As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

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Introdução

Nos textos budistas da tradição Theravada é comum encontrar expressões do idioma páli, uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Assim, os termos anicca, dukkha e anatta são frequentemente traduzidos como: impermanência, sofrimento e não-eu. Contudo, também é possível encontrar a seguinte tradução para esses vocábulos: transitoriedade, insatisfatoriedade e impessoalidade, respectivamente. Essa última, por sinal, se não for a mais precisa, é a que proporciona melhor entendimento.

Essas características estão presentes em todos os fenômenos da natureza, sejam aqueles considerados externos, sejam aqueles que fazem parte do nosso próprio corpo, física ou mentalmente.

Apenas a título de exemplo, quando visualizamos determinada forma que nos desperta desejo, como uma roupa, aquele objeto, por si só, é transitório, insatisfatório e impessoal. Da mesma forma, os olhos e a construção mental que alimentam esse desejo, a vontade de ter o objeto, também são transitórios, insatisfatórios e impessoais.

O interessante é que essas três características estão interligadas, e compreender uma delas, qualquer que seja, significa facilitar o entendimento das demais.

1. Anicca (impermanência ou transitoriedade)

A impermanência, anicca, é um fenômeno presente em todo o universo. Tudo tem uma origem, se transforma e, por fim, desaparece. Percebemos essa natureza transitória em todas as coisas, seja em algo considerado belo que sofre ação do tempo, seja em um som que ouvimos e logo cessa, seja em um aroma identificado que logo se dissolve no ar ou seja em um sabor apreciado que logo é saciado. Com o corpo, não é diferente: nascemos, crescemos, experimentamos sensações corporais agradáveis e desagradáveis – que também surgem e cessam –, envelhecemos, e, inevitavelmente, morreremos.

Nesse sentido, encontramos o seguinte trecho no Dicionário Budista, de Nyanatiloka [1]:

Impermanência das coisas é o surgimento, o desaparecimento e mudança das coisas, ou o desaparecimento das coisas que vieram a aparecer. O significado é que essas coisas nunca persistem da mesma forma, mas que elas estão desaparecendo e se dissolvendo momento a momento.
A impermanência é o aspecto encontrado em todos os fenômenos, seja material ou mental, grosseiro ou sutil, interno ou externo: “Todas as formações são impermanentes”. (…)

Ajahn Sumedho, por sua vez, destaca a observação da impermanência nas percepções mentais [2]:

(…) E o que podemos observar acerca de ‘como as coisas são’ é que toda a experiência sensorial é impermanente. Tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e tocamos; todas as condições mentais – os nossos sentimentos, memórias e pensamentos – são condições mentais em constante mudança, as quais surgem e cessam. (…)

A impermanência não é uma criação do budismo, é uma realidade inerente a todas as coisas, que pode ser percebida por qualquer pessoa, e assim, servir de importante ferramenta para a diminuição do desejo.

Por que desejar aquilo que é transitório, precário? Não parece, em um primeiro momento, uma escolha muito sábia. Desejar o que é impermanente significa sofrer quando se perde o objeto do desejo, ou pior, sofrer antecipadamente, antes mesmo de se conquistar o objeto do desejo, e assim, sofrer novamente depois, uma vez que a perda é inevitável, devido à natureza da impermanência.

Transcrevo, para reflexão, trecho do livro Pura Bondade, de Ajahn Candasiri [3]:

Nas nossas vidas por vezes experienciamos coisas lindíssimas. Temos também relacionamentos especiais, nos quais sentimos uma afinidade maravilhosa e um grande à-vontade com determinadas pessoas. Pode acontecer o desejo de nos agarrarmos a essas experiências. Mas precisamos compreender que a vida envolve uma espécie de implacabilidade. É annica – simplesmente continua a fluir, quer queiramos ou não.

2. Dukkha (sofrimento ou insatisfatoriedade)

O sofrimento, dukkha, se manifesta exatamente porque não temos a compreensão correta do fenômeno da impermanência. Como vivemos em um mundo em constante transformação é natural que ocorram situações inesperadas e transitórias, pois essa é a natureza do mundo. Contudo, desejamos ser bem-sucedidos profissionalmente, ter uma vida feliz, permanecer sempre com aparência agradável. Ao nos depararmos com alguma situação que interfere nesse desejo ilusório de permanência, nesse desejo ilusório de ser, ter ou permanecer, sofremos, pois não sabemos lidar com as mudanças. Não consideramos, ainda, que as situações adversas também são impermanentes, também irão passar.

Em resumo, tudo que está sujeito ao fenômeno da impermanência também é fonte de sofrimento ou insatisfatoriedade. Bases externas: formas, sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais. Bases internas: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.

Este tema é de profunda importância para o budismo e também é a primeira das Quatro Nobres Verdades. Ressalte-se, que a questão do sofrimento é frequentemente mencionada no budismo não como forma de pessimismo, mas apenas como objeto de reflexão e para que saibamos que há um caminho para a sua libertação, o Nobre Caminho Óctuplo.

3. Anatta (não-eu ou impessoalidade)

Aqui, não se busca questionar a existência do “eu” ou do “ego”. Nesse sentido, nos explica Thanissaro Bhikkhu [4]:

Não-eu (anatta): É extremamente importante que o leitor não pense equivocadamente que o Buddha ensinou que “não existe um ser” ou que “não há um eu”. Pelo contrário, ele sempre se negava a contestar perguntas sobre este assunto por considerá-las mal formadas e sempre recomendava não se empenhar em investigar: “Se existe um eu ou não”. Este termo, assim como “inconstância” (anicca) e “sofrimento” (dukkha), era ensinado pelo Buddha como ferramenta mental e “percepção” (anupassana) a ser exercitada com o objetivo de produzir certo resultado – o desapego e a despaixão na mente.

É irrelevante para o estudo obter alguma conclusão acerca da existência ou não do “eu” ou “ego”. O importante é compreender a impessoalidade presente em todos os fenômenos da natureza. Nesse sentido [5]:

ANATTA: ‘Não-self’, Não ego, sem ego, impessoalidade: é a última das Três Características da existência (ti-lakkhana, q.v.). A doutrina do Anatta ensina que nem dentro do fenômeno corporal e mental da existência, nem fora deles, pode ser encontrado qualquer coisa que no sentido último possa ser considerado como uma entidade-Ego existente por si, alma ou qualquer outra substancia exisente (sic). (…)

Ajahn Chah, por sua vez, ressalta o caráter impessoal, não-eu de sensações como a felicidade e o sofrimento [6]:

Quando consideramos o corpo ou a mente, podemos colocar ambos no mesmo “saco”, no “saco” do Transitório, Imperfeito e Não-eu – aniccam, dukkham, anatta. Eles são simples condições da Natureza, surgem, dependendo de factores de suporte, existem por um período de tempo e depois acabam. Quando existem condições apropriadas, elas voltam, existem por um período de tempo e depois acabam outra vez. Estas coisas não são um “eu”, um “ser”, um “nós” ou um “eles”. Não existe ninguém nessas coisas, apenas sensações. A felicidade não tem um “eu” intrínseco, o sofrimento não tem um “eu” intrínseco. Nenhum “eu” pode ser encontrado, pois são simples elementos da natureza que começam, existem e acabam, passando por este constante ciclo de mudança.

O “eu” ou “ego”, nada mais é do que um fenômeno condicionado, estimulado desde o nosso nascimento para reagir às situações do cotidiano e que, devido à sua natureza impermanente, em determinado momento deixará de existir [7].

Assim, acredito que o objetivo do ensinamento de anatta – não-eu, seja o de nos transmitir o entendimento de que esse “eu” ou “ego” aparente não deve ser reconhecido como uma entidade que comanda nossos pensamentos e nossas ações e, sendo assim, não é o destinatário dos objetos do desejo presentes no mundo: formas, sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais.

Quando desejamos alguma coisa porque entendemos que aquilo nos trará satisfação é irrelevante para o entendimento do “não-eu”, se o “eu” ou “ego” existe ou não. A compreensão de que não é correto desejar algo porque não existe “eu” ou “ego” é inadequada. É irrelevante se existe ou não.

É inadequado desejar algo porque o desejo também é uma construção do “eu” ou “ego” e não algo inerente à sua natureza. Por isso dizemos que todas as coisas são impessoais ou não-eu.

Nesse discurso do Buda, é possível perceber como as três características da existência estão perfeitamente relacionadas [8]:

Assim ouvi. Em certa ocasião, o Abençoado estava em Benares, no Parque do Gamo, em Isipatana. Lá ele se dirigiu ao grupo de cinco bhikkhus desta forma: “Bhikkhus” – “Venerável Senhor,” eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“A forma, bhikkhus, é não-eu. Pois, bhikkhus, se a forma fosse o eu, essa forma não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’ Mas porque a forma é não-eu, a forma conduz ao sofrimento e não é possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’
“A sensação é não-eu…
“A percepção é não-eu…
“As formações volitivas são não-eu…
“A consciência é não-eu. Pois, bhikkhus, se a consciência fosse o eu, essa consciência não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’ Mas porque a consciência é não-eu, a consciência conduz ao sofrimento e não é possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’
“O que vocês pensam, bhikkhus, a forma é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.
“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“… a sensação é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… a percepção é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… as formações volitivas são permanentes ou impermanentes?
“Impermanentes, senhor.
“O que vocês pensam, bhikkhus, a consciência é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.
“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“Portanto, bhikkhus, qualquer forma, quer seja do passado, futuro ou presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior, próxima ou distante: toda forma deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’
“Qualquer sensação …
“Qualquer percepção …
“Quaisquer formações volitivas …
“Qualquer consciência, quer seja do passado, do futuro ou do presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior; próxima ou distante: toda consciência deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’
“Vendo dessa forma, o nobre discípulo bem instruído se desencanta com a forma, se desencanta com a sensação, se desencanta com a percepção, se desencanta com as formações volitivas, se desencanta com a consciência. Desencantado ele se torna desapegado. Através do desapego a sua mente é libertada. Quando ela está libertada surge o conhecimento: ‘Libertada.’ Ele compreende que: ‘O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.’”
Isso foi o que o Abençoado disse. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado. E enquanto essa explanação estava sendo dada, as mentes do grupo de cinco bhikkhus, foram libertadas das impurezas através do desapego.

Notas

[1] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 22. Disponível no menu “Biblioteca”.

[2] SUMEDHO Ajahn. Plena Atenção: O Caminho Para a Imortalidade (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 9-10. Disponível no menu “Biblioteca”.

[3] CANDASIRI Ajahn, Pura Bondade (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 20. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 58. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 21. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] APPAMADO Bhikkhu. Folhas da Árvore Bodhi (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 6. Disponível no menu “Biblioteca”.

[7] Para o budismo não existe qualquer entidade eterna, permanente, seja o “eu”, o “ego” ou a “alma”. Esse entendimento pode nos levar à seguinte questão: Se esses três elementos são impermanentes o que renasce? O kamma – carma.

[8] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXXII.59.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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Ensaio Sobre o Ego

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Por que nos sentimos mal quando somos criticados?

Por que nos sentimos mal quando não somos elogiados?

Penso que todos nós já passamos por essas situações na vida, mesmo quando éramos crianças, mas por que isso ocorre?

Porque projetamos uma imagem exterior, uma personalidade, e criamos expectativa em relação à percepção das outras pessoas.

Ocorre que essa personalidade projetada não é única, na verdade, projetamos diferentes personalidades, de acordo com as mais diversas situações do cotidiano. Quando estamos em casa sozinhos somos uma pessoa, no ambiente de trabalho somos outra pessoa, nas reuniões em família somos uma terceira pessoa, nas redes sociais somos uma quarta pessoa e assim por diante.

E quem é o responsável por essa projeção de incontáveis personalidades? É o ego.

Segundo o Dicionário Aurélio [1] o ego é “o eu de um indivíduo”, mas exatamente o que é “o eu de um indivíduo”? Bom, essa é uma das questões mais debatidas da história da humanidade e qualquer debate a respeito estará, inevitavelmente, restrito ao âmbito teórico. O importante para o budismo é identificar o ego e compreender que é apenas uma manifestação da consciência e, como tal, impermantente como todos os demais fenômenos da natureza.

Para melhor compreensão, faz-se necessário adentrar em um outro elemento de estudo do budismo, o renascimento.

O sentido de renascimento no budismo é diferente do sentido de reencarnação de outras crenças. A reencarnação pressupõe a existência de uma alma, um espírito, que em determinado momento deixará o corpo físico atual e reencarnará em outro corpo físico. Esse ponto de vista pode nos induzir a pensar que o ego, esse conjunto de conhecimentos e experiências adquiridos nesta vida, é quem efetivamente irá retornar em uma próxima vida.

Na religião católica, após a morte, há duas possibilidades: aquele que seguiu os preceitos de Deus irá para o céu e aquele que não seguiu irá para o inferno. Aquele quem? Só pode ser o ego e as suas personalidades projetadas, pois são levadas em consideração apenas as ações da vida atual, e quem vem comandando as ações nessa vida atual? Não é o ego?

A citação de outras crenças foi feita não como forma de crítica, apenas para demonstrar como é possível confundir o ego, um fenômeno superficial e temporário, com a essência do ser humano, que retornará sob a forma de renascimento ou reencarnação.

No budismo, a essência que renasce em outra existência é independente dessa manifestação denominada ego, a qual se dissolverá com a morte do corpo físico. Essa essência que renascerá é apenas o kamma – carma [2].

Não é muito difícil compreender que o ego é um fenômeno transitório, bastando para tal analisar a situação daquelas pessoas que possuem uma doença cerebral degenerativa, como o Alzheimer. Gradativamente a pessoa vai perdendo sua identidade até que não subsista qualquer traço de sua antiga personalidade. É possível também perceber a precariedade do ego nos acidentes com traumatismo craniano grave, em que a pessoa em alguns casos regride aos primeiros anos de vida e em outros perde totalmente as funções motoras.

O que acontecerá com essas pessoas após o falecimento? Elas retornarão com esse estado de consciência alterado e limitado? Claro que não, o ego, no estado em que se encontre, e todas as demais projeções da personalidade se dissolverão como qualquer outro fenômeno impermanente e prevalecerá o carma produzido em sua última vida, em conjunto com o carma remanescente de existências anteriores.

Vários estudos já foram feitos no intuito de explicar o funcionamento do consciente e do subconsciente, com destaque para a psicanálise de Sigmund Freud, um estudo teórico sobre a personalidade humana.

Para Freud [3], havia o ego, mais aparente, e outros dois elementos mais misteriosos, digamos assim, o id e o superego. O id buscava influenciar o ego sob a forma de um instinto básico. O ego, por sua vez, agia como mediador, na medida em que procurava atender aos anseios do id, mas sem ultrapassar os limites. Já o superego, em contrapartida, era o elemento controlador da relação e o responsável por conter o ego, quando este se perdesse nos devaneios do id.

Pode ser um pouco complicado o entendimento a princípio, mas o que o leitor deve ter em mente é que Freud, em suas sessões de psicanálise, com a utilização da hipnose e observações do sono, percebeu que havia elementos da mente humana ainda pouco explorados e que poderiam influenciar, de forma subconsciente, a conduta do paciente.

Digo isso, para que retornemos às duas perguntas iniciais propostas pelo artigo: Por que nos sentimos mal quando somos criticados ou quando esperamos um elogio que não acontece?

Porque o ego possui uma noção equivocada da realidade e sempre procura atribuir significados, sob a forma de pensamentos e sensações (ou sentimentos) a fenômenos impessoais, que na verdade não possuem qualquer substancialidade.

Quando desejamos que uma pessoa se comporte de determinada forma para conosco ou se abstenha de determinado comportamento ou opinião, devemos ter em mente que esse desejo é ilusório e não representa a verdadeira forma de agir daquela pessoa, que age de acordo com a natureza dela e não como a nossa ou como gostaríamos que ela agisse.

Da mesma forma, aquela pessoa critica porque é da natureza dela criticar. Se você pudesse conviver com ela o dia inteiro poderia perceber esse fato, não é pessoal.

O ego, por ter esse entendimento equivocado da realidade, por tornar tudo pessoal e intencional, por procurar sempre uma razão para todas as coisas, nos causa uma sensação desagradável ao ouvir uma crítica ou não ouvir um elogio esperado, que aos poucos, se não contida, pode se transformar em sentimentos mais prejudiciais, como o ódio por exemplo.

Não estou dizendo que devemos ficar mudos quando não concordamos com uma opinião a nosso respeito, apenas que não deixemos aquele incômodo inicial se desenvolver para algo mais prejudicial para nós mesmos. Podemos também expor nosso ponto de vista, mas sempre com o entendimento de que a crítica não foi pessoal e sim porque é da natureza daquela pessoa criticar. Ela está agindo da forma que compreende ser correta, de acordo com o seu nível de entendimento, e também não devemos criticá-la ou julgá-la.

O Buda nos ensinou que todos os fenômenos são impermanentes e sem substancialidade, quando atribuímos um pensamento negativo como o ódio a determinado fenômeno impessoal, significa que o ego está se manifestando de forma equivocada mais uma vez e deve ser contido antes que esse pensamento possa causar ainda mais danos, como a fala e a ação baseadas nessa noção equivocada da realidade.

Como o ego tem o hábito de projetar diferentes personalidades, de acordo com o ambiente a ser frequentado, esse controle se torna ainda mais difícil. Além de, precariamente e na maioria das vezes equivocado, o ego tentar sempre mapear a personalidade das outras pessoas e tentar imaginar como os outros irão agir em determinada situação, ainda projeta uma outra personalidade para aquela ocasião específica, e que possui expectativas próprias de como as outras pessoas irão reagir àquela personalidade projetada.

Enfim, é muito mais fácil se esforçar para transparecer a nossa verdadeira essência interior em todas as ocasiões. Sei que também não é uma tarefa fácil saber qual é a nossa verdade interior, mas, basicamente, podemos utilizar um mecanismo que pode nos orientar nesse sentido. Sempre que pensarmos em agir de uma forma não verdadeira para conosco, uma forma em que agimos apenas em determinada ocasião, e vai de encontro à forma em que agimos normalmente, pode ser um indicativo de que o ego está projetando uma personalidade para aquela situação específica e, em contrapartida, exigirá um comportamento próprio das outras pessoas, tornado a experiência mais difícil de ser controlada.

Não me refiro a regras sociais. Se no ambiente de trabalho, por exemplo, é exigido determinado traje, isso deve ser cumprido e ponto final, não há qualquer relação com o ego ou com a personalidade da pessoa. É uma regra social, impessoal e que deve ser observada por todos. Cumpra-a com naturalidade.

O ego pode ser percebido como esse diálogo interior, a conversa de você com você mesmo, às vezes silenciosa, às vezes em voz alta, sempre presente, cuja intenção pode ser boa, aparentemente, mas que está profundamente arraigado na dicotomia certo e errado, sempre buscando explicação para todos os fenômenos e atribuindo-lhes valoração. As percepções mentais, por outro lado, são fenômenos impermanentes e impessoais, que surgem e logo cessam, não são direcionados a você nem a qualquer outra pessoa, e por isso o ego falha nessa percepção, por desconhecer a verdadeira natureza de todas as coisas.

Assim, o ego define um caminho de pensamento e ação baseado em uma noção equivocada da realidade, não levando em consideração, principalmente, a Primeira Nobre Verdade do budismo, que é o sofrimento. As coisas são como são, pois, assim é a natureza deste mundo. Não são pessoais, não acontecem direcionadas a você. Estão presentes o tempo todo como fenômenos impessoais, mas quem atribui valoração e provoca sofrimento é o ego e o seu entendimento equivocado da realidade.

Leia o que Yogavacara Rahula, monge budista Theravada, expõe acerca da formação dos processos mentais [4]:

Os conceitos e reações que construímos continuamente na constituição da nossa mente são os obstáculos mais potentes à percepção das coisas na sua verdadeira natureza impermanente, condicionada e sem essência. Na verdade, quando se forma um conceito, o pensamento parece parar de caminhar naquela direção. Os conceitos levam o pensador ainda mais longe da realidade, pois ele considera forças e fatos entidades permanentes e concretas. Esses depósitos conceituais no nosso fluxo de vida subconsciente continuam a influenciar (se não forem detidos) todo o nosso comportamento, julgamentos e sentimentos relativos a todas as experiências subsequentes, acrescentando-lhes ou retirando-lhes qualidades. O conhecimento nada mais é do que conceitos acumulados e, no pensamento conceitual, a lógica, a razão, a imaginação e a experiência de vida desempenham papéis diferentes.

Ignorar as manifestações do ego é o melhor caminho. Não me refiro a criar um sentimento de repulsa em relação a uma parte que nos acompanha por toda a vida, tampouco, inquietação, raiva ou qualquer outro sentimento negativo quando o ego se manifestar, apenas não mais ouvi-lo, pois, suas manifestações são, de fato, distorções da realidade, o que, na maioria das vezes, nos conduz a julgamentos e ações precipitadas.

O que o nosso ego julga ser o correto para nós, de fato não o é e nos afasta da iluminação [5], o objetivo último do budismo, uma vez que induz a pensamentos e ações baseados em percepções equivocadas. Não há o que pensar ou fazer sobre a natureza deste mundo, ele é assim e pronto. Orientar nosso caminho e nossas ações pelo que está no Dhamma, a doutrina budista [6], é o suficiente, pois assim nos ensinou o Buda.

Podemos desenvolver um sentimento de compaixão pelo nosso ego, pois, precisamos dele nesta vida e, acima de tudo, é uma manifestação que nos quer bem, que visa nos proteger, embora, ressalto mais uma vez, sem embasamento para nos conduzir ao caminho da iluminação, apenas ao da ilusão e, consequentemente, nos prender ao ciclo de renascimentos, o samsara [7].

Lembre-se de que negação não é o mesmo que libertação. Se há um conflito interno, uma luta para se combater algum sentimento, esse pode ser um indicativo de que há um desvio no caminho verdadeiro para se chegar ao objetivo.

Deixe o ego se manifestar, pois é a natureza dele, apenas não dê atenção e importância ao que ele diz. Pense no ego como uma criança que ainda precisa de orientação para a formação de seu caráter. Não lute contra o ego ou contra qualquer outro sentimento, apenas deixe-o manifestar sua natureza como uma brisa que passa sem causar qualquer dano à sua casa. Dessa forma, essas manifestações perderão a força com o tempo, pois não influenciarão mais nossos pensamentos e, tampouco, nossas as ações.

Você pode e deve continuar com esse diálogo interior, mas de uma forma aplicada, com o esforço correto, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, fundamentado no Dhamma, sempre ponderando os ensinamentos budistas. Se surgir algum sentimento incômodo, provocado pela raiva, cobiça ou delusão [8], significa que seus pensamentos estão sendo comandados pelo ego e isso não é um bom sinal, procure eliminar pela raiz os pensamentos que fomentam esses sentimentos. É um exercício que encontrará resistência do ego em um primeiro momento, pois significará que ele não estará mais no comando da situação, mas quando os efeitos benéficos puderem ser percebidos, o próprio ego buscará a reflexão antes do julgamento.

Encerro, por enquanto, com esses versos do Dhammapada [9]:

Assim como um arqueiro endireita a haste da flecha, também o homem firme endireita a sua mente – volúvel e instável, tão difícil de domar.

Que ninguém procure o defeito nos outros; que ninguém observe as omissões e acções dos outros. Mas observemos os nossos próprios actos.

O mal é feito a si mesmo; a si mesmo a pessoa se conspurca. A si mesmo deixa de fazer o mal; a si mesmo a pessoa se purifica. Pureza e impureza dependem de si mesmo; ninguém pode purificar outra pessoa.

A continuar…

[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 7.0.2. O Míni Aurélio corresponde à 8ª edição, revista e atualizada, do Minidicionário Aurélio, da Língua Portuguesa, contendo mais de 30 mil verbetes. 2010.

[2] Kamma – carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[3] FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (ed. eletrônica). Vol. XIX. Rio de Janeiro: IMAGO, 1972. p. 12-24.

[4] RAHULA BHIKKHU, Yogavacara. Superando a Ilusão do Eu: Um Guia de Meditação Vipassanā (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2011. p. 55. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana, a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[6] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[7] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[8] Cobiça, raiva e delusão são as três raízes inábeis da mente, responsáveis pelo desejo e, consequentemente, pelo sofrimento. Delusão é uma tradução do vocábulo moha em páli, que significa, a grosso modo, o desconhecimento da realidade como ela verdadeiramente é, ilusão.

[9] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 23, 28, 64. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

O Que é Necessário Para Se Tornar Um Budista?

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Introdução

Para que uma pessoa se considere budista não é necessário participar de qualquer cerimônia de iniciação. Contudo, o verdadeiro budista é aquele que entende e pratica. De nada adianta ser um profundo conhecedor dos discursos proferidos pelo Buda e seus ensinamentos se nada é colocado em prática. Nesse caso, estaremos diante de um estudioso do budismo e não de um budista propriamente dito.

É importante que não existam conflitos internos entre crenças ou dogmas religiosos e os elementos de estudo do budismo, que são utilizados como base para a explicação dos ensinamentos.

Como exemplo, cito o fato de o budismo considerar que fazemos parte de um ciclo de renascimentos, chamado samsara. Ou seja, a morte não é o fim de tudo, e, tampouco nos conduzirá a um local de repouso eterno. Nada é permanente na concepção budista, tudo é impermanente, temporário. Nascemos, envelhecemos e em determinado momento morreremos. Durante esse período de vida, agimos algumas vezes de forma saudável, outras vezes de forma não saudável, o que o budismo chama de kamma ou carma, e assim orientamos nossa presente vida, bem como preparamos o próximo renascimento, e posteriores.

Então, se tudo lhe pareceu estranho, de difícil compreensão ou aceitação, pode ser que o budismo não seja o caminho a seguir, nesse primeiro momento. Por outro lado, se o que foi exposto lhe pareceu razoável, este pode ser um indicativo de que vale a pena o esforço em entender e praticar os ensinamentos do Buda, e, posteriormente, confirmar por si mesmo se valeu a pena.

Basicamente, considero necessário o entendimento das Três Características da Existência (anicca – impermanência; dukkha – sofrimento; e, anatta – não-eu), das Quatro Nobres Verdades (o sofrimento; a causa do sofrimento; a cessação do sofrimento; e, o caminho que leva à cessação do sofrimento – o Nobre Caminho Óctuplo); a prática dos Cinco Preceitos (não matar seres vivos; não tomar aquilo que não foi dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência); e, o esforço em praticar o Nobre Caminho Óctuplo (compreensão correta; pensamento correto; palavra correta; ação correta; modo de vida correto; esforço correto; atenção correta; e, concentração correta).

Adicionalmente, é comum a busca por refúgio interior na chamada Joia Tríplice: o Buda, um ser humano que atingiu a iluminação, o objetivo último do budismo, e dedicou sua vida aos ensinamentos do caminho para a libertação de todo o sofrimento; o Dhamma, a doutrina, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda; e, a Sangha, a comunidade de discípulos do Buda, responsável pela manutenção e divulgação desse conhecimento.

1. A vida do Buda

Conhecer um pouco sobre a vida do Buda nos traz sentimentos de esperança e de profunda gratidão. Esperança, pois descobrimos que o Buda, até os seus 29 anos, teve experiências de vida comuns a todos nós, como o casamento e o nascimento de seu filho. Gratidão, pois descobrimos que o Buda abriu mão de um futuro próspero e promissor para investigar as causas do sofrimento e nos mostrar o caminho para a libertação.

Segue um resumo da vida do Buda [1]:

O BUDDHA ou Iluminado – lit. Aquele que sabe ou o Desperto – é o nome honorífico conferido ao Sábio indiano, Gotama, que desvendou e proclamou ao mundo a lei da libertação, conhecida no Ocidente pelo nome de Budismo. Nasceu no Século VI a.C., em Kapilavatthu, filho do rei que na época regia o País Sakya, um principado situado na zona de fronteira com o actual Nepal. O seu nome próprio era Siddhattha e seu nome de clã, Gotama (Sânscrito: Siddhārtha Gautama). Aos 29 anos de idade, renunciou ao esplendor da sua vida principesca como herdeiro real, e tornou-se um asceta mendicante, com o propósito de descobrir uma solução para aquilo que antes havia reconhecido como um mundo de sofrimento. Depois de uma busca de seis anos sob a orientação de vários instrutores religiosos e de um período de auto-mortificação infrutífera, Siddhattha finalmente alcançou a Iluminação Perfeita (sammāsambodhi), debaixo da árvore Bodhi em Gayā (actualmente Boddh-Gayā). Seguiram-se quarenta e cinco anos de incansável ensinamento e pregação, e finalmente, no seu octogésimo ano de vida, morre em Kusinara “aquele ser não iludido que surgiu para a bênção e alegria do mundo”. O Buddha não é nem um deus nem um profeta, nem a encarnação de um deus, mas um ser humano supremo que, através do seu próprio empenho, alcançou a redenção final, a sabedoria perfeita, tornando-se “o mestre sem par de deuses e homens”. É um “Salvador” unicamente no sentido em que mostra aos homens como se salvarem a si próprios, seguindo até ao fim, na prática, o caminho percorrido e mostrado por ele. O Buddha, na sua consumada harmonia de sabedoria e compaixão, encarna o ideal universal e intemporal do homem Aperfeiçoado.

2. As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

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3. As Quatro Nobres Verdades

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4. Os Cinco Preceitos

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5. O Nobre Caminho Óctuplo

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6. A Joia Tríplice ou Triplo Refúgio

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7. Encerramento

Encerro, para reflexão, com alguns versos do Dhammapada, a obra que contém a síntese dos ensinamentos do Buda [2]:

Por muito que recite os textos sagrados, se não agir nesse sentido, o homem descuidado é como um pastor que só conta as vacas dos outros – ele não beneficia das bênçãos da vida santa.

Por pouco que recite os textos sagrados, se o homem colocar o Ensinamento em prática, abandonando a luxúria, o ódio e a ilusão, com verdadeira sabedoria e espírito livre, apegado a nada deste ou de qualquer outro mundo – ele realmente participa das bênçãos de uma vida santa.

Aquele que destrói a vida, profere mentiras, toma o que não é seu, vai ter com a esposa de outro, e é viciado em bebidas alcoólicas – tal homem desenterra a sua própria raiz mesmo neste mundo.

Aquele que se refugiou no Buddha, no Ensinamento e no Sangha, penetra com sabedoria transcendental as Quatro Nobres Verdades – o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o Nobre Caminho Óctuplo que conduz à cessação de sofrimento.

Notas

[1] MAHATHERA, Nyanatiloka. A Palavra do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 20-21. Disponível no menu “Biblioteca”.

[2] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 16, 72, 90. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.