Podemos Aprender Até Com As Situações Mais Insignificantes

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Quem se lembra daquele desenho animado do Pica-pau [1], em que os animais da floresta trabalhavam incansavelmente para abastecer suas despensas e se preparavam para o inverno, enquanto que o Pica-pau, despreocupado, apenas vivia o momento presente, mas sem qualquer responsabilidade?

Entre aquelas criaturas trabalhadoras, a formiga merece destaque. Incansável, workaholic [2], talvez acumuladora compulsiva. O problema é que essa pequena criatura, às vezes, demonstra toda sua eficiência não lá fora, mas no conforto do nosso lar, e, quando percebemos, já estamos repartindo nossa comida com elas.

Aplicamos inseticidas em seus esconderijos, que se mostram ineficientes a longo prazo, descobrimos novos instrumentos de extermínio em massa, como aquele gel que as atrai para o “último banquete”, mas todos esses meios falham no seu objetivo, que é o de expulsá-las da nossa residência.

Até ficamos satisfeitos por um tempo, mas logo vemos uma andando aqui, outra andando ali, e então descobrimos mais uma trilha delas. No final, toda aquela matança fora em vão.

Além de demonstrarmos total descaso pela vida dos outros seres, não paramos para refletir sobre o problema, não atacamos a raiz do problema, que não é a presença delas, mas sim a nossa casa, que não se mantém limpa devido aos nossos hábitos.

O budismo nos ensina que não devemos tirar a vida dos outros seres [3], pelo simples fato de que todas as criaturas desejam viver e lutam pelas suas respectivas vidas, não apenas nós seres humanos.

A seguir, descrevo como o problema com as formigas foi resolvido, sem a necessidade de continuar exterminando-as.

Primeiramente, reconhecemos que o problema não era a presença delas, e sim nossos hábitos, meus e os da minha esposa. Jogávamos frequentemente resíduos de bolos e outros doces na lixeira da cozinha e demorávamos para substituir o lixo; acumulávamos embalagens vazias sobre a pia, para posterior separação e reciclagem, e alguns desses recipientes eram fontes de açúcar; repartíamos bolos sem muita atenção e o farelo caia sobre a bancada e sobre o chão; comíamos sem muita atenção e, novamente, deixávamos resíduos por onde quer que passássemos.

Como parte do plano de contingência, continuei utilizando o inseticida do tipo spray, mas sem aplicar sobre elas ou sobre o esconderijo delas, mas dentro da lixeira, como forma de impedir que continuasse a ser uma fonte de alimentos para as formigas, e, assim, elas não mais retornaram à lixeira.

Passamos a lavar, sem muito desperdício de água, as embalagens vazias sobre a pia para tirar o excesso de açúcar, até que pudessem ser ensacadas e separadas do lixo orgânico. As formigas ainda passeavam sobre a pia, mas apenas para beber água, não mais para se alimentar.

Desenvolvemos o hábito de maior atenção ao manusearmos biscoitos, bolos e outras fontes de açúcar. Dessa forma, a presença das formigas pela casa diminuiu consideravelmente, mas ainda era possível vê-las aqui e ali, até que em determinado dia algo extraordinário aconteceu.

Estava tranquilamente sentado na poltrona da sala quando, de repente, ouço um grito vindo da cozinha e dou um pulo de susto: “AMOR! VENHA VER UMA COISA!”.

Vou até a cozinha e vejo uma trilha com centenas de formigas, ou milhares, em mão única em direção à janela. Nessa trilha, também estavam algumas que pareciam as rainhas, bem maiores que as demais, devidamente protegidas por várias outras em volta, que as escoltavam lentamente pela mesma trilha. Vi também, incontáveis formigas carregando pequenos detritos coloridos – brancos, amarelos, azuis, verdes, vermelhos –, e, só então, pudemos perceber como era o nosso hábito alimentar e o quanto de corantes artificiais ingeríamos.

Em um passado não muito distante, esse seria o momento perfeito para matar todas elas com o inseticida do tipo spray, mas apenas permitimos que elas seguissem o caminho delas, talvez motivados por uma forma rudimentar de compaixão. Enfim, estavam abandonando definitivamente a nossa residência, e, por incrível que pareça, isso não nos trouxe a felicidade tão esperada [4].

Durante esse período de reeducação de hábitos pessoais, foi necessário, primeiramente, identificar a raiz do problema, que não era externa, não era a presença delas, e sim interna, nossa forma desleixada e desatenta de lidar com os alimentos. Também, foi necessária uma boa dose de paciência e tolerância, para convivermos harmoniosamente com as formigas até que elas decidissem abandonar nossa residência, o que, de fato, não sabíamos se iria ocorrer.

Esta é apenas uma pequena demonstração de que podemos extrair sempre algo de positivo até daquelas situações que nos parecem mais insignificantes. Ao invés de fomentarmos a intolerância, buscamos lidar da melhor forma com o problema e resolvê-lo definitivamente, do nosso interior para o exterior.

Assim é a vida, que sempre nos apresenta situações que põem à prova nossa paciência e nossa tolerância [5]. Da mesma forma, sempre temos diversas alternativas para lidar com um único tipo de problema apresentado. Alguns desses meios demandam pouco esforço, mas, por outro lado, não nos trazem a solução definitiva do problema. Outros, em contrapartida, exigem grande esforço, mas nos recompensa com a solução definitiva do problema.

E então, qual dos meios escolheremos para lidar com os problemas?

Notas

[1] Quem nunca assistiu ao desenho animado mencionado e gostaria de vê-lo, ou gostaria de relembrá-lo, se assim o desejar, basta pesquisar na internet pelo título: “Pica-pau – Os Trabalhadores da Floresta”.

[2] Aquele viciado em trabalho; trabalhador compulsivo.

[3] “Não matar seres vivos”, um dos Cinco Preceitos, o mínimo exigido daquele que se considera budista.

[4] Não se pode encontrar a felicidade verdadeira em fatores externos, essa felicidade é precária e passageira. O tema é melhor desenvolvido no seguinte artigo: O Budismo e a Verdadeira Felicidade.

[5] Essa é a Primeira das Quatro Nobres Verdades do budismo: o sofrimento. O simples fato de vivermos neste mundo é suficiente para que sejamos expostos a incontáveis situações que põem à prova nossas virtudes e nos provocam sofrimento.

Última revisão: 26 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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A Tolerância e o Equilíbrio Emocional

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Conciliar a vida em sociedade com o controle da mente pode ser uma tarefa árdua. Se fizermos uma pequena pausa para uma retrospectiva do dia, perceberemos que já acordamos contrariados. Nosso desejo era o de permanecer dormindo no conforto da nossa cama, mas o despertador, merecedor desse nome, nos fez despertar para a realidade, a realidade de uma vida repleta de tarefas e responsabilidades.

Nesse vaivém da vida, somos obrigados a aceitar algumas situações que nos provocam sofrimento, e, tendemos a evitar aquelas em que temos essa possibilidade de escolha, sem investigarmos o porquê do desequilíbrio emocional causado por essas situações.

Assim, esforçamo-nos para a manutenção de um ego aparentemente inabalável. Mas, qual o problema em agirmos assim? O sofrimento é uma coisa ruim, certo? Certo. Então, evitando a situação que provoca esse sentimento nossa vida será mais feliz, certo? Não é bem assim.

Quando evitamos uma situação que nos causa desconforto, na verdade, não estamos aprendendo a lidar melhor com ela, não estamos investigando a origem do sofrimento [1]. Conseguimos desviar daquela situação incômoda, mas logo vem outra e em seguida outra, e, quando percebemos, estamos sofrendo antes mesmo delas aparecerem, temos medo de que algo interfira na nossa aparente tranquilidade, na nossa aparente felicidade.

Contudo, o budismo nos ensina que essas situações continuarão surgindo, pois essa é a natureza do mundo [2], e, o sofrimento, não vem acompanhado dessas situações, é provocado pelo nosso eu, pelo nosso ego, na medida em que desejamos algo que não pode ser encontrado neste mundo, a permanência. Desejamos a estabilidade em um mundo instável, desejamos a continuidade em um mundo em que tudo surge, se transforma e desaparece.

Somente quando compreendemos a natureza como ela é [3], damos um passo em direção ao fim do sofrimento e enxergamos aquelas situações indesejáveis, outrora danosas, como fundamentais para exercitarmos nosso entendimento da realidade e desenvolvermos nossa tolerância.

Acho que todos já ouvimos falar desse tipo de pessoa: “fulano é ótima companhia para sair, mas para trabalhar…”. Esse tipo de pessoa, na verdade, é mais comum do que se imagina, talvez sejamos assim, mas nosso ego não nos deixa admitir isso.

Ajahn Chah, um grande mestre do budismo Theravada, dizia algo mais ou menos assim: “se você não consegue meditar na cidade, não vai ser na floresta que vai conseguir” [4]. Significa que, se a pessoa não é capaz de manter a concentração com os barulhos da cidade, não vai ser no aparente silêncio da floresta que ela vai conseguir, uma vez que os barulhos da floresta também irão prejudicar sua concentração, como o do vento, o das folhas caindo, o do estalar das árvores, o dos pássaros, o dos grilos, o dos sapos, etc.

Utilizando os exemplos acima como analogia, se não enfrentarmos as situações que nos causam sofrimento, como iremos aprender a lidar com elas? Como nos livraremos dos seus efeitos se não investigarmos sua origem?

Quando surgir uma dessas situações, devemos, antes de tudo, antes de falar ou agir, permanecer em silêncio e questionar mentalmente: porque estou reagindo dessa forma? Pelo simples fato de fazermos esse questionamento interno, veremos que aquele sentimento desagradável perderá força, pela simples razão de que não há qualquer substancialidade nele, não existe por si só, foi construído na nossa própria mente.

Quando a mente questiona uma construção dela mesma, não há como sustentar algo sem qualquer substancialidade e o incômodo vai, aos poucos, desaparecendo, sem que para isso tenhamos que recorrer a qualquer auxílio externo. A ajuda reside dentro de nós, apenas não compreendemos isso devido a uma vida inteira voltada para o exterior, uma vida inteira de busca por respostas onde elas não podem ser encontradas.

É claro que a paz, a tranquilidade, a felicidade verdadeira, só podem ser percebidas por aquelas pessoas que cultivam estados mentais hábeis [5], em benefício de si próprias e dos outros seres. Não se pode experimentar sentimentos nobres se prejudicamos a nós mesmos e aos outros seres.

Assim, não é fugindo dos problemas que aprenderemos a lidar melhor com eles. Se não aceitamos as situações que a vida nos apresenta, como desenvolveremos nossa tolerância e manteremos nosso equilíbrio emocional? E o que fazer quando necessitarmos da tolerância alheia se não estamos cultivando-a?

As situações consideradas adversas não trazem, por si só, qualquer sentimento de felicidade ou sofrimento. Essa construção ocorre na nossa mente, de acordo com as expectativas que criamos e sem considerarmos que no mundo impera a lei da impermanência, assim como em todo o universo. Todos os fenômenos da natureza, sejam aqueles externos, sejam aqueles que se passam na nossa própria mente, surgem, se transformam e desaparecem.

Se continuarmos a eliminar as situações que nos causam desconforto, na verdade, nos identificaremos cada vez mais com aquela pessoa agradável para os momentos agradáveis, desagradável para os momentos desagradáveis, uma vez que não desenvolveremos habilidades para lidar com as mudanças que fazem parte deste mundo.

Se continuarmos nesse caminho equivocado, até as pequenas coisas serão causadoras de desequilíbrio e desviarão nossa atenção.

Em contrapartida, apenas com o conhecimento da realidade como ela realmente é, sabendo que é o ego quem atribui valoração às situações enfrentadas no nosso dia a dia, poderemos ser mais tolerantes e manteremos nosso equilíbrio emocional.

Anexos

Abaixo, compartilho trechos dos suttas [6] que serviram de inspiração para este breve artigo:

Sattajatila Sutta, do Samyutta Nikaya [7]:

É vivendo junto com uma pessoa que a sua virtude pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É lidando com uma pessoa que a sua pureza pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É através da adversidade que a tolerância de uma pessoa pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É através da discussão que o (sic) sabedoria de uma pessoa pode ser conhecido (sic) e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.

Kakacupama Sutta, do Majjhima Nikaya [8]:

Antigamente, bhikkhus, aqui mesmo em Savatthi havia uma dona de casa chamada Vedehika. E um bom relato sobre a Senhora Vedehika havia se espalhado: ‘A Senhora Vedehika é boa, a Senhora Vedehika é gentil, a Senhora Vedehika é pacífica.’ Agora a Senhora Vedehika tinha uma empregada chamada Kali, que era destra, ágil e perfeita no seu trabalho. A empregada Kali pensou: ‘Um bom relato sobre a minha senhora tem se espalhado. Como será isso, embora ela não demonstre raiva, a raiva está na verdade presente nela ou está ausente? Ou será que é apenas devido ao meu trabalho perfeito que a minha senhora não demonstra a raiva, mas a raiva, no entanto, está na verdade presente nela? E se eu testasse a minha senhora.’
Assim a empregada Kali se levantou mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou tão tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta tão tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e olhou com cara feia. Então a empregada Kali pensou: ‘O fato é que, apesar da minha senhora não demonstrar raiva, a raiva ainda está na verdade presente nela, não ausente; e é apenas devido ao meu trabalho perfeito que a minha senhora não demonstra raiva, que na verdade está presente nela, não ausente. E se eu testasse a minha senhora um pouco mais.’
Assim a empregada Kali se levantou ainda mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou ainda mais tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta ainda mais tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e disse palavras de desaprovação. Então a empregada Kali pensou: ‘O fato é que, apesar da minha senhora não demonstrar raiva, a raiva ainda está na verdade presente nela, não ausente. E se eu testasse a minha senhora um pouco mais.’
Assim a empregada Kali se levantou ainda mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou ainda mais tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta ainda mais tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e tomou um rolo para massa e golpeou Kali na cabeça, cortando-a.
Então a empregada Kali, com o sangue jorrando da cabeça cortada, denunciou a sua senhora para os vizinhos: ‘Vejam, senhoras, a obra da bondosa senhora! Vejam, senhoras, a obra da gentil senhora! Vejam, senhoras, a obra da pacífica senhora! Como ela pode ficar furiosa e irritada com a sua única empregada por ela se levantar mais tarde? Como ela pode agarrar um rolo de massa, golpeá-la na cabeça e cortá-la?’ Então mais tarde um relato ruim sobre a Senhora Vedehika havia se espalhado: ‘A Senhora Vedehika é grosseira … é violenta … é cruel.’
Da mesma forma, bhikkhus, um bhikkhu é extremamente bom, extremamente gentil, extremamente pacífico, contanto que a linguagem desagradável não o toque. Mas é quando a linguagem desagradável o toca que se pode reconhecer se aquele bhikkhu é realmente bom, gentil e pacífico. Eu não digo que um bhikkhu seja fácil de ser censurado se ele for fácil de ser censurado e aceitar a censura apenas com o propósito de obter mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos. Por que isso?
Porque esse bhikkhu não é fácil de ser censurado e nem aceita a censura quando ele não obtém mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos. Mas quando um bhikkhu é fácil de ser censurado e aceita a censura porque ele honra, respeita e reverencia o Dhamma, eu digo que ele é fácil de ser censurado. Portanto, bhikkhus, vocês devem treinar dessa forma: ‘Nós seremos fáceis de ser censurados e aceitaremos a censura porque nós honramos, respeitamos e reverenciamos o Dhamma.’ Assim é como vocês deveriam treinar, bhikkhus.

Notas

[1] A origem do sofrimento é a segunda das Quatro Nobres Verdades. O desejo pelas formas visuais, pelos sons, aromas, sabores, pelas sensações corporais e pelos objetos mentais; o desejo por ser e o desejo por não ser.

[2] O sofrimento é a primeira das Quatro Nobres Verdades, um ensinamento que nos alerta para a realidade, cujo objetivo é o de demonstrar que podemos encontrar a felicidade verdadeira, aquela que reside dentro de nós, não aquela exterior, frágil e passageira.

[3] Para a compreensão dos ensinamentos do Buda é importante primeiro compreender as Três Características da Existência: impermanência ou transitoriedade; sofrimento ou insatisfatoriedade; e, não-eu ou impessoalidade.

[4] Prometo encontrar a fonte em que Ajahn Chah disse isso e incluir no menu “Biblioteca” para consulta.

[5] Para a definição de “estados mentais hábeis”, podemos utilizar o ensinamento do kamma – carma saudável. Três ações ou carmas saudáveis do corpo: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa. Quatro ações ou carmas saudáveis da fala: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma. Três ações ou carmas saudáveis da mente: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades. Para mais informações, recomendo a leitura do artigo A Meditação e o Mosquito: O Que Aprendi Sobre Concentração e Virtude.

[6] Os suttas são os ensinamentos de extensão curta, média ou longa atribuídos ao Buda. Foram inicialmente transmitidos pela tradição oral e, posteriormente, escritos em páli, um antigo idioma da Índia.

[7] Esse trecho é a resposta do Buda ao rei Pasenadi de Kosala, que disse, como forma de pôr à prova a percepção do Buda, que seus espiões disfarçados de ascetas – aquela pessoa que abandona a vida social em busca da perfeição espiritual – eram homens santos. Após a revelação da verdade pelo rei, o Buda ainda acrescentou: “Um homem não é conhecido com facilidade pela forma externa nem se deve confiar numa rápida avaliação, pois com a aparência de bem controlados homens descontrolados se apresentam neste mundo. Tal como um brinco falso feito de argila, tal como uma moeda de bronze banhada a ouro, alguns se apresentam disfarçados: impuros no íntimo, belos no exterior.”. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNIII.11.php >. Acesso em 13 jun. 2017.

[8] Esse trecho é uma história citada pelo Buda, com o propósito de demonstrar a seus discípulos que eles deveriam sempre manter o controle da mente, ainda que fossem insultados ou presenciassem alguma outra pessoa sendo insultada. O Buda ainda acrescenta mais à frente: “Bhikkhus, existem esses cinco tipos de linguagem que alguém pode usar ao se dirigirem a vocês: a fala dele poderá ser no momento adequado ou inadequado, verdadeira ou falsa, gentil ou grosseira, conectada com o benéfico ou com o prejudicial, dita com a mente cheia de amor bondade ou com raiva. Nesses casos, bhikkhus, assim é como vocês deveriam treinar: ‘Nossas mentes não serão afetadas e nós não diremos palavras ruins; nós permaneceremos compassivos pelo bem-estar dele, com a mente plena de amor bondade, sem raiva. Permaneceremos permeando aquela pessoa com a mente imbuída de amor bondade e começando com ela, permaneceremos permeando todo o mundo com a mente imbuída de amor bondade, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade.’ Assim é como vocês deveriam treinar, bhikkhus.”. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN21.php >. Acesso em 13 jun. 2017.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
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O Nobre Caminho Óctuplo

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São os oito passos necessários para a libertação de todo o sofrimento, e assim, não mais retornar ao samsara, o ciclo de renascimentos [1].

É um grande desafio até para os monges, quanto mais para os praticantes leigos que vivem em sociedade, mas vale o esforço para colocá-los em prática.

O primeiro desses passos é o entendimento correto, entender as Quatro Nobres Verdades;

O segundo passo é o cultivo do pensamento correto, o pensamento de renúncia ou desapego, o pensamento da generosidade, o pensamento de metta (amor e bondade), o pensamento da compaixão;

O terceiro passo é a palavra correta, a palavra amigável, a palavra que une as pessoas, a verdade;

O quarto passo é a ação correta, que para os budistas leigos é a obediência aos Cinco Preceitos;

O quinto passo é o modo de vida correto que é a condução da vida em sociedade com honestidade, abstendo-se de atividades comerciais ou profissionais que causem prejuízo a outros seres vivos;

O sexto passo é o esforço correto, que é identificar quando um pensamento prejudicial surge na mente e substituí-lo por um pensamento benéfico, e assim, com a prática, impedir totalmente que o pensamento prejudicial floresça, que é o objetivo final deste passo;

O sétimo passo é a atenção correta ou atenção plena correta, que é desenvolvida por meio da meditação, mas deve ser estendida durante todo o período do dia e, após determinado nível de prática, também durante a noite;

O oitavo passo é a concentração correta, ou seja, o resultado da prática satisfatória da meditação, os quatro jhanas, que são os estágios de absorção mental.

No Magga-vibhanga Sutta, do Samyutta Nikaya, o tema do Nobre Caminho Óctuplo é abordado pelo Buda em seu discurso [2]:

Em Savatthi. “Bhikkhus, eu ensinarei e analisarei para vocês o Nobre Caminho Óctuplo. Ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer.” – “Sim, venerável senhor,” os bhikkhus responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“E qual, bhikkhus, é o Nobre Caminho Óctuplo? Entendimento Correto, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correta, Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta.
“E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.
E o que é pensamento correto? O pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto.”
“E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta.”
“E o que é ação correta? Abster-se de tirar a vida de outros seres, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta.”
“E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto.”
“E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto.”
“E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (ii) Ele permanece contemplando as sensações como sensações – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iii) Ele permanece contemplando a mente como mente – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iv) Ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.
“E o que é concentração correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ (iv) Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentração correta.”

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXLV.8.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
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As Quatro Nobres Verdades

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Introdução

Nossa vida é uma eterna busca pela felicidade e, quando pensamos tê-la encontrado, ocorrem situações que a colocam em segundo plano. Então, retomamos a busca pela felicidade. Não é assim que acontece?

Isso acontece porque buscamos a felicidade naquilo que o mundo tem a nos oferecer, buscamos externamente, contudo, a felicidade verdadeira já está dentro de nós. Essa felicidade exterior é ilusória e frágil, não dura muito, não nos satisfaz. Por outro lado, a felicidade verdadeira, aquela interior, é revelada quando abrimos mão do desejo: o desejo de ser, o desejo de ter e o desejo de permanecer. Revelada quando nos contentamos com aquilo que somos e aquilo que temos, e quando não mais tememos as mudanças, que fazem parte deste mundo.

O ensinamento das Quatro Nobres Verdades é a essência do budismo e a sua função é a de nos mostrar a realidade para que possamos enxergar o mundo como ele realmente é. Um mundo repleto de situações que podem nos trazer sofrimento se não soubermos lidar com elas e outras que nos trarão sofrimento de qualquer forma.

Ao final, no entanto, nos ensina o caminho para a completa libertação de todo o sofrimento, à libertação do samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1].

1. A Primeira Nobre Verdade: o sofrimento

Em um primeiro contato com o budismo a Primeira Nobre Verdade pode nos causar uma sensação incômoda, pois aquele pensamento que tínhamos até então, o de que poderíamos ser felizes da maneira como vivíamos, é facilmente abalado.

A Primeira Nobre Verdade nos mostra que o simples fato de nascer neste mundo já é um ato de sofrimento, e assim permanece até o último dia de nossas vidas, uma vez que lidamos com incontáveis e recorrentes situações adversas.

Ninguém melhor para explicar a Primeira Nobre Verdade que o próprio Buda, que o faz com a clareza habitual no Mahasatipatthana Sutta, do Digha Nikaya [2]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade do sofrimento? O nascimento é sofrimento; o envelhecimento é sofrimento; a morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.
“E o que, amigos, é nascimento? O nascimento dos seres nas várias classes de seres, o próximo nascimento, o estabelecimento [num ventre], a geração, a manifestação dos agregados, a obtenção das bases para contato – a isto se denomina nascimento.
“E o que, amigos, é o envelhecimento? O envelhecimento dos seres nas várias categorias de seres, a sua idade avançada, os dentes quebradiços, os cabelos grisalhos, a pele enrugada, o declínio da vida, o enfraquecimento das faculdades – a isto se denomina envelhecimento.
“E o que, amigos, é a morte? O falecimento de seres nas várias categorias de seres, a sua morte, a dissolução, o desaparecimento, o morrer, a finalização do tempo, a dissolução dos agregados, o cadáver descartado – a isto de (sic) denomina morte.
“E o que, amigos, é a tristeza? A tristeza, entristecimento, sofrimento, tristeza interior, arrependimento interior, de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina tristeza.
“E o que, amigos, é a lamentação? O pranto e o lamento, chorar e lamentar, o choro e a lamentação de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina lamentação.
“E o que, amigos, é a dor? Dor no corpo, desconforto corporal, a sensação dolorosa e desconfortável que surge do contato corporal – a isto se denomina dor.
“E o que, amigos, é a angústia? Dor mental, desconforto mental, a sensação dolorosa e desconfortável que surge do contato mental – a isto se denomina angústia.
“E o que, amigos, é o desespero? A confusão e o desespero, a tribulação e a desesperação de alguém que sofreu alguma desgraça ou que está afetado por alguma situação dolorosa – a isto se denomina desespero.
“E o que, amigos, é ‘não obter o que se deseja é sofrimento’? Para os seres sujeitos ao nascimento surge o desejo: ‘Ah, que nós não estivéssemos sujeitos ao nascimento! Que o nascimento não viesse para nós!’ Mas isto não pode ser obtido pelo desejo e não obter o que se deseja é sofrimento. Para os seres sujeitos ao envelhecimento … sujeitos à enfermidade … sujeitos à morte … sujeitos à tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero, surge o desejo: ‘Ah, que nós não estivéssemos sujeitos à tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero! Que a tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero não surjam para nós!’ Mas isto não pode ser obtido pelo desejo e não obter o que se deseja é sofrimento.
“E o que, amigos são os cinco agregados influenciados pelo apego que, em resumo, são sofrimento? Eles são: o agregado da forma material influenciado pelo apego, o agregado da sensação influenciado pelo apego, o agregado da percepção influenciado pelo apego, o agregado das formações volitivas influenciado pelo apego e o agregado da consciência influenciado pelo apego. Esses são os cinco agregados influenciados pelo apego que, em resumo, são sofrimento. A isto se denomina a nobre verdade do sofrimento.

2. A Segunda Nobre Verdade: a origem do sofrimento

A origem do sofrimento é o desejo. O desejo pelos prazeres sensoriais (formas visuais, sons, aromas, sabores, sensações corporais e objetos mentais), o desejo por ser e o desejo por não ser.

Quando se deseja algo, há cobiça, e quando esse objeto do desejo é conquistado, há prazer, mas apenas superficial e temporário. Uma vez na posse do objeto do desejo, surge o sofrimento ao pensar que se pode perder o que foi conquistado ou quando efetivamente se perde. Da mesma forma, quando não se conquista o que se deseja, o que é cobiçado, surge o sofrimento.

Continuamos com a explicação de nosso professor maior [3]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade da origem do sofrimento? É o desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir.
“E onde surge e se estabelece esse desejo? Qualquer coisa no mundo que seja cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“E o que no mundo é cativante e tentador? O olho no mundo é cativante e tentador. O ouvido … O nariz … A língua … O corpo … A mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo. Formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo são cativantes e tentadores, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Consciência no olho, consciência no ouvido, consciência no nariz, consciência na língua, consciência no corpo, consciência na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Sensação tendo como condição o contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Percepção de formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Intenção por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Desejo por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Pensamento aplicado às formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.
“Pensamento sustentado nas formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo. A isto se denomina a nobre verdade da origem do sofrimento.

3. A Terceira Nobre Verdade: a cessação do sofrimento

Aprendemos quais são as formas de sofrimento e que o desejo é o responsável por cultivá-las. A cessação do sofrimento, portanto, é o abandono desse desejo. Nesse sentido, o Buda nos ensina a identificá-lo para que possamos abandoná-lo [4]:

“E o que, amigos, é a nobre verdade da cessação do sofrimento? É o desaparecimento e cessação sem deixar nenhum vestígio daquele mesmo desejo, abrir mão, descartar, libertar-se, despegar desse mesmo desejo. E como ocorre o abandono desse desejo, como ocorre a sua cessação?
“Qualquer coisa no mundo que seja cativante e tentadora, nisso ocorre a cessação. E o que no mundo é cativante e tentador. O ouvido … O nariz … A língua … O corpo … A mente no mundo é cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo. Formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo são cativantes e tentadores, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Consciência no olho, consciência no ouvido, consciência no nariz, consciência na língua, consciência no corpo, consciência na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Sensação tendo como condição o contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, do contato na mente no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Percepção de formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Intenção por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Desejo por formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Pensamento aplicado às formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação.
“Pensamento sustentado nas formas, sons, aromas, sabores, tangíveis, objetos mentais no mundo é cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessação. A isto se denomina a nobre verdade da cessação do sofrimento.

4. A Quarta Nobre Verdade: o caminho que conduz à cessação do sofrimento

Esse é o objetivo do ensinamento das Quatro Nobres Verdades, nos mostrar qual é o caminho para o abandono do desejo e a libertação de todo o sofrimento, que é o Nobre Caminho Óctuplo.

Notas

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2], [3], [4] Fonte: Acesso ao Insight. < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN22.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
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O Budismo e a Verdadeira Felicidade

 

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Muita coisa mudou desde que o Buda atingiu a iluminação [1] e nos deixou o legado de inúmeros textos, com preciosos ensinamentos, denominados suttas [2], há mais de dois mil e quinhentos anos atrás.

De lá para cá, esse conjunto de ensinamentos migrou de região para região, e o contato com diferentes culturas, inevitavelmente, fez com que o budismo se dividisse em diferentes linhas de pensamento.

Há o budismo tradicional, aquele baseado unicamente nas escrituras atribuídas ao Buda e na sua verdade revelada; há o budismo que segue a linha esotérica, cuja iniciação é necessária para o exercício de determinadas práticas, o qual utiliza a entoação de mantras e a visualização de deidades [3] como forma de auxílio à busca pela iluminação; há o budismo com ênfase na meditação, e não tanto no estudo das escrituras; entre outros.

Enfim, para cada tipo de pessoa parece existir um tipo de budismo a ser indicado. Contudo, seja qual for a tradição a ser adotada, a essência sempre estará presente, com mais ênfase ou menos ênfase, dependendo da linha de pensamento em que é orientado, mas estará lá, presente e acessível para quem desejar investigar a realidade.

Essa essência é o ensinamento das Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho para a cessação do sofrimento.

Embora todos esses quatro elementos contenham o termo “sofrimento”, o que se busca é a libertação desse estado mental prejudicial e o cultivo da felicidade verdadeira, aquela adormecida em nossa própria mente, não aquela encontrada no que a sociedade tem a nos oferecer, a qual chamaremos de felicidade ilusória, a felicidade frágil e passageira.

O que acontece, na realidade, é que os conceitos de felicidade e sofrimento estão invertidos na nossa mente, o que pensamos que nos trará felicidade, na verdade, é a fonte de todo o sofrimento da humanidade: o desejo.

Da mesma forma, podemos pensar, equivocadamente, que sofrer é não nos tornamos o profissional bem-sucedido que pensaríamos ser; que sofrer é não ter recursos financeiros suficientes para consumir tudo aquilo que a sociedade tem a nos oferecer; que sofrer é olhar a foto de dez, vinte anos atrás e perceber que o tempo passou e que envelhecemos…

Contudo, se observarmos com sabedoria, perceberemos que a causa do sofrimento, na verdade, é o desejo pelo ser, o desejo pelo possuir, o desejo pelo permanecer…

Se tivermos determinação, até conseguiremos realizar boa parte dos nossos desejos e objetivos em nossa vida, mas sempre existirá uma parcela de imprevisibilidade pelo caminho, inerente ao mundo, vivenciada por todos nós. Compreender esse fenômeno da forma como ele é, impessoal, impermanente [4], também é de grande importância para se evitar o sofrimento. Em outras palavras, desenvolver a aceitação ao que nos é apresentado pela vida.

É comum que, equivocadamente, atribuamos à felicidade ilusória a condição de objeto de nossa busca durante toda a vida e, quando pensamos tê-la alcançado, surge um novo desejo que se sobrepõe àquela noção aparente de felicidade.

Essa felicidade precária nunca trará verdadeira e duradoura satisfação, uma vez que estamos buscando-a na fonte do sofrimento: o desejo. E continuamos a nossa busca enganosa, o nosso cultivo do desejo por “belezas para olhar, sons agradáveis para ouvir, aromas interessantes para cheirar, sabores formidáveis para experimentar, prazeres do corpo para se esbaldar” [5]; do desejo pelo ser; do desejo pelo possuir; do desejo pela permanência de sensações e experiências em um mundo em que a impermanência se faz presente em todas as coisas.

Por outro lado, a felicidade verdadeira é aquela revelada quando se abre mão de todo esse desejo, quando se percebe a natureza impermanente do mundo em que vivemos, um eterno ciclo de nascimento, envelhecimento e morte [6], e, porque não dizer, uma eterna busca pela felicidade ilusória. A felicidade verdadeira já está dentro de nós, apenas não podemos percebê-la devido ao nosso modo de vida, uma vida de busca exterior.

Esse entendimento, todavia, pode nos levar a formular a seguinte questão: é possível viver em sociedade e, ao mesmo tempo, livrar-se do sofrimento e experimentar a felicidade verdadeira? Talvez não totalmente, mas podemos minimizar consideravelmente o sofrimento e, dessa forma, experimentar a felicidade verdadeira.

A felicidade verdadeira aumenta na medida em que diminuímos o desejo. Quando diminuímos o desejo, consequentemente, o sofrimento também é reduzido. Esse, por sinal, é um bom indicativo de que estamos no caminho correto, uma vez que são fenômenos opostos. Quando um é cultivado o outro é enfraquecido e vice-versa.

Abrir mão do desejo, contudo, não é uma tarefa fácil. Significa, em suma, dizer um sonoro e alto “NÃO” para o modo de vida imposto pela sociedade, um modo de vida voltado para o consumo e estimulado desde que éramos crianças.

Obviamente que o abandono total do desejo é incompatível com a vida em sociedade, necessitamos de parte do que ela oferece até para que possamos integrá-la. O que devemos desenvolver é a noção de utilidade daquilo que nos é colocado à disposição, e, sempre que surgir o desejo, ponderar: “realmente necessitamos daquilo que a sociedade nos coloca à disposição?”.

Necessitamos de roupas para viver em sociedade, mas podemos comprar o necessário para sermos considerados pessoas equilibradas, ou seja, nem aquela que usa a mesma roupa todo dia, nem aquela que possui o guarda-roupa cheio de roupas que nunca usou. Aproveite a oportunidade para o desenvolvimento de outra virtude [7], a generosidade, e doe aquilo que não utiliza.

Necessitamos de equipamentos eletrônicos para nos comunicarmos em sociedade, mas não necessariamente os de última geração ou os modelos mais recentes. Contente-se com aquele aparelho que ainda cumpre o seu propósito.

Necessitamos de alimentos para suprir nossas necessidades básicas, mas estamos realmente consumindo aqueles alimentos necessários para a manutenção do nosso corpo? Aqueles que contém nutrientes verdadeiros?

Enfim, encontrar esse equilíbrio entre o desejo e o consumo é a solução para continuarmos vivendo em sociedade e, ao mesmo tempo, mantermos o controle da nossa mente e da nossa vida.

A sociedade sempre estará presente, nos impondo o seu modo de agir, nos transmitindo a noção de que tudo o que nos é oferecido é útil, mas, quem assumirá as consequências desse modo de vida comum somos nós.

A felicidade verdadeira aparece no momento em que percebemos que a sociedade não mais exerce esse poder de influência sobre nossos desejos. Que o consumo não é mais o nosso objetivo de vida. Ainda desejamos o que ela tem a nos oferecer, mas sob outro ponto de vista, o ponto de vista da utilidade, da necessidade, e não do consumo pelo consumo, ou da mera satisfação do desejo.

Quando praticamos esse exercício de conter os nossos desejos, gradualmente, esse poder exercido pela sociedade, outrora incontrolável, se torna mais suave e controlável e, concomitantemente, desenvolve-se um alívio, um sentimento de libertação e, posteriormente, conseguimos experimentar felicidade verdadeira, aquela proporcionada pelo abandono gradual do desejo.

Epílogo

A elaboração deste artigo foi fruto do desejo, o desejo em demonstrar que o budismo é uma mensagem de otimismo, o desejo de que as pessoas compreendam que elas buscam a felicidade onde não se pode encontrá-la. Buscam lá fora, em lugares distantes, mas esquecem de que já a possuem, internamente, adormecida transitoriamente, como a natureza de todas as coisas.

Chegará o dia em que deveremos abandoná-la também, mas, por enquanto, faz-se necessário despertá-la.

Notas

[1] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[2] Os suttas são os ensinamentos de extensão curta, média ou longa atribuídos ao Buda. Foram inicialmente transmitidos pela tradição oral e, posteriormente, escritos em páli, um antigo idioma da Índia.

[3] O conceito de deidades no budismo não está relacionado com a crença em deuses ou divindades. As deidades, na verdade, são personificações de virtudes ou ideais a serem atingidos por aqueles que pretendem alcançar a iluminação.

[4] Ver artigo: As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

[5] Esse trecho representa um elemento de estudo do budismo: “os desejos sensuais ou sensoriais”. Foi definido com tamanha precisão por Thanissaro Bhikkhu, que decidi manter o texto original. THANISSARO BHIKKHU. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 27. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[7] Não se pode avançar no caminho budista sem o desenvolvimento de virtudes, da mesma forma, não se pode obter melhores resultados na meditação se os estados mentais inábeis ainda forem cultivados. A generosidade é uma das dez perfeições, uma das dez qualidades que conduzem ao estado de um Buda. “PARAMI = PARAMITA: ‘Perfeição’. As 10 qualidades conduzindo à Budeidade: Perfeição em Dar (ou Liberalidade; dana-parami), (2) em Moralidade (sila-p.), (3) Renúncia (nekkhamma-p.), (4) Sabedoria (pañña-p.), (5) Energia (viriya-p.), (6) Paciência ou Tolerância/Suportar; (khanti-p.), (7) Fidedignidade (sacca-p.), (8) Resolução/Determinação (adhitthana-p.), (9) Bondade Amorosa (metta-p.), (10) Equanimidade (upekkha-p.).”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 136. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
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O Que é Necessário Para Se Tornar Um Budista?

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Introdução

Para que uma pessoa se considere budista não é necessário participar de qualquer cerimônia de iniciação. Contudo, o verdadeiro budista é aquele que entende e pratica. De nada adianta ser um profundo conhecedor dos discursos proferidos pelo Buda e seus ensinamentos se nada é colocado em prática. Nesse caso, estaremos diante de um estudioso do budismo e não de um budista propriamente dito.

É importante que não existam conflitos internos entre crenças ou dogmas religiosos e os elementos de estudo do budismo, que são utilizados como base para a explicação dos ensinamentos.

Como exemplo, cito o fato de o budismo considerar que fazemos parte de um ciclo de renascimentos, chamado samsara. Ou seja, a morte não é o fim de tudo, e, tampouco nos conduzirá a um local de repouso eterno. Nada é permanente na concepção budista, tudo é impermanente, temporário. Nascemos, envelhecemos e em determinado momento morreremos. Durante esse período de vida, agimos algumas vezes de forma saudável, outras vezes de forma não saudável, o que o budismo chama de kamma ou carma, e assim orientamos nossa presente vida, bem como preparamos o próximo renascimento, e posteriores.

Então, se tudo lhe pareceu estranho, de difícil compreensão ou aceitação, pode ser que o budismo não seja o caminho a seguir, nesse primeiro momento. Por outro lado, se o que foi exposto lhe pareceu razoável, este pode ser um indicativo de que vale a pena o esforço em entender e praticar os ensinamentos do Buda, e, posteriormente, confirmar por si mesmo se valeu a pena.

Basicamente, considero necessário o entendimento das Três Características da Existência (anicca – impermanência; dukkha – sofrimento; e, anatta – não-eu), das Quatro Nobres Verdades (o sofrimento; a causa do sofrimento; a cessação do sofrimento; e, o caminho que leva à cessação do sofrimento – o Nobre Caminho Óctuplo); a prática dos Cinco Preceitos (não matar seres vivos; não tomar aquilo que não foi dado; não ter comportamento sexual impróprio; não mentir; e, não consumir substâncias embriagantes que causam negligência); e, o esforço em praticar o Nobre Caminho Óctuplo (compreensão correta; pensamento correto; palavra correta; ação correta; modo de vida correto; esforço correto; atenção correta; e, concentração correta).

Adicionalmente, é comum a busca por refúgio interior na chamada Joia Tríplice: o Buda, um ser humano que atingiu a iluminação, o objetivo último do budismo, e dedicou sua vida aos ensinamentos do caminho para a libertação de todo o sofrimento; o Dhamma, a doutrina, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda; e, a Sangha, a comunidade de discípulos do Buda, responsável pela manutenção e divulgação desse conhecimento.

1. A vida do Buda

Conhecer um pouco sobre a vida do Buda nos traz sentimentos de esperança e de profunda gratidão. Esperança, pois descobrimos que o Buda, até os seus 29 anos, teve experiências de vida comuns a todos nós, como o casamento e o nascimento de seu filho. Gratidão, pois descobrimos que o Buda abriu mão de um futuro próspero e promissor para investigar as causas do sofrimento e nos mostrar o caminho para a libertação.

Segue um resumo da vida do Buda [1]:

O BUDDHA ou Iluminado – lit. Aquele que sabe ou o Desperto – é o nome honorífico conferido ao Sábio indiano, Gotama, que desvendou e proclamou ao mundo a lei da libertação, conhecida no Ocidente pelo nome de Budismo. Nasceu no Século VI a.C., em Kapilavatthu, filho do rei que na época regia o País Sakya, um principado situado na zona de fronteira com o actual Nepal. O seu nome próprio era Siddhattha e seu nome de clã, Gotama (Sânscrito: Siddhārtha Gautama). Aos 29 anos de idade, renunciou ao esplendor da sua vida principesca como herdeiro real, e tornou-se um asceta mendicante, com o propósito de descobrir uma solução para aquilo que antes havia reconhecido como um mundo de sofrimento. Depois de uma busca de seis anos sob a orientação de vários instrutores religiosos e de um período de auto-mortificação infrutífera, Siddhattha finalmente alcançou a Iluminação Perfeita (sammāsambodhi), debaixo da árvore Bodhi em Gayā (actualmente Boddh-Gayā). Seguiram-se quarenta e cinco anos de incansável ensinamento e pregação, e finalmente, no seu octogésimo ano de vida, morre em Kusinara “aquele ser não iludido que surgiu para a bênção e alegria do mundo”. O Buddha não é nem um deus nem um profeta, nem a encarnação de um deus, mas um ser humano supremo que, através do seu próprio empenho, alcançou a redenção final, a sabedoria perfeita, tornando-se “o mestre sem par de deuses e homens”. É um “Salvador” unicamente no sentido em que mostra aos homens como se salvarem a si próprios, seguindo até ao fim, na prática, o caminho percorrido e mostrado por ele. O Buddha, na sua consumada harmonia de sabedoria e compaixão, encarna o ideal universal e intemporal do homem Aperfeiçoado.

2. As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

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3. As Quatro Nobres Verdades

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4. Os Cinco Preceitos

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5. O Nobre Caminho Óctuplo

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6. A Joia Tríplice ou Triplo Refúgio

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7. Encerramento

Encerro, para reflexão, com alguns versos do Dhammapada, a obra que contém a síntese dos ensinamentos do Buda [2]:

Por muito que recite os textos sagrados, se não agir nesse sentido, o homem descuidado é como um pastor que só conta as vacas dos outros – ele não beneficia das bênçãos da vida santa.

Por pouco que recite os textos sagrados, se o homem colocar o Ensinamento em prática, abandonando a luxúria, o ódio e a ilusão, com verdadeira sabedoria e espírito livre, apegado a nada deste ou de qualquer outro mundo – ele realmente participa das bênçãos de uma vida santa.

Aquele que destrói a vida, profere mentiras, toma o que não é seu, vai ter com a esposa de outro, e é viciado em bebidas alcoólicas – tal homem desenterra a sua própria raiz mesmo neste mundo.

Aquele que se refugiou no Buddha, no Ensinamento e no Sangha, penetra com sabedoria transcendental as Quatro Nobres Verdades – o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o Nobre Caminho Óctuplo que conduz à cessação de sofrimento.

Notas

[1] MAHATHERA, Nyanatiloka. A Palavra do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 20-21. Disponível no menu “Biblioteca”.

[2] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 16, 72, 90. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
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