O Samsara

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O primeiro contato com o ar,
um grito de socorro e a difícil adaptação.
Um ponto de luz, um brilho ofuscante.
Quanto sofrimento!

De repente, tudo é novidade,
uma explosão de cores, sabores e aromas.
Incontáveis sensações, liberdade absoluta.
Quanta satisfação!

E surgem as responsabilidades,
caminhos infinitos, nenhuma orientação.
Escolhas erradas, a difícil arte de aprender.
Quanto sofrimento!

Delas, as recompensas.
A família, o profissional reconhecido,
a formação de um ego exigente.
Quanta satisfação!

E com elas, novas responsabilidades.
Cobranças pessoais, o desafio de ser tolerante,
a manutenção de um ego exigente.
Quanto sofrimento!

A colheita dos frutos da vida,
a noção do dever cumprido,
o descanso merecido do ego.
Quanta satisfação!

Sinais de um corpo cansado,
o implacável efeito do tempo,
a decepção de um ego traído.
Quanto sofrimento!

Memórias vêm e vão,
de obstáculos, realizações e aprendizados.
Uma vida intensa e bem vivida.
Quanta satisfação!

O medo do desconhecido,
a certeza de que tudo é incerto.
O momento do desapego.
Quanto sofrimento!

Ainda há tanto por fazer…
Se eu tivesse mais uma chance,
tudo seria tão diferente…
O desejo.

E o desejo se realiza,
é hora de renascer.


SAMSARA: ‘Roda de Renascimento’, lit. ‘vaguear perpétuo’, é um nome pelo qual é designado o mar da vida sempre agitadamente subindo e descendo, o símbolo desse processo contínuo e sempre renovado de nascimento, envelhecimento, sofrimento e morte. Mais precisamente colocado, Samsara é a cadeia ininterrupta das combinações dos 5 Khandhas, a qual, constantemente mudando de momento a momento segue contìnuamente (sic) uma após a outra por períodos de tempo inconcebíveis. Desse Samsara, uma simples duração vida (sic) constitui somente uma pequena e instável fração; assim, para ser capaz de compreender a primeira nobre verdade do sofrimento universal, deve se colocar o foco sobre o Samsara, sobre essa assustadora cadeia de renascimentos, e não meramente apenas uma simples duração de uma vida, a qual pode ser, é claro, algumas vezes menos dolorosa. – Cf. tilakkhana, anatta, paramatha, patisandhi.

MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 171. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 29 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

Samvega e Pasada: Porque São Importantes Para o Budista?

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Segundo os relatos históricos da vida do Buda, ao sair do palácio ele se deparou com quatro situações distintas, que, aliadas ao seu mérito acumulado de vidas anteriores, o fizeram refletir sobre a existência humana e buscar uma saída para a libertação de todo o sofrimento, ou seja, o não retorno ao samsara, o ciclo de renascimentos do budismo [1].

O primeiro sinal objeto de sua contemplação foi o encontro com um homem idoso pelo caminho e a percepção de que não havia motivo para se ver comovido pela a situação, uma vez que ele próprio estaria sujeito ao envelhecimento.

O segundo sinal objeto de sua contemplação foi o encontro com um homem doente pelo caminho e a percepção de que não havia motivo para se ver comovido pela a situação, uma vez que ele próprio estaria sujeito à doença.

O terceiro sinal objeto de sua contemplação foi o encontro com um homem morto pelo caminho e a percepção de que não havia motivo para se ver comovido pela a situação, uma vez que ele próprio estaria sujeito à morte.

Ao se deparar com essas situações; envelhecimento, doença e morte, o Buda, que em vidas passadas já estivera comprometido com a busca pela verdade, sentiu a emoção de samvega, um termo em páli [2] de difícil tradução, mas que pode ser descrito como [3]:

(…) 1) a sensação opressiva de choque, desilusão e alienação que vem com a compreensão da futilidade e do sentido vazio da vida como ela é normalmente vivida; 2) uma sensação de culpabilidade de nossa própria complacência e tolice ao nos deixar viver de forma tão cega; 3) uma sensação ansiosa de urgência na tentativa de encontrar uma forma de escapar desse ciclo sem sentido. (…)

Contudo, ainda houve um quarto sinal, o encontro com um asceta [4], com aparente satisfação, apesar do pouco que possuía, cujo propósito era o de se dedicar à busca pela verdade, sem apegos, sem desejos.

Esse último sinal, por sua vez, impediu que a emoção de samvega se transformasse em desespero, uma vez que o Buda desenvolveu a confiança necessária de que esse seria o caminho a seguir, e a certeza de que encontraria uma saída para o ciclo de envelhecimento, doença e morte, o samsara.

A essa confiança no caminho a ser seguido para se atingir o objetivo desejado, é o que podemos chamar de pasada.

Assim, percebe-se a importância da emoção denominada samvega, na medida em que atua como elemento impulsionador da busca pela verdade. Contudo, é a confiança no caminho definido pelo Buda, denominada pasada, que impede que a emoção de samvega seja de difícil controle e se transforme em desespero.

O caminho a ser seguido, no qual todo budista deve ter confiança, é o Nobre Caminho Óctuplo, assim denominado pelo Buda.

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Páli é uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Um único vocábulo em páli pode ter vários significados em uma linguagem moderna, o que torna a tradução uma tarefa difícil. É comum nos depararmos com textos budistas que já foram objeto de até três traduções: do páli para o tailandês, do tailandês para o inglês e do inglês para o português.

[3] THANISSARO BHIKKHU. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 7. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] Aquela pessoa que se afasta da vida em sociedade para se dedicar a orações, privações e flagelações, em busca da perfeição espiritual.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

A Vida é Um Contrato de Adesão

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Em uma das minhas sessões de meditação, enquanto refletia sobre os ensinamentos do Buda, mais precisamente sobre as Três Características da Existência (anicca – impermanência; dukkha – sofrimento; e, anatta – não-eu), me ocorreu que a vida é como um contrato de adesão.

O contrato de adesão é aquele em que uma das partes concorda tacitamente com as suas cláusulas, sem que tenha que manifestar sua vontade de forma expressa, ou seja, sem a necessidade de assinatura, bastando que usufrua daquilo que lhe é apresentado.

Assim, ao nos identificarmos com o modo de vida da sociedade e desejarmos aquilo que nos é apresentado, aceitamos, por ignorância, as cláusulas desse contrato, cujo prazo de vigência é o nosso tempo de vida, renovado automaticamente, na forma de renascimentos subsequentes, a chamada roda de renascimentos do budismo – samsara [1].

Se estamos plenamente satisfeitos com essa vida de altos e baixos a boa notícia é que não precisaremos fazer nada, adicionalmente, para que no momento oportuno renasçamos aqui ou em algum dos outros mundos [2], pois já aderimos ao contrato, e este é renovado automaticamente. Contudo, se desejarmos a iluminação [3], que é o objetivo último do budismo, deveremos compreender o mundo como realmente é, apenas uma ilusão que nos mantém presos ao samsara, e, em algum momento desse ciclo de incontáveis renascimentos, deveremos abrir mão do desejo e buscar um propósito maior.

Revogar esse contrato, entretanto, não é uma tarefa fácil. Não basta dizer: “Não quero renascer!”. Também não basta redigir uma carta e registrá-la no cartório com a sua assinatura informando que não deseja mais renascer neste mundo ou em qualquer outro, pois as condições para a renovação desse contrato já foram criadas.

O que podemos fazer, por enquanto, é orientar nossa vida pelo Dhamma [4], a doutrina budista, e dar um passo de cada vez em busca da iluminação, o objetivo último do budismo.

Para aqueles que desejam revogar esse contrato de renascimentos e atingir o objetivo último do budismo, a iluminação, o nibbana, o Buda mostrou o caminho, o Nobre Caminho Óctuplo.

Para reflexão [5]:

Assim como um pastor conduz o gado ao pasto com um cajado, também a velhice e a morte conduzem a força da vida dos seres (de existência em existência).

Em vão vagueei durante muitos nascimentos no saṃsāra, buscando o construtor desta casa (da vida). Repetidos nascimentos são sem dúvida sofrimento!

Ó construtor da casa, estás à vista! Não construirás esta casa de novo. Pois as tuas vigas estão quebradas e a cumeeira esmagada. Minha mente atingiu o Incondicionado; alcancei a destruição do desejo.

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Segundo o budismo, existem diversos mundos de existência. Quatro desses são chamados de mundos inferiores – apaya – e compreendem o inferno, o mundo dos demônios, o mundo dos animais e o mundo dos fantasmas famintos. Também temos o mundo dos humanos e diversos outros mundos superiores com criaturas celestiais em diferentes níveis. É importante ressaltar que a noção de inferno do budismo é diferente daquela apresentada em outras crenças, onde é considerado um castigo eterno para aqueles seres que desviaram do caminho correto. Para o budismo não há permanência eterna em qualquer dos mundos e o inferno é uma forma temporária de equilíbrio do kamma ou carma, o conjunto de nossas ações saudáveis e não saudáveis, que pode determinar onde e como renasceremos.

[3] Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana, a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[4] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[5] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 53, 60. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.