Os Cinco Preceitos

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Introdução

O Buda possuía discípulos com diferentes níveis de determinação e entendimento. Para aqueles decididos a abandonar suas posses e seu modo de vida em sociedade pela busca de um ideal maior, o Buda criou as 227 regras de conduta do Patimokkha, o Código de Disciplina dos bhikkhus, monges budistas. Todavia, para aqueles discípulos leigos que ainda viviam em sociedade, estabeleceu cinco preceitos básicos a serem seguidos: não matar seres vivos; não tomar aquilo que não for dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência.

1. Primeiro Preceito: não matar seres vivos

Seres vivos significa não apenas outro ser humano, mas qualquer outro ser que compartilhe da nossa existência no samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1]. Então, podemos incluir os animais considerados irracionais, bem como as criaturas minúsculas, como os insetos.

É claro que a ação ou kamma [2] de matar outro ser humano traz mais consequências que a ação ou kamma de matar um animal irracional, que por sua vez é mais grave que matar um inseto. Contudo, todos esses atos são lamentáveis e trazem consequências.

O budismo expõe a realidade como ela efetivamente é, não como gostaríamos que fosse, e sempre nos apresenta o caminho correto a ser seguido. Antes de pôr fim à vida de um inseto intencionalmente, pense nesse poder que lhe foi dado e como irá administrá-lo. Lembre-se da Primeira Nobre Verdade, que nos ensina que faz parte deste mundo a experiência de sensações consideradas desagradáveis, como a investida de um mosquito por exemplo. Reflita sobre a sensação em si, que não é pessoal e logo irá passar, devido à sua natureza impermanente, e dê preferência ao repelente, não ao inseticida.

2. Segundo Preceito: não tomar aquilo que não foi dado

Essa regra é autoexplicativa, não furtar e não roubar.

Furtar, segundo o Dicionário Aurélio [3]:

1. Subtrair fraudulentamente (coisa alheia); roubar.
2.
Fazer passar como seu (trabalho, ideia, etc.).

Roubar, segundo o Dicionário Aurélio [4]:

1. Tomar (objeto, coisa móvel) da posse de alguém, mediante ameaça ou violência.
(
…)

3. Terceiro Preceito: não ter comportamento sexual impróprio

O Buda nos explica em alguns de seus discursos o que é considerado comportamento sexual improprio, veja um exemplo [5]:

(…) Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possui esposo, protegida pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Esse tipo de conduta corporal faz com que os estados prejudiciais aumentem e os estados benéficos diminuam naquele que a cultiva.

Portanto, não há subjetividade no termo “impróprio”, uma vez que o seu significado pode ser encontrado nos ensinamentos.

Comportamento sexual improprio é aquele realizado sem o consentimento da outra parte; aquele realizado apenas para satisfazer o próprio desejo, não se importando com os sentimentos da outra parte; e, aquele realizado com pessoa comprometida com outro relacionamento ou quando se está em um relacionamento e realiza atividade sexual com outra pessoa, infidelidade conjugal.

4. Quarto Preceito: não mentir

A linguagem mentirosa deve ser evitada por aqueles que pretendem seguir os cinco preceitos, mas é apenas um dos tipos de linguagem incorreta a ser combatida para aqueles que pretendem pôr em prática o exercício da palavra correta, que é um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, e que demandará um esforço maior.

Além da mentira, também faz parte da linguagem incorreta a linguagem maliciosa, a linguagem grosseira e a linguagem frívola.

O Brahmajala Sutta, do Digha Nikaya, nos esclarece como identificar cada um dos tipos de linguagem incorreta, e assim evita-las [6]:

Abandonando a linguagem mentirosa, o contemplativo Gotama se abstém da linguagem mentirosa. Ele fala a verdade, mantém a verdade, é firme e confiável, não é um enganador do mundo. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa. O que ele ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas. O que ele ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas. Assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício.

5. Quinto Preceito: não consumir substâncias embriagantes que causam negligência

O Buda falava frequentemente em “vinho, álcool e outros embriagantes…”, mas obviamente podemos ampliar o entendimento para aquelas substâncias que, além da negligência, também causam a dependência, como o fumo, as drogas ou quaisquer outras substâncias modernas que provoquem os mesmos efeitos.

O termo utilizado pelo Buda era “não consumir”, mas ainda assim algumas pessoas questionam se beber com moderação é ir contra o preceito. Particularmente, entendo que consumir álcool, em qualquer dose, é ir contra o preceito, uma vez que o termo utilizado pelo Buda foi “não consumir”, bem claro e autoexplicativo. Caso contrário, teria utilizado o termo “consumir com moderação”, mas não o fez.

Além do mais, não creio que tenha existido professor tão hábil e preciso com as palavras quanto o Buda. Seus ensinamentos são claros, alguns de difícil entendimento, diga-se de passagem, mas não deixam margem à diferentes interpretações. Quando se tem dúvida sobre um determinado ensinamento, basta aprofundar-se nos estudos que certamente a dúvida é dirimida em outra passagem.

Observação: para aqueles que participam de retiros de meditação budista, é necessário, durante o período de sua realização, abster-se de qualquer prática sexual, uma ampliação do terceiro preceito, bem como a observação de três preceitos adicionais: não comer nos horários proibidos; não ouvir música, cantar, dançar, ver espetáculos de entretenimento, usar ornamentos, usar perfumes, e embelezar o corpo com cosméticos; e, não deitar em leitos elevados e luxuosos.

Mé Chi Kéu, em sua biografia escrita por Bhikkhu Dick Sīlaratano, nos diz o seguinte sobre os Cinco Preceitos [7]:

Cada um dos cinco preceitos carrega um benefício em particular. Ao abster-se de machucar seres vivos, podemos esperar boa saúde e longevidade. Ao abster-se de roubar, nossa riqueza e propriedades estarão a salvo de furtos e desaventuras. Ao abster-se de adultério, parceiros serão fiéis e viverão com contentamento sem sentir culpa ou vergonha. Ao abster-se de mentir, ganharemos a confiança alheia e seremos sempre respeitados por nossa integridade. Ao abster-se de intoxicantes, guardaremos nossa inteligência e permaneceremos pessoas sábias e claras, que não são facilmente enganadas ou confundidas.
(…)
Primeiro você deve abster-se de machucar seres vivos. Ao fazê-lo, aprenderá a restringir sua raiva e promover bem-querer. Você deve abster-se de tomar coisas sem o consentimento do dono. Ao descartar a mentalidade de um ladrão, a cobiça é posta em xeque e a renúncia ganha espaço para crescer. Todas as relações sexuais inapropriadas devem ser abandonadas, porque evitar má conduta sexual ajuda a diminuir o desejo sexual e desenvolve o espírito de contentamento. Ao abster-se de dizer mentiras, sempre dizendo a verdade, você controla as tendências à fala falsa e dá ênfase à honestidade em todos seus envolvimentos. Abster-se de intoxicantes evita excitação mental danosa e cultiva o desenvolvimento de sati, que é o pré-requisito básico para manter todos os preceitos morais de uma maneira suave e constante.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Kamma ou carma é a ação intencional do corpo, da fala ou da mente, saudável ou não saudável, que pode interferir de forma benéfica ou prejudicial na nossa presente vida, bem como orientar nossa próxima existência, nosso próximo renascimento, e posteriores.

[3], [4] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 7.0.2. O Míni Aurélio corresponde à 8a. edição, revista e atualizada, do Minidicionário Aurélio, da Língua Portuguesa, contendo mais de 30 mil verbetes. 2010.

[5] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN114.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[6] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN1.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

[7] SĪLARATANO, Bhikkhu Dick. Sua Jornada ao Despertar Espiritual e Iluminação (Biografia de Mé Chi Kéu) (ed. eletrônica). Tailândia: Forest Dhamma Books, 2017. p. 42, 91-92. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 25 de julho de 2017.
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O Nobre Caminho Óctuplo

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São os oito passos necessários para a libertação de todo o sofrimento, e assim, não mais retornar ao samsara, o ciclo de renascimentos [1].

É um grande desafio até para os monges, quanto mais para os praticantes leigos que vivem em sociedade, mas vale o esforço para colocá-los em prática.

O primeiro desses passos é o entendimento correto, entender as Quatro Nobres Verdades;

O segundo passo é o cultivo do pensamento correto, o pensamento de renúncia ou desapego, o pensamento da generosidade, o pensamento de metta (amor e bondade), o pensamento da compaixão;

O terceiro passo é a palavra correta, a palavra amigável, a palavra que une as pessoas, a verdade;

O quarto passo é a ação correta, que para os budistas leigos é a obediência aos Cinco Preceitos;

O quinto passo é o modo de vida correto que é a condução da vida em sociedade com honestidade, abstendo-se de atividades comerciais ou profissionais que causem prejuízo a outros seres vivos;

O sexto passo é o esforço correto, que é identificar quando um pensamento prejudicial surge na mente e substituí-lo por um pensamento benéfico, e assim, com a prática, impedir totalmente que o pensamento prejudicial floresça, que é o objetivo final deste passo;

O sétimo passo é a atenção correta ou atenção plena correta, que é desenvolvida por meio da meditação, mas deve ser estendida durante todo o período do dia e, após determinado nível de prática, também durante a noite;

O oitavo passo é a concentração correta, ou seja, o resultado da prática satisfatória da meditação, os quatro jhanas, que são os estágios de absorção mental.

No Magga-vibhanga Sutta, do Samyutta Nikaya, o tema do Nobre Caminho Óctuplo é abordado pelo Buda em seu discurso [2]:

Em Savatthi. “Bhikkhus, eu ensinarei e analisarei para vocês o Nobre Caminho Óctuplo. Ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer.” – “Sim, venerável senhor,” os bhikkhus responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“E qual, bhikkhus, é o Nobre Caminho Óctuplo? Entendimento Correto, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correta, Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta.
“E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.
E o que é pensamento correto? O pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto.”
“E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta.”
“E o que é ação correta? Abster-se de tirar a vida de outros seres, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta.”
“E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto.”
“E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto.”
“E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (ii) Ele permanece contemplando as sensações como sensações – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iii) Ele permanece contemplando a mente como mente – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iv) Ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.
“E o que é concentração correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ (iv) Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentração correta.”

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXLV.8.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

As Quatro Nobres Verdades

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Introdução

Nossa vida é uma eterna busca pela felicidade e, quando pensamos tê-la encontrado, ocorrem situações que a colocam em segundo plano. Então, retomamos a busca pela felicidade. Não é assim que acontece?

Isso acontece porque buscamos a felicidade naquilo que o mundo tem a nos oferecer, buscamos externamente, contudo, a felicidade verdadeira já está dentro de nós. Essa felicidade exterior é ilusória e frágil, não dura muito, não nos satisfaz. Por outro lado, a felicidade verdadeira, aquela interior, é revelada quando abrimos mão do desejo: o desejo de ser, o desejo de ter e o desejo de permanecer. Revelada quando nos contentamos com aquilo que somos e aquilo que temos, e quando não mais tememos as mudanças, que fazem parte deste mundo.

O ensinamento das Quatro Nobres Verdades é a essência do budismo e a sua função é a de nos mostrar a realidade para que possamos enxergar o mundo como ele realmente é. Um mundo repleto de situações que podem nos trazer sofrimento se não soubermos lidar com elas e outras que nos trarão sofrimento de qualquer forma.

Ao final, no entanto, nos ensina o caminho para a completa libertação de todo o sofrimento, à libertação do samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1].

1. A Primeira Nobre Verdade: o sofrimento

Em um primeiro contato com o budismo a Primeira Nobre Verdade pode nos causar uma sensação incômoda, pois aquele pensamento que tínhamos até então, o de que poderíamos ser felizes da maneira como vivíamos, é facilmente abalado.

A Primeira Nobre Verdade nos mostra que o simples fato de nascer neste mundo já é um ato de sofrimento, e assim permanece até o último dia de nossas vidas, uma vez que lidamos com incontáveis e recorrentes situações adversas.

Ninguém melhor para explicar a Primeira Nobre Verdade que o próprio Buda, que o faz com a clareza habitual no Mahasatipatthana Sutta, do Digha Nikaya [2]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade do sofrimento? O nascimento é sofrimento; o envelhecimento é sofrimento; a morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.
“E o que, amigos, é nascimento? O nascimento dos seres nas várias classes de seres, o próximo nascimento, o estabelecimento [num ventre], a geração, a manifestação dos agregados, a obtenção das bases para contato – a isto se denomina nascimento.
“E o que, amigos, é o envelhecimento? O envelhecimento dos seres nas várias categorias de seres, a sua idade avançada, os dentes quebradiços, os cabelos grisalhos, a pele enrugada, o declínio da vida, o enfraquecimento das faculdades – a isto se denomina envelhecimento.
“E o que, amigos, é a morte? O falecimento de seres nas várias categorias de seres, a sua morte, a dissolução, o desaparecimento, o morrer, a finalização do tempo, a dissolução dos agregados, o cadáver descartado – a isto de (sic) denomina morte.
“E o que, amigos, é a tristeza? A tristeza, entristecimento, sofrimento, tristeza interior, arrependimento interior, de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina tristeza.
“E o que, amigos, é a lamentação? O pranto e o lamento, chorar e lamentar, o choro e a lamentação de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina lamentação.
“E o que, amigos, é a dor? Dor no corpo, desconforto corporal, a sensação dolorosa e desconfortável que surge do contato corporal – a isto se denomina dor.
“E o que, amigos, é a angústia? Dor mental, desconforto mental, a sensação dolorosa e desconfortável que surge do contato mental – a isto se denomina angústia.
“E o que, amigos, é o desespero? A confusão e o desespero, a tribulação e a desesperação de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina desespero.
“E o que, amigos, é ‘não obter o que se deseja é sofrimento’? Para os seres sujeitos ao nascimento surge o desejo: ‘Ah, que nós não estivéssemos sujeitos ao nascimento! Que o nascimento não viesse para nós!’ Mas isto não pode ser obtido pelo desejo e não obter o que se deseja é sofrimento. Para os seres sujeitos ao envelhecimento … sujeitos à enfermidade … sujeitos à morte … sujeitos à tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero, surge o desejo: ‘Ah, que nós não estivéssemos sujeitos à tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero! Que a tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero não surjam para nós!’ Mas isto não pode ser obtido pelo desejo e não obter o que se deseja é sofrimento.
“E o que, amigos são os cinco agregados influenciados pelo apego que, em resumo, são sofrimento? Eles são: o agregado da forma material influenciado pelo apego, o agregado da sensação influenciado pelo apego, o agregado da percepção influenciado pelo apego, o agregado das formações volitivas influenciado pelo apego e o agregado da consciência influenciado pelo apego. Esses são os cinco agregados influenciados pelo apego que, em resumo, são sofrimento. A isto se denomina a nobre verdade do sofrimento.

2. A Segunda Nobre Verdade: a origem do sofrimento

A origem do sofrimento é o desejo. O desejo pelos prazeres sensoriais (formas visuais, sons, aromas, sabores, sensações corporais e objetos mentais), o desejo por ser e o desejo por não ser.

Quando se deseja algo, há cobiça, e quando esse objeto do desejo é conquistado, há prazer, mas apenas superficial e temporário. Uma vez na posse do objeto do desejo, surge o sofrimento ao pensar que se pode perder o que foi conquistado ou quando efetivamente se perde. Da mesma forma, quando não se conquista o que se deseja, o que é cobiçado, surge o sofrimento.

Continuamos com a explicação de nosso professor maior [3]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade da origem do sofrimento? É o desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir.
“E onde surge e se estabelece esse desejo? Qualquer coisa no mundo que seja cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“E o que no mundo é cativante e tentador? O olho no mundo é cativante e tentador. O ouvido … O nariz … A língua … O corpo … A mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo. Formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo são cativantes e tentadores, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Consciência no olho, consciência no ouvido, consciência no nariz, consciência na língua, consciência no corpo, consciência na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Sensação tendo como condição o contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Percepção de formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Intenção por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Desejo por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Pensamento aplicado às formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Pensamento sustentado nas formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo. A isto se denomina a nobre verdade da origem do sofrimento.

3. A Terceira Nobre Verdade: a cessação do sofrimento

Aprendemos quais são as formas de sofrimento e que o desejo é o responsável por cultivá-las. A cessação do sofrimento, portanto, é o abandono desse desejo. Nesse sentido, o Buda nos ensina a identificá-lo para que possamos abandoná-lo [4]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade da cessação do sofrimento? É o desaparecimento e cessação sem deixar nenhum vestígio daquele mesmo desejo, abrir mão, descartar, libertar-se, despegar desse mesmo desejo. E como ocorre o abandono desse desejo, como ocorre a sua cessação?
“Qualquer coisa no mundo que seja cativante e tentadora, nisso ocorre a cessação. E o que no mundo é cativante e tentador. O ouvido … O nariz … A língua … O corpo … A mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo. Formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo são cativantes e tentadores, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Consciência no olho, consciência no ouvido, consciência no nariz, consciência na língua, consciência no corpo, consciência na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Sensação tendo como condição o contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, do contato na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Percepção de formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Intenção por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Desejo por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Pensamento aplicado às formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Pensamento sustentado nas formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação. A isto se denomina a nobre verdade da cessação do sofrimento.

4. A Quarta Nobre Verdade: o caminho que conduz à cessação do sofrimento

Esse é o objetivo do ensinamento das Quatro Nobres Verdades, nos mostrar qual é o caminho para o abandono do desejo e a libertação de todo o sofrimento, que é o Nobre Caminho Óctuplo.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2], [3], [4] Fonte: Acesso ao Insight. < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN22.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
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Samvega e Pasada: Porque São Importantes Para o Budista?

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Segundo os relatos históricos da vida do Buda, ao sair do palácio ele se deparou com quatro situações distintas, que, aliadas ao seu mérito acumulado de vidas anteriores, o fizeram refletir sobre a existência humana e buscar uma saída para a libertação de todo o sofrimento, ou seja, o não retorno ao samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1].

O primeiro sinal objeto de sua contemplação foi o encontro com um homem idoso pelo caminho e a percepção de que não havia motivo para se ver comovido pela a situação, uma vez que ele próprio estaria sujeito ao envelhecimento.

O segundo sinal objeto de sua contemplação foi o encontro com um homem doente pelo caminho e a percepção de que não havia motivo para se ver comovido pela a situação, uma vez que ele próprio estaria sujeito à doença.

O terceiro sinal objeto de sua contemplação foi o encontro com um homem morto pelo caminho e a percepção de que não havia motivo para se ver comovido pela a situação, uma vez que ele próprio estaria sujeito à morte.

Ao se deparar com essas situações; envelhecimento, doença e morte, o Buda, que em vidas passadas já estivera comprometido com a busca pela verdade, sentiu a emoção de samvega, um termo em páli [2] de difícil tradução, mas que pode ser descrito como [3]:

(…) 1) a sensação opressiva de choque, desilusão e alienação que vem com a compreensão da futilidade e do sentido vazio da vida como ela é normalmente vivida; 2) uma sensação de culpabilidade de nossa própria complacência e tolice ao nos deixar viver de forma tão cega; 3) uma sensação ansiosa de urgência na tentativa de encontrar uma forma de escapar desse ciclo sem sentido. (…)

Contudo, ainda houve um quarto sinal, o encontro com um asceta [4], com aparente satisfação, apesar do pouco que possuía, cujo propósito era o de se dedicar à busca pela verdade, sem apegos, sem desejos.

Esse último sinal, por sua vez, impediu que a emoção de samvega se transformasse em desespero, uma vez que o Buda desenvolveu a confiança necessária de que esse seria o caminho a seguir, e a certeza de que encontraria uma saída para o ciclo de envelhecimento, doença e morte, o samsara.

A essa confiança no caminho a ser seguido para se atingir o objetivo desejado, é o que podemos chamar de pasada.

Assim, percebe-se a importância da emoção denominada samvega, na medida em que atua como elemento impulsionador da busca pela verdade. Contudo, é a confiança no caminho definido pelo Buda, denominada pasada, que impede que a emoção de samvega seja de difícil controle e se transforme em desespero.

O caminho a ser seguido, no qual todo budista deve ter confiança, é o Nobre Caminho Óctuplo, assim denominado pelo Buda.

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Páli é uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Um único vocábulo em páli pode ter vários significados em uma linguagem moderna, o que torna a tradução uma tarefa difícil. É comum nos depararmos com textos budistas que já foram objeto de até três traduções: do páli para o tailandês, do tailandês para o inglês e do inglês para o português.

[3] THANISSARO BHIKKHU. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 7. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] Aquela pessoa que se afasta da vida em sociedade para se dedicar a orações, privações e flagelações, em busca da perfeição espiritual.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
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A Vida é Um Contrato de Adesão

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Em uma das minhas sessões de meditação, enquanto refletia sobre os ensinamentos do Buda, mais precisamente sobre as Três Características da Existência (anicca – impermanência; dukkha – sofrimento; e, anatta – não-eu), me ocorreu que a vida é como um contrato de adesão.

O contrato de adesão é aquele em que uma das partes concorda tacitamente com as suas cláusulas, sem que tenha que manifestar sua vontade de forma expressa, ou seja, sem a necessidade de assinatura, bastando que usufrua daquilo que lhe é apresentado.

Assim, ao nos identificarmos com o modo de vida da sociedade e desejarmos aquilo que nos é apresentado, aceitamos, por ignorância, as cláusulas desse contrato, cujo prazo de vigência é o nosso tempo de vida, renovado automaticamente, na forma de renascimentos subsequentes, a chamada roda de renascimentos do budismo – samsara [1].

Se estamos plenamente satisfeitos com essa vida de altos e baixos a boa notícia é que não precisaremos fazer nada, adicionalmente, para que no momento oportuno renasçamos aqui ou em algum dos outros mundos [2], pois já aderimos ao contrato, e este é renovado automaticamente. Contudo, se desejarmos a iluminação [3], que é o objetivo último do budismo, deveremos compreender o mundo como realmente é, apenas uma ilusão que nos mantém presos ao samsara, e, em algum momento desse ciclo de incontáveis renascimentos, deveremos abrir mão do desejo e buscar um propósito maior.

Revogar esse contrato, entretanto, não é uma tarefa fácil. Não basta dizer: “Não quero renascer!”. Também não basta redigir uma carta e registrá-la no cartório com a sua assinatura informando que não deseja mais renascer neste mundo ou em qualquer outro, pois as condições para a renovação desse contrato já foram criadas.

O que podemos fazer, por enquanto, é orientar nossa vida pelo Dhamma [4], a doutrina budista, e dar um passo de cada vez em busca da iluminação, o objetivo último do budismo.

Para aqueles que desejam revogar esse contrato de renascimentos e atingir o objetivo último do budismo, a iluminação, o nibbana, o Buda mostrou o caminho, o Nobre Caminho Óctuplo.

Para reflexão [5]:

Assim como um pastor conduz o gado ao pasto com um cajado, também a velhice e a morte conduzem a força da vida dos seres (de existência em existência).

Em vão vagueei durante muitos nascimentos no saṃsāra, buscando o construtor desta casa (da vida). Repetidos nascimentos são sem dúvida sofrimento!

Ó construtor da casa, estás à vista! Não construirás esta casa de novo. Pois as tuas vigas estão quebradas e a cumeeira esmagada. Minha mente atingiu o Incondicionado; alcancei a destruição do desejo.

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Segundo o budismo, existem diversos mundos de existência. Quatro desses são chamados de mundos inferiores – apaya – e compreendem o inferno, o mundo dos demônios, o mundo dos animais e o mundo dos fantasmas famintos. Também temos o mundo dos humanos e diversos outros mundos superiores com criaturas celestiais em diferentes níveis. É importante ressaltar que a noção de inferno do budismo é diferente daquela apresentada em outras crenças, onde é considerado um castigo eterno para aqueles seres que desviaram do caminho correto. Para o budismo não há permanência eterna em qualquer dos mundos e o inferno é uma forma temporária de equilíbrio do kamma ou carma, o conjunto de nossas ações saudáveis e não saudáveis, que pode determinar onde e como renasceremos.

[3] Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana, a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[4] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[5] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 53, 60. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
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O Que é Necessário Para Se Tornar Um Budista?

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Introdução

Para que uma pessoa se considere budista não é necessário participar de qualquer cerimônia de iniciação. Contudo, o verdadeiro budista é aquele que entende e pratica. De nada adianta ser um profundo conhecedor dos discursos proferidos pelo Buda e seus ensinamentos se nada é colocado em prática. Nesse caso, estaremos diante de um estudioso do budismo e não de um budista propriamente dito.

É importante que não existam conflitos internos entre crenças ou dogmas religiosos e os elementos de estudo do budismo, que são utilizados como base para a explicação dos ensinamentos.

Como exemplo, cito o fato de o budismo considerar que fazemos parte de um ciclo de renascimentos, chamado samsara. Ou seja, a morte não é o fim de tudo, e, tampouco nos conduzirá a um local de repouso eterno. Nada é permanente na concepção budista, tudo é impermanente, temporário. Nascemos, envelhecemos e em determinado momento morreremos. Durante esse período de vida, agimos algumas vezes de forma saudável, outras vezes de forma não saudável, o que o budismo chama de kamma ou carma, e assim orientamos nossa presente vida, bem como preparamos o próximo renascimento, e posteriores.

Então, se tudo lhe pareceu estranho, de difícil compreensão ou aceitação, pode ser que o budismo não seja o caminho a seguir, nesse primeiro momento. Por outro lado, se o que foi exposto lhe pareceu razoável, este pode ser um indicativo de que vale a pena o esforço em entender e praticar os ensinamentos do Buda, e, posteriormente, confirmar por si mesmo se valeu a pena.

Basicamente, considero necessário o entendimento das Três Características da Existência (anicca – impermanência; dukkha – sofrimento; e, anatta – não-eu), das Quatro Nobres Verdades (o sofrimento; a causa do sofrimento; a cessação do sofrimento; e, o caminho que leva à cessação do sofrimento – o Nobre Caminho Óctuplo); a prática dos Cinco Preceitos (não matar seres vivos; não tomar aquilo que não foi dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência); e, o esforço em praticar o Nobre Caminho Óctuplo (compreensão correta; pensamento correto; palavra correta; ação correta; modo de vida correto; esforço correto; atenção correta; e, concentração correta).

Adicionalmente, é comum a busca por refúgio interior na chamada Joia Tríplice: o Buda, um ser humano que atingiu a iluminação, o objetivo último do budismo, e dedicou sua vida aos ensinamentos do caminho para a libertação de todo o sofrimento; o Dhamma, a doutrina, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda; e, a Sangha, a comunidade de discípulos do Buda, responsável pela manutenção e divulgação desse conhecimento.

1. A vida do Buda

Conhecer um pouco sobre a vida do Buda nos traz sentimentos de esperança e de profunda gratidão. Esperança, pois descobrimos que o Buda, até os seus 29 anos, teve experiências de vida comuns a todos nós, como o casamento e o nascimento de seu filho. Gratidão, pois descobrimos que o Buda abriu mão de um futuro próspero e promissor para investigar as causas do sofrimento e nos mostrar o caminho para a libertação.

Segue um resumo da vida do Buda [1]:

O BUDDHA ou Iluminado – lit. Aquele que sabe ou o Desperto – é o nome honorífico conferido ao Sábio indiano, Gotama, que desvendou e proclamou ao mundo a lei da libertação, conhecida no Ocidente pelo nome de Budismo. Nasceu no Século VI a.C., em Kapilavatthu, filho do rei que na época regia o País Sakya, um principado situado na zona de fronteira com o actual Nepal. O seu nome próprio era Siddhattha e seu nome de clã, Gotama (Sânscrito: Siddhārtha Gautama). Aos 29 anos de idade, renunciou ao esplendor da sua vida principesca como herdeiro real, e tornou-se um asceta mendicante, com o propósito de descobrir uma solução para aquilo que antes havia reconhecido como um mundo de sofrimento. Depois de uma busca de seis anos sob a orientação de vários instrutores religiosos e de um período de auto-mortificação infrutífera, Siddhattha finalmente alcançou a Iluminação Perfeita (sammāsambodhi), debaixo da árvore Bodhi em Gayā (actualmente Boddh-Gayā). Seguiram-se quarenta e cinco anos de incansável ensinamento e pregação, e finalmente, no seu octogésimo ano de vida, morre em Kusinara “aquele ser não iludido que surgiu para a bênção e alegria do mundo”. O Buddha não é nem um deus nem um profeta, nem a encarnação de um deus, mas um ser humano supremo que, através do seu próprio empenho, alcançou a redenção final, a sabedoria perfeita, tornando-se “o mestre sem par de deuses e homens”. É um “Salvador” unicamente no sentido em que mostra aos homens como se salvarem a si próprios, seguindo até ao fim, na prática, o caminho percorrido e mostrado por ele. O Buddha, na sua consumada harmonia de sabedoria e compaixão, encarna o ideal universal e intemporal do homem Aperfeiçoado.

2. As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

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3. As Quatro Nobres Verdades

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4. Os Cinco Preceitos

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5. O Nobre Caminho Óctuplo

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6. A Joia Tríplice ou Triplo Refúgio

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7. Encerramento

Encerro, para reflexão, com alguns versos do Dhammapada, a obra que contém a síntese dos ensinamentos do Buda [2]:

Por muito que recite os textos sagrados, se não agir nesse sentido, o homem descuidado é como um pastor que só conta as vacas dos outros – ele não beneficia das bênçãos da vida santa.

Por pouco que recite os textos sagrados, se o homem colocar o Ensinamento em prática, abandonando a luxúria, o ódio e a ilusão, com verdadeira sabedoria e espírito livre, apegado a nada deste ou de qualquer outro mundo – ele realmente participa das bênçãos de uma vida santa.

Aquele que destrói a vida, profere mentiras, toma o que não é seu, vai ter com a esposa de outro, e é viciado em bebidas alcoólicas – tal homem desenterra a sua própria raiz mesmo neste mundo.

Aquele que se refugiou no Buddha, no Ensinamento e no Sangha, penetra com sabedoria transcendental as Quatro Nobres Verdades – o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o Nobre Caminho Óctuplo que conduz à cessação de sofrimento.

Notas

[1] MAHATHERA, Nyanatiloka. A Palavra do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 20-21. Disponível no menu “Biblioteca”.

[2] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 16, 72, 90. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.