)

[5] No Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, encontramos uma perfeita explicação da linguagem incorreta, bem como da correta. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 2 jun. 2017.
(…)
Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício.
(…)

[6] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[7] Prevalece no budismo o entendimento de que o conceito de dez perfeições – parami não pode ser encontrado nos ensinamentos originais atribuídos ao Buda, tendo sido, portanto, uma contribuição posterior.

[8] Resumo do parágrafo encontrado em: MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 137. Disponível no menu “Biblioteca”.

[9] Páli é uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Um único vocábulo em páli pode ter vários significados em uma linguagem moderna, o que torna a tradução uma tarefa difícil. É comum nos depararmos com textos budistas que já foram objeto de até três traduções: do páli para o tailandês, do tailandês para o inglês e do inglês para o português.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.