Vamos Falar Sobre o Carma?

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Introdução

Em algum momento de nossas vidas, pode ser que nos encontremos em uma situação que parece não ter saída, mas quando olhamos à nossa volta, vemos tanto sofrimento que podemos pensar: – “Até que a situação não é tão ruim assim.”. E seguimos em frente, ainda que continuemos com a sensação de vazio provocada por essa incapacidade de compreensão.

O budismo nos oferece uma importante ferramenta que pode nos auxiliar nesse processo de aceitação e entendimento: a Primeira Nobre Verdade, que é o sofrimento. De acordo com esse ensinamento, faz parte deste mundo a experiência de situações insatisfatórias, uma vez que não sabemos lidar com as mudanças e desejamos algo que não pode ser encontrado: a permanência. Desejamos que os momentos agradáveis permaneçam, desejamos nos manter sempre saudáveis física e mentalmente, desejamos continuar na companhia de nossos familiares queridos, desejamos a estabilidade profissional, desejamos que nossos bens não sejam ameaçados, etc.

O que podemos concluir sobre a Primeira Nobre Verdade, é que o sofrimento reside em nossa incapacidade de compreender o funcionamento da natureza, seu processo inevitável de transformação. Precisamos nos preparar para as mudanças e aceita-las, uma vez que elas ocorrerão, quer queiramos ou não, pois assim é o funcionamento de todo o universo, e a nossa vida não é diferente, também está sujeita aos fenômenos condicionados [1] e impermanentes.

Além desse suporte, o budismo também nos alerta para a importância de nossas ações, e é sob esse aspecto que podemos compreender melhor o funcionamento do kamma (páli), karma (sânscrito) ou carma.

Conceito

Muitas pessoas consideram que o carma é a má sorte, o destino insatisfatório, algo que elas devem carregar para o resto de suas vidas, mas não é esse o significado encontrado no budismo.

Carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

É um processo de ações segmentadas, também conhecido como Lei da Causalidade Moral [2], que é construído momento a momento e, dessa forma, pode ser utilizado para equilibrar ações passadas. Assim, não há motivo para se adotar uma postura desanimadora quando enfrentamos dificuldades, uma vez que existe a possibilidade de que o momento presente seja moldado por meio de ações empreendidas ainda nesta vida. Em outras palavras, nossa vida não está predeterminada pelo carma, apenas condicionada.

No Dicionário Budista, de Nyanatiloka, encontramos a seguinte explicação para o carma [3]:

KARMA: (Skr), Páli: kamma: ‘Ação’, corretamente falando denota as volições saudáveis e não-saudáveis (kusala e akusala-cetana) e seus fatores mentais concomitantes, causando renascimento e moldando o destino dos seres. Essas volições kármicas (kamma-cetana) se tornam manifestas como ações saudáveis ou não-saudáveis pelo corpo (kaya-kamma), fala (vaci-kamma) e mente (mano kamma). Assim, o termo budista Karma de modo nenhum significa o resultado das ações, e com certeza não o destino do homem, ou talvez até de todas as nações (o assim chamado karma global ou de massa), cujas concepções equivocadas se tornaram amplamente difundidas no Ocidente, através da influência da teosofia.

Ajahn Sumedho, em seu livro As Quatro Nobres Verdades, explica o carma da seguinte forma [4]:

Kamma – (em Sanscrito: karma) acção ou causa que é criada ou recriada pelos impulsos habituais, vontade própria ou energias naturais. Denota a vontade benéfica ou prejudicial que se manifesta com o corpo, linguagem e mente. Marcas ou impressões que ficam na nossa mente causando o renascimento e moldando o destino dos seres. Popularmente usado, muitas vezes inclui o sentido de resultado ou efeito da acção, embora o termo correcto para isto seja vipaka.

Outro exemplo de definição, é o encontrado no livro Todos Nós Assediados Pelo Envelhecimento, Morte e Nascimento, de Ayya Khema [5]:

Kamma: ação intencional. Denota a intenção ou volição (cetana) benéfica (kusala) ou prejudicial (akusala) e os seus fatores mentais concomitantes que causam o renascimento e moldam o destino dos seres. As intenções se manifestam como ações benéficas ou prejudiciais com o corpo, linguagem e a mente.

Carma saudável e não saudável

Já sabemos que o carma nada mais é do que a própria ação, mas, segundo o budismo, quais são essas ações saudáveis e não saudáveis?

São dez as ações ou carmas não saudáveis, opostos às dez ações ou carmas saudáveis, uma das muitas demonstrações de dualismo encontradas no budismo, e são classificadas em ações ou carmas do corpo, da fala e da mente.

As três ações ou carmas não saudáveis do corpo são: matar; roubar; e, ter conduta sexual imprópria [6]. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis do corpo são: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa.

As quatro ações ou carmas não saudáveis da fala [7] são: a linguagem mentirosa; a linguagem maliciosa; a linguagem grosseira; e, a linguagem frívola (fútil, inútil). Em contrapartida, as quatro ações ou carmas saudáveis da fala são: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma [8].

As três ações ou carmas não saudáveis da mente são: cobiça ou inveja; má vontade; e, entendimento incorreto. Em contrapartida, as três ações ou carmas saudáveis da mente são: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e, alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades, ou seja, desenvolver a sabedoria.

Evitando o entendimento incorreto

Compreender adequadamente o carma, significa também identificar quais são as formas de entendimento incorreto e afastá-las. Seguem algumas dúvidas esclarecidas sob a forma de perguntas e respostas:

Podemos concluir que carma e destino são a mesma coisa?

Não. O destino pode ser considerado como a consequência de ações ou carmas passados, e não o próprio carma. Devemos ter em mente que o destino é muitas vezes interpretado como algo inevitável, algo que ocorrerá em nossas vidas independentemente da nossa vontade, contudo, o funcionamento do carma não pode ser compreendido dessa forma, uma vez que está em constante formação e, portanto, mutável.

Tudo o que acontece nas nossas vidas é reflexo de nossas ações ou carmas passados?

Não. O carma é apenas um dos cinco processos que operam nas esferas do físico e do mental. Para responder a essa pergunta, recorremos ao livro Budismo Em Poucas Palavras, de Narada Mahathera [9]:

Segundo o Budismo, existem cinco ordens ou processos (Niyāmas) que operam nas esferas do físico e do mental:

1. Kamma Niyāma: Ordem de ato e consequência – por exemplo, atos desejáveis ou indesejáveis produzem os correspondentes bons ou maus resultados.
2.
Utu Niyāma: Ordem física (inorgânico) – por exemplo, fenómenos sazonais dos ventos e das chuvas.
3.
Bīja Niyāma: Ordem dos germes ou sementes (ordem orgânico-física) – por exemplo, o arroz produzido por sementes de arroz, o sabor doce da cana-de-açúcar ou mel, etc. A teoria científica das células e genes e a similaridade entre gémeos são exemplos desta ordem.
4.
Citta Niyāma: Ordem da mente ou lei psíquica – por exemplo, os processos de consciência (Citta Vīthi), poder da mente, etc.
5.
Dhamma Niyāma: Ordem da norma – por exemplo, os fenómenos naturais que ocorrem quando chega um Bodhisatta em seu último nascimento, gravidade, etc.

Todos os fenómenos mentais ou físicos poderão explicar-se por estas cinco ordens ou processos que abarcam tudo e que são leis em si mesmas.

O Kamma é, portanto, só uma das cinco ordens que prevalecem no universo. Trata-se de uma lei em si mesma, mas não se deve inferir que deve existir um legislador. As leis atuais da natureza, como a lei da gravidade, não necessitam de um legislador. Operam em seu próprio campo sem a intervenção de um agente governante independente.

Devemos aceitar passivamente o carma de vidas passadas?

Não. O funcionamento do carma é segmentado, não linear, o que significa que é construído momento a momento e, dessa forma, pode ser equilibrado com ações saudáveis do presente e seus efeitos podem ser percebidos ainda nesta vida. Portanto, não devemos adotar uma postura desanimadora quando enfrentamos problemas, uma vez que tais efeitos podem ser minimizados ou até mesmo superados. Aceitamos os efeitos do carma, no sentido de não nos revoltarmos, mas mantemos uma postura ativa, buscando agir de forma saudável para que os efeitos indesejados sejam enfraquecidos ao longo do tempo.

É correto o entendimento de que não devemos ajudar as pessoas que sofrem, uma vez que elas são merecedoras desse sofrimento devido às suas ações ou carmas passados?

Não. Acredito que entre os entendimentos incorretos sobre o funcionamento do carma, este seja o mais equivocado de todos. Não devemos, em hipótese alguma, julgar ou buscar explicações para o momento vivido por outras pessoas, pois nosso ego estará sempre equivocado nesse processo de valoração. Devemos lembrar, acima de tudo, que desejaríamos ajuda se estivéssemos em uma situação desfavorável. Então, se tivermos a oportunidade, devemos ajudar, mas de acordo com a nossa capacidade e até o limite em que a outra pessoa permite ser ajudada, pois, cada um tem o seu próprio momento.

Conclusão

Compreender o funcionamento do carma é importante para que possamos manter a calma quando passamos por um momento delicado de saúde, quando sofremos uma agressão, quando deixamos de atingir um objetivo almejado, enfim, quando a vida nos apresenta alguma situação que interfere em nossa tranquilidade, e ter consciência de que, assim como os momentos que nos trazem satisfação são passageiros, aqueles que nos trazem sofrimento também são. Não há porque nos desesperarmos ou nos revoltarmos, pois, agindo dessa forma, apenas iremos acumular mais carma não saudável e complicar ainda mais nosso futuro, seja nesta vida, seja na próxima.

Nessa caminhada, não necessitamos compreender exatamente quais serão os efeitos de nossas ações, sejam elas saudáveis ou não saudáveis, uma vez que o próprio Buda desaconselha que o discípulo utilize seu esforço nessa busca [10]. O importante é sabermos que as ações demoram um pouco a amadurecer e embora não percebamos os resultados inicialmente, em algum momento elas irão gerar frutos.

É certo que vivenciamos situações, até certo ponto, moldadas pelas ações ou carmas produzidos em vidas anteriores, mas podemos igualmente afirmar que esse processo, construído momento a momento, pode ser minimizado.

Nosso desafio é o de, pelo menos, evitar novas ações ou carmas não saudáveis e, dessa forma, reduzir a força do que já foi feito no passado. Contudo, nosso objetivo maior é o cultivo de ações e carmas saudáveis para que possamos, quem sabe, colher os frutos ainda nesta vida e fortalecer nossa caminhada para a próxima.

Mais do que uma busca pessoal, também podemos afirmar que é um exercício em benefício ao próximo. Imagine se todas as pessoas se empenhassem em cultivar hábitos saudáveis, se preocupassem em orientar suas vidas com integridade e honestidade. O mundo não seria melhor?

Há um trecho que sempre cito quando o tema do carma é abordado e que demonstra, com profunda sabedoria, que podemos pôr em prática nosso livre arbítrio, ainda que a nossa vida seja, até certo ponto, moldada pelas ações de vidas passadas. Para tanto, é feita uma comparação com o fluxo de um rio [11]:

Algumas vezes, o fluxo do passado é tão forte que pouco pode ser feito além de rapidamente sair da frente; mas também há momentos nos quais o fluxo é tão suave que pode ser desviado para quase toda direção.

Encerramos com os versos 119 e 120 do Dhammapada [12], para reflexão:

Tudo pode correr bem com aquele que faz o mal, enquanto o mal não amadurece. Mas quando o mal amadurece, o malfeitor vê (penosos resultados) as suas más acções.

Tudo pode correr mal com aquele que faz o bem, enquanto o bem não amadurece. Mas quando o bem amadurece, então o benfeitor vê (bons resultados) as suas boas acções.

Notas

[1] A ideia de fenômeno condicionado é aquela de que nada acontece por acaso. Quando existe uma situação propícia, um fenômeno surge, se transforma ao longo de seu período de existência, e depois desaparece. Nosso corpo talvez seja o maior exemplo de fenômeno condicionado.

[2] MAHATHERA, Narada. Budismo Em Poucas Palavras (ed. eletrônica). Tradução e edição de Ricardo J. C. Sousa, 2013. p. 41. Disponível no menu “Biblioteca”.

[3] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 88-89. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] SUMEDHO Ajahn. As Quatro Nobres Verdades (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2007. p. 63. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] KHEMA, Ayya. Todos Nós Assediados Pelo Envelhecimento, Morte e Nascimento (ed. eletrônica). Acesso ao Insight: Tradução de Michael Beisert. p. 54. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] A definição para comportamento sexual impróprio pode ser encontrada em alguns suttas. Segue o trecho explicativo do Sevitabbasevitabba Sutta, do Majjhima Nikaya. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 14 jul. 2017.
(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva. (…)

[7] No Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, encontramos uma perfeita explicação da linguagem incorreta, bem como da correta. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 14 jul. 2017.
(…) Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício. (…)

[8] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[9] MAHATHERA, Narada. Budismo Em Poucas Palavras (ed. eletrônica). Tradução e edição de Ricardo J. C. Sousa, 2013. p. 48-49. Disponível no menu “Biblioteca”.

[10] É o que o Buda nos diz no Acintita Sutta, do Anguttara Nikaya. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIV.77.php >. Acesso em 14 jul. 2017.

[11] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 12. Disponível no menu “Biblioteca”.

[12] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 50. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 19 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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