Podemos Aprender Até Com As Situações Mais Insignificantes

peony-1414875_1280

Quem se lembra daquele desenho animado do Pica-pau [1], em que os animais da floresta trabalhavam incansavelmente para abastecer suas despensas e se preparavam para o inverno, enquanto que o Pica-pau, despreocupado, apenas vivia o momento presente, mas sem qualquer responsabilidade?

Entre aquelas criaturas trabalhadoras, a formiga merece destaque. Incansável, workaholic [2], talvez acumuladora compulsiva. O problema é que essa pequena criatura, às vezes, demonstra toda sua eficiência não lá fora, mas no conforto do nosso lar, e, quando percebemos, já estamos repartindo nossa comida com elas.

Aplicamos inseticidas em seus esconderijos, que se mostram ineficientes a longo prazo, descobrimos novos instrumentos de extermínio em massa, como aquele gel que as atrai para o “último banquete”, mas todos esses meios falham no seu objetivo, que é o de expulsá-las da nossa residência.

Até ficamos satisfeitos por um tempo, mas logo vemos uma andando aqui, outra andando ali, e então descobrimos mais uma trilha delas. No final, toda aquela matança fora em vão.

Além de demonstrarmos total descaso pela vida dos outros seres, não paramos para refletir sobre o problema, não atacamos a raiz do problema, que não é a presença delas, mas sim a nossa casa, que não se mantém limpa devido aos nossos hábitos.

O budismo nos ensina que não devemos tirar a vida dos outros seres [3], pelo simples fato de que todas as criaturas desejam viver e lutam pelas suas respectivas vidas, não apenas nós seres humanos.

A seguir, descrevo como o problema com as formigas foi resolvido, sem a necessidade de continuar exterminando-as.

Primeiramente, reconhecemos que o problema não era a presença delas, e sim nossos hábitos, meus e os da minha esposa. Jogávamos frequentemente resíduos de bolos e outros doces na lixeira da cozinha e demorávamos para substituir o lixo; acumulávamos embalagens vazias sobre a pia, para posterior separação e reciclagem, e alguns desses recipientes eram fontes de açúcar; repartíamos bolos sem muita atenção e o farelo caia sobre a bancada e sobre o chão; comíamos sem muita atenção e, novamente, deixávamos resíduos por onde quer que passássemos.

Como parte do plano de contingência, continuei utilizando o inseticida do tipo spray, mas sem aplicar sobre elas ou sobre o esconderijo delas, mas dentro da lixeira, como forma de impedir que continuasse a ser uma fonte de alimentos para as formigas, e, assim, elas não mais retornaram à lixeira.

Passamos a lavar, sem muito desperdício de água, as embalagens vazias sobre a pia para tirar o excesso de açúcar, até que pudessem ser ensacadas e separadas do lixo orgânico. As formigas ainda passeavam sobre a pia, mas apenas para beber água, não mais para se alimentar.

Desenvolvemos o hábito de maior atenção ao manusearmos biscoitos, bolos e outras fontes de açúcar. Dessa forma, a presença das formigas pela casa diminuiu consideravelmente, mas ainda era possível vê-las aqui e ali, até que em determinado dia algo extraordinário aconteceu.

Estava tranquilamente sentado na poltrona da sala quando, de repente, ouço um grito vindo da cozinha e dou um pulo de susto: “AMOR! VENHA VER UMA COISA!”.

Vou até a cozinha e vejo uma trilha com centenas de formigas, ou milhares, em mão única em direção à janela. Nessa trilha, também estavam algumas que pareciam as rainhas, bem maiores que as demais, devidamente protegidas por várias outras em volta, que as escoltavam lentamente pela mesma trilha. Vi também, incontáveis formigas carregando pequenos detritos coloridos – brancos, amarelos, azuis, verdes, vermelhos –, e, só então, pudemos perceber como era o nosso hábito alimentar e o quanto de corantes artificiais ingeríamos.

Em um passado não muito distante, esse seria o momento perfeito para matar todas elas com o inseticida do tipo spray, mas apenas permitimos que elas seguissem o caminho delas, talvez motivados por uma forma rudimentar de compaixão. Enfim, estavam abandonando definitivamente a nossa residência, e, por incrível que pareça, isso não nos trouxe a felicidade tão esperada [4].

Durante esse período de reeducação de hábitos pessoais, foi necessário, primeiramente, identificar a raiz do problema, que não era externa, não era a presença delas, e sim interna, nossa forma desleixada e desatenta de lidar com os alimentos. Também, foi necessária uma boa dose de paciência e tolerância, para convivermos harmoniosamente com as formigas até que elas decidissem abandonar nossa residência, o que, de fato, não sabíamos se iria ocorrer.

Esta é apenas uma pequena demonstração de que podemos extrair sempre algo de positivo até daquelas situações que nos parecem mais insignificantes. Ao invés de fomentarmos a intolerância, buscamos lidar da melhor forma com o problema e resolvê-lo definitivamente, do nosso interior para o exterior.

Assim é a vida, que sempre nos apresenta situações que põem à prova nossa paciência e nossa tolerância [5]. Da mesma forma, sempre temos diversas alternativas para lidar com um único tipo de problema apresentado. Alguns desses meios demandam pouco esforço, mas, por outro lado, não nos trazem a solução definitiva do problema. Outros, em contrapartida, exigem grande esforço, mas nos recompensa com a solução definitiva do problema.

E então, qual dos meios escolheremos para lidar com os problemas?

Notas

[1] Quem nunca assistiu ao desenho animado mencionado e gostaria de vê-lo, ou gostaria de relembrá-lo, se assim o desejar, basta pesquisar na internet pelo título: “Pica-pau – Os Trabalhadores da Floresta”.

[2] Aquele viciado em trabalho; trabalhador compulsivo.

[3] “Não matar seres vivos”, um dos Cinco Preceitos, o mínimo exigido daquele que se considera budista.

[4] Não se pode encontrar a felicidade verdadeira em fatores externos, essa felicidade é precária e passageira. O tema é melhor desenvolvido no seguinte artigo: O Budismo e a Verdadeira Felicidade.

[5] Essa é a Primeira das Quatro Nobres Verdades do budismo: o sofrimento. O simples fato de vivermos neste mundo é suficiente para que sejamos expostos a incontáveis situações que põem à prova nossas virtudes e nos provocam sofrimento.

Última revisão: 26 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.