O Nobre Caminho Óctuplo

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São os oito passos necessários para a libertação de todo o sofrimento, e assim, não mais retornar ao samsara, o ciclo de renascimentos [1].

É um grande desafio até para os monges, quanto mais para os praticantes leigos que vivem em sociedade, mas vale o esforço para colocá-los em prática.

O primeiro desses passos é o entendimento correto, entender as Quatro Nobres Verdades;

O segundo passo é o cultivo do pensamento correto, o pensamento de renúncia ou desapego, o pensamento da generosidade, o pensamento de metta (amor e bondade), o pensamento da compaixão;

O terceiro passo é a palavra correta, a palavra amigável, a palavra que une as pessoas, a verdade;

O quarto passo é a ação correta, que para os budistas leigos é a obediência aos Cinco Preceitos;

O quinto passo é o modo de vida correto que é a condução da vida em sociedade com honestidade, abstendo-se de atividades comerciais ou profissionais que causem prejuízo a outros seres vivos;

O sexto passo é o esforço correto, que é identificar quando um pensamento prejudicial surge na mente e substituí-lo por um pensamento benéfico, e assim, com a prática, impedir totalmente que o pensamento prejudicial floresça, que é o objetivo final deste passo;

O sétimo passo é a atenção correta ou atenção plena correta, que é desenvolvida por meio da meditação, mas deve ser estendida durante todo o período do dia e, após determinado nível de prática, também durante a noite;

O oitavo passo é a concentração correta, ou seja, o resultado da prática satisfatória da meditação, os quatro jhanas, que são os estágios de absorção mental.

No Magga-vibhanga Sutta, do Samyutta Nikaya, o tema do Nobre Caminho Óctuplo é abordado pelo Buda em seu discurso [2]:

Em Savatthi. “Bhikkhus, eu ensinarei e analisarei para vocês o Nobre Caminho Óctuplo. Ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer.” – “Sim, venerável senhor,” os bhikkhus responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“E qual, bhikkhus, é o Nobre Caminho Óctuplo? Entendimento Correto, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correta, Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta.
“E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.
E o que é pensamento correto? O pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto.”
“E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta.”
“E o que é ação correta? Abster-se de tirar a vida de outros seres, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta.”
“E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto.”
“E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto.”
“E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (ii) Ele permanece contemplando as sensações como sensações – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iii) Ele permanece contemplando a mente como mente – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iv) Ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.
“E o que é concentração correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ (iv) Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentração correta.”

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXLV.8.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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A Vida é Um Contrato de Adesão

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Em uma das minhas sessões de meditação, enquanto refletia sobre os ensinamentos do Buda, mais precisamente sobre as Três Características da Existência (anicca – impermanência; dukkha – sofrimento; e, anatta – não-eu), me ocorreu que a vida é como um contrato de adesão.

O contrato de adesão é aquele em que uma das partes concorda tacitamente com as suas cláusulas, sem que tenha que manifestar sua vontade de forma expressa, ou seja, sem a necessidade de assinatura, bastando que usufrua daquilo que lhe é apresentado.

Assim, ao nos identificarmos com o modo de vida da sociedade e desejarmos aquilo que nos é apresentado, aceitamos, por ignorância, as cláusulas desse contrato, cujo prazo de vigência é o nosso tempo de vida, renovado automaticamente, na forma de renascimentos subsequentes, a chamada roda de renascimentos do budismo – samsara [1].

Se estamos plenamente satisfeitos com essa vida de altos e baixos a boa notícia é que não precisaremos fazer nada, adicionalmente, para que no momento oportuno renasçamos aqui ou em algum dos outros mundos [2], pois já aderimos ao contrato, e este é renovado automaticamente. Contudo, se desejarmos a iluminação [3], que é o objetivo último do budismo, deveremos compreender o mundo como realmente é, apenas uma ilusão que nos mantém presos ao samsara, e, em algum momento desse ciclo de incontáveis renascimentos, deveremos abrir mão do desejo e buscar um propósito maior.

Revogar esse contrato, entretanto, não é uma tarefa fácil. Não basta dizer: “Não quero renascer!”. Também não basta redigir uma carta e registrá-la no cartório com a sua assinatura informando que não deseja mais renascer neste mundo ou em qualquer outro, pois as condições para a renovação desse contrato já foram criadas.

O que podemos fazer, por enquanto, é orientar nossa vida pelo Dhamma [4], a doutrina budista, e dar um passo de cada vez em busca da iluminação, o objetivo último do budismo.

Para aqueles que desejam revogar esse contrato de renascimentos e atingir o objetivo último do budismo, a iluminação, o nibbana, o Buda mostrou o caminho, o Nobre Caminho Óctuplo.

Para reflexão [5]:

Assim como um pastor conduz o gado ao pasto com um cajado, também a velhice e a morte conduzem a força da vida dos seres (de existência em existência).

Em vão vagueei durante muitos nascimentos no saṃsāra, buscando o construtor desta casa (da vida). Repetidos nascimentos são sem dúvida sofrimento!

Ó construtor da casa, estás à vista! Não construirás esta casa de novo. Pois as tuas vigas estão quebradas e a cumeeira esmagada. Minha mente atingiu o Incondicionado; alcancei a destruição do desejo.

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Segundo o budismo, existem diversos mundos de existência. Quatro desses são chamados de mundos inferiores – apaya – e compreendem o inferno, o mundo dos demônios, o mundo dos animais e o mundo dos fantasmas famintos. Também temos o mundo dos humanos e diversos outros mundos superiores com criaturas celestiais em diferentes níveis. É importante ressaltar que a noção de inferno do budismo é diferente daquela apresentada em outras crenças, onde é considerado um castigo eterno para aqueles seres que desviaram do caminho correto. Para o budismo não há permanência eterna em qualquer dos mundos e o inferno é uma forma temporária de equilíbrio do kamma ou carma, o conjunto de nossas ações saudáveis e não saudáveis, que pode determinar onde e como renasceremos.

[3] Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana, a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[4] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[5] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 53, 60. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.