O Budismo e a Verdadeira Felicidade

 

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Muita coisa mudou desde que o Buda atingiu a iluminação [1] e nos deixou o legado de inúmeros textos, com preciosos ensinamentos, denominados suttas [2], há mais de dois mil e quinhentos anos atrás.

De lá para cá, esse conjunto de ensinamentos migrou de região para região, e o contato com diferentes culturas, inevitavelmente, fez com que o budismo se dividisse em diferentes linhas de pensamento.

Há o budismo tradicional, aquele baseado unicamente nas escrituras atribuídas ao Buda e na sua verdade revelada; há o budismo que segue a linha esotérica, cuja iniciação é necessária para o exercício de determinadas práticas, o qual utiliza a entoação de mantras e a visualização de deidades [3] como forma de auxílio à busca pela iluminação; há o budismo com ênfase na meditação, e não tanto no estudo das escrituras; entre outros.

Enfim, para cada tipo de pessoa parece existir um tipo de budismo a ser indicado. Contudo, seja qual for a tradição a ser adotada, a essência sempre estará presente, com mais ênfase ou menos ênfase, dependendo da linha de pensamento em que é orientado, mas estará lá, presente e acessível para quem desejar investigar a realidade.

Essa essência é o ensinamento das Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho para a cessação do sofrimento.

Embora todos esses quatro elementos contenham o termo “sofrimento”, o que se busca é a libertação desse estado mental prejudicial e o cultivo da felicidade verdadeira, aquela adormecida em nossa própria mente, não aquela encontrada no que a sociedade tem a nos oferecer, a qual chamaremos de felicidade ilusória, a felicidade frágil e passageira.

O que acontece, na realidade, é que os conceitos de felicidade e sofrimento estão invertidos na nossa mente, o que pensamos que nos trará felicidade, na verdade, é a fonte de todo o sofrimento da humanidade: o desejo.

Da mesma forma, podemos pensar, equivocadamente, que sofrer é não nos tornamos o profissional bem-sucedido que pensaríamos ser; que sofrer é não ter recursos financeiros suficientes para consumir tudo aquilo que a sociedade tem a nos oferecer; que sofrer é olhar a foto de dez, vinte anos atrás e perceber que o tempo passou e que envelhecemos…

Contudo, se observarmos com sabedoria, perceberemos que a causa do sofrimento, na verdade, é o desejo pelo ser, o desejo pelo possuir, o desejo pelo permanecer…

Se tivermos determinação, até conseguiremos realizar boa parte dos nossos desejos e objetivos em nossa vida, mas sempre existirá uma parcela de imprevisibilidade pelo caminho, inerente ao mundo, vivenciada por todos nós. Compreender esse fenômeno da forma como ele é, impessoal, impermanente [4], também é de grande importância para se evitar o sofrimento. Em outras palavras, desenvolver a aceitação ao que nos é apresentado pela vida.

É comum que, equivocadamente, atribuamos à felicidade ilusória a condição de objeto de nossa busca durante toda a vida e, quando pensamos tê-la alcançado, surge um novo desejo que se sobrepõe àquela noção aparente de felicidade.

Essa felicidade precária nunca trará verdadeira e duradoura satisfação, uma vez que estamos buscando-a na fonte do sofrimento: o desejo. E continuamos a nossa busca enganosa, o nosso cultivo do desejo por “belezas para olhar, sons agradáveis para ouvir, aromas interessantes para cheirar, sabores formidáveis para experimentar, prazeres do corpo para se esbaldar” [5]; do desejo pelo ser; do desejo pelo possuir; do desejo pela permanência de sensações e experiências em um mundo em que a impermanência se faz presente em todas as coisas.

Por outro lado, a felicidade verdadeira é aquela revelada quando se abre mão de todo esse desejo, quando se percebe a natureza impermanente do mundo em que vivemos, um eterno ciclo de nascimento, envelhecimento e morte [6], e, porque não dizer, uma eterna busca pela felicidade ilusória. A felicidade verdadeira já está dentro de nós, apenas não podemos percebê-la devido ao nosso modo de vida, uma vida de busca exterior.

Esse entendimento, todavia, pode nos levar a formular a seguinte questão: é possível viver em sociedade e, ao mesmo tempo, livrar-se do sofrimento e experimentar a felicidade verdadeira? Talvez não totalmente, mas podemos minimizar consideravelmente o sofrimento e, dessa forma, experimentar a felicidade verdadeira.

A felicidade verdadeira aumenta na medida em que diminuímos o desejo. Quando diminuímos o desejo, consequentemente, o sofrimento também é reduzido. Esse, por sinal, é um bom indicativo de que estamos no caminho correto, uma vez que são fenômenos opostos. Quando um é cultivado o outro é enfraquecido e vice-versa.

Abrir mão do desejo, contudo, não é uma tarefa fácil. Significa, em suma, dizer um sonoro e alto “NÃO” para o modo de vida imposto pela sociedade, um modo de vida voltado para o consumo e estimulado desde que éramos crianças.

Obviamente que o abandono total do desejo é incompatível com a vida em sociedade, necessitamos de parte do que ela oferece até para que possamos integrá-la. O que devemos desenvolver é a noção de utilidade daquilo que nos é colocado à disposição, e, sempre que surgir o desejo, ponderar: “realmente necessitamos daquilo que a sociedade nos coloca à disposição?”.

Necessitamos de roupas para viver em sociedade, mas podemos comprar o necessário para sermos considerados pessoas equilibradas, ou seja, nem aquela que usa a mesma roupa todo dia, nem aquela que possui o guarda-roupa cheio de roupas que nunca usou. Aproveite a oportunidade para o desenvolvimento de outra virtude [7], a generosidade, e doe aquilo que não utiliza.

Necessitamos de equipamentos eletrônicos para nos comunicarmos em sociedade, mas não necessariamente os de última geração ou os modelos mais recentes. Contente-se com aquele aparelho que ainda cumpre o seu propósito.

Necessitamos de alimentos para suprir nossas necessidades básicas, mas estamos realmente consumindo aqueles alimentos necessários para a manutenção do nosso corpo? Aqueles que contém nutrientes verdadeiros?

Enfim, encontrar esse equilíbrio entre o desejo e o consumo é a solução para continuarmos vivendo em sociedade e, ao mesmo tempo, mantermos o controle da nossa mente e da nossa vida.

A sociedade sempre estará presente, nos impondo o seu modo de agir, nos transmitindo a noção de que tudo o que nos é oferecido é útil, mas, quem assumirá as consequências desse modo de vida comum somos nós.

A felicidade verdadeira aparece no momento em que percebemos que a sociedade não mais exerce esse poder de influência sobre nossos desejos. Que o consumo não é mais o nosso objetivo de vida. Ainda desejamos o que ela tem a nos oferecer, mas sob outro ponto de vista, o ponto de vista da utilidade, da necessidade, e não do consumo pelo consumo, ou da mera satisfação do desejo.

Quando praticamos esse exercício de conter os nossos desejos, gradualmente, esse poder exercido pela sociedade, outrora incontrolável, se torna mais suave e controlável e, concomitantemente, desenvolve-se um alívio, um sentimento de libertação e, posteriormente, conseguimos experimentar felicidade verdadeira, aquela proporcionada pelo abandono gradual do desejo.

Epílogo

A elaboração deste artigo foi fruto do desejo, o desejo em demonstrar que o budismo é uma mensagem de otimismo, o desejo de que as pessoas compreendam que elas buscam a felicidade onde não se pode encontrá-la. Buscam lá fora, em lugares distantes, mas esquecem de que já a possuem, internamente, adormecida transitoriamente, como a natureza de todas as coisas.

Chegará o dia em que deveremos abandoná-la também, mas, por enquanto, faz-se necessário despertá-la.

Notas

[1] O Buda é considerado um ser perfeitamente iluminado, samma-sambodhi, “aquele por quem a Lei libertadora (dhamma), que estava perdida para o mundo, foi novamente descoberta, realizada e claramente proclamada para o mundo.”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 170. Disponível no menu “Biblioteca”. Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana – a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[2] Os suttas são os ensinamentos de extensão curta, média ou longa atribuídos ao Buda. Foram inicialmente transmitidos pela tradição oral e, posteriormente, escritos em páli, um antigo idioma da Índia.

[3] O conceito de deidades no budismo não está relacionado com a crença em deuses ou divindades. As deidades, na verdade, são personificações de virtudes ou ideais a serem atingidos por aqueles que pretendem alcançar a iluminação.

[4] Ver artigo: As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

[5] Esse trecho representa um elemento de estudo do budismo: “os desejos sensuais ou sensoriais”. Foi definido com tamanha precisão por Thanissaro Bhikkhu, que decidi manter o texto original. THANISSARO BHIKKHU. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 27. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[7] Não se pode avançar no caminho budista sem o desenvolvimento de virtudes, da mesma forma, não se pode obter melhores resultados na meditação se os estados mentais inábeis ainda forem cultivados. A generosidade é uma das dez perfeições, uma das dez qualidades que conduzem ao estado de um Buda. “PARAMI = PARAMITA: ‘Perfeição’. As 10 qualidades conduzindo à Budeidade: Perfeição em Dar (ou Liberalidade; dana-parami), (2) em Moralidade (sila-p.), (3) Renúncia (nekkhamma-p.), (4) Sabedoria (pañña-p.), (5) Energia (viriya-p.), (6) Paciência ou Tolerância/Suportar; (khanti-p.), (7) Fidedignidade (sacca-p.), (8) Resolução/Determinação (adhitthana-p.), (9) Bondade Amorosa (metta-p.), (10) Equanimidade (upekkha-p.).”. MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 136. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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Como Encontrar o Equilíbrio Entre a Informação e a Emoção?

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Todos os dias acessamos a internet, lemos revistas e jornais, assistimos à telejornais, ouvimos rádio – sim, ainda existem pessoas que ouvem rádio – para ver o mesmo tipo de notícia: acidentes, violência e corrupção. Você até pode dizer que não são assuntos do seu interesse, mas como despertam a atenção da maioria das pessoas, estão presentes, com destaque, em todos os meios de comunicação e, ainda que você não queira ter contato com esses temas, não terá como evitar.

Se você encontrar um jornal de dez, vinte, trinta anos atrás verá que as notícias se repetem constantemente e os mesmos temas discutidos e explorados naquela época ainda são abordados atualmente. E não digo que essa é uma particularidade brasileira, esse fenômeno pode ser claramente percebido no mundo todo, até nos países considerados mais desenvolvidos.

Por que isso ocorre? Por que esses problemas parecem não ter fim, se a sociedade está em constante transformação? Porque essa é a natureza do mundo e sempre será assim, o que deve mudar é a nossa percepção da realidade. Devemos compreender os fenômenos do mundo como eles realmente são, impessoais, não são direcionados a nós, e, impermanentes, irão passar da mesma forma abrupta como chegaram.

Quando nos colocamos como receptor de toda essa informação, indiscriminadamente, isso tem um preço: o desequilíbrio emocional. Reagimos a essas notícias, não apenas pela situação retratada, mas porque o jornalismo se esforça em introduzir uma carga dramática no conteúdo e, em algumas ocasiões, nos vemos tão envolvidos com o fato noticiado que é comum o cultivo de sentimentos prejudiciais, como o ódio.

Não importa se o ódio foi cultivado pela indignação, pela revolta daquele fato ocorrido e que você, interiormente, tenha desejado que aquilo não tivesse acontecido. O que resta no final é apenas o ódio. Não se pode extrair nada de virtuoso do ódio.

Nossa missão não é mudar o mundo, mesmo porque a nossa visão de mundo ideal é diferente da visão das outras pessoas. Não há certo ou errado, apenas diferentes pontos de vista. Um modo de vida considerado desprovido do necessário para nos satisfazer pode ser objeto de profunda satisfação e felicidade para outra pessoa. Tudo depende das necessidades que criamos e dos objetivos que estabelecemos.

Vivemos em sociedade e devemos cumprir as suas regras que, ainda que precárias, são suficientes para impedir o caos. Contudo, o controle da nossa mente depende de nós e não só podemos, como devemos diminuir a interferência da sociedade sobre ela. Nesse sentido, podemos reservar diariamente um período para reflexão interior, não nos problemas, não no passado, não no que desejamos fazer no futuro, mas no presente e no que podemos fazer hoje para cultivar estados mentais benéficos.

Esse tempo para o silêncio, para a reflexão interior, lhe trará benefícios muito maiores do que se manter em frente à televisão, à tela de um computador ou celular. Aquela informação divulgada, na maioria das vezes, é a mesma de décadas atrás, mudam apenas os agentes do fato. Ao passo que na sua mente existem habilidades até então desconhecidas, esquecidas em sua essência e que vem sendo oprimidas por esse modo de vida imposto pela sociedade.

Há uma diferença entre manter-se informado e ser o divulgador da informação. Muitas vezes, por vaidade, queremos saber os mínimos detalhes da notícia para nos destacarmos no meio social, principalmente no ambiente de trabalho. Para que isso? Que benefício real isso nos trará? Se olharmos rapidamente no final do dia um site que contenha o resumo dos acontecimentos, sem maior envolvimento, isso já não será o suficiente para que possamos participar da conversa no outro dia? Você pode até não ser o colega de trabalho mais informado, mas também não será aquele mais exaltado, pois lhe faltarão argumentos para iniciar uma discussão sobre a notícia, e isso é bom, pode acreditar!

Alienar-se é estar alheio aos acontecimentos [1], mas sob qual ponto de vista podemos fazer essa análise? Apenas sob o ponto de vista social? Alheio aos acontecimentos da sociedade? Ou também pode ser considerado alienado aquele que não sabe o que se passa na sua própria mente?

Não se pode combater as mazelas da humanidade com aversão, indignação, agressão, ódio, rancor ou qualquer outro sentimento prejudicial. Agindo assim como reação ao que a sociedade nos apresenta, só iremos prejudicar a nós mesmos e em nada contribuiremos com os demais.

Ao contrário, se pudermos enxergar a realidade como ela realmente é, não cultivarmos pensamentos prejudiciais, desenvolvermos a compaixão, a generosidade e outras virtudes, estaremos dando a nossa contribuição verdadeira à sociedade.

Que ninguém procure o defeito nos outros; que ninguém observe as omissões e acções dos outros. Mas observemos os nossos próprios actos.

Neste mundo o ódio nunca é apaziguado pelo ódio. O ódio é apaziguado unicamente através de não-ódio. Esta é uma lei eterna.

Que um homem vigie a sua mente; que controle o seu pensamento. Que abandone a má conduta da mente, e pense correctamente.

Dhammapada, versos 5, 50 e 233 [2].

[1] Significado apresentado pelo Dicionário Aurélio. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 7.0.2. O Míni Aurélio corresponde à 8a. edição, revista e atualizada, do Minidicionário Aurélio, da Língua Portuguesa, contendo mais de 30 mil verbetes. 2010.

[2] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 14, 28, 86. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 26 de maio de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

A Vida é Um Contrato de Adesão

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Em uma das minhas sessões de meditação, enquanto refletia sobre os ensinamentos do Buda, mais precisamente sobre as Três Características da Existência (anicca – impermanência; dukkha – sofrimento; e, anatta – não-eu), me ocorreu que a vida é como um contrato de adesão.

O contrato de adesão é aquele em que uma das partes concorda tacitamente com as suas cláusulas, sem que tenha que manifestar sua vontade de forma expressa, ou seja, sem a necessidade de assinatura, bastando que usufrua daquilo que lhe é apresentado.

Assim, ao nos identificarmos com o modo de vida da sociedade e desejarmos aquilo que nos é apresentado, aceitamos, por ignorância, as cláusulas desse contrato, cujo prazo de vigência é o nosso tempo de vida, renovado automaticamente, na forma de renascimentos subsequentes, a chamada roda de renascimentos do budismo – samsara [1].

Se estamos plenamente satisfeitos com essa vida de altos e baixos a boa notícia é que não precisaremos fazer nada, adicionalmente, para que no momento oportuno renasçamos aqui ou em algum dos outros mundos [2], pois já aderimos ao contrato, e este é renovado automaticamente. Contudo, se desejarmos a iluminação [3], que é o objetivo último do budismo, deveremos compreender o mundo como realmente é, apenas uma ilusão que nos mantém presos ao samsara, e, em algum momento desse ciclo de incontáveis renascimentos, deveremos abrir mão do desejo e buscar um propósito maior.

Revogar esse contrato, entretanto, não é uma tarefa fácil. Não basta dizer: “Não quero renascer!”. Também não basta redigir uma carta e registrá-la no cartório com a sua assinatura informando que não deseja mais renascer neste mundo ou em qualquer outro, pois as condições para a renovação desse contrato já foram criadas.

O que podemos fazer, por enquanto, é orientar nossa vida pelo Dhamma [4], a doutrina budista, e dar um passo de cada vez em busca da iluminação, o objetivo último do budismo.

Para aqueles que desejam revogar esse contrato de renascimentos e atingir o objetivo último do budismo, a iluminação, o nibbana, o Buda mostrou o caminho, o Nobre Caminho Óctuplo.

Para reflexão [5]:

Assim como um pastor conduz o gado ao pasto com um cajado, também a velhice e a morte conduzem a força da vida dos seres (de existência em existência).

Em vão vagueei durante muitos nascimentos no saṃsāra, buscando o construtor desta casa (da vida). Repetidos nascimentos são sem dúvida sofrimento!

Ó construtor da casa, estás à vista! Não construirás esta casa de novo. Pois as tuas vigas estão quebradas e a cumeeira esmagada. Minha mente atingiu o Incondicionado; alcancei a destruição do desejo.

[1] Samsara ou ciclo de renascimentos, é a condição na qual se encontram todos os seres que não atingiram a iluminação, o objetivo último do budismo. Pode ser entendido como um processo contínuo de renascimento, envelhecimento, morte, renascimento, envelhecimento, morte…

[2] Segundo o budismo, existem diversos mundos de existência. Quatro desses são chamados de mundos inferiores – apaya – e compreendem o inferno, o mundo dos demônios, o mundo dos animais e o mundo dos fantasmas famintos. Também temos o mundo dos humanos e diversos outros mundos superiores com criaturas celestiais em diferentes níveis. É importante ressaltar que a noção de inferno do budismo é diferente daquela apresentada em outras crenças, onde é considerado um castigo eterno para aqueles seres que desviaram do caminho correto. Para o budismo não há permanência eterna em qualquer dos mundos e o inferno é uma forma temporária de equilíbrio do kamma ou carma, o conjunto de nossas ações saudáveis e não saudáveis, que pode determinar onde e como renasceremos.

[3] Daquele ser iluminado, diz-se que alcançou nibanna – nirvana, a libertação do ciclo de renascimento, envelhecimento e morte, o samsara.

[4] Dhamma é a doutrina budista, o conjunto de ensinamentos revelados pelo Buda, até então esquecidos.

[5] BUDDHARAKKHITA, Acharya. Dhammapada: O Caminho da Sabedoria do Buddha (ed. eletrônica). Portugal: Mosteiro Budista Theravada, 2013. p. 53, 60. Disponível no menu “Biblioteca”.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
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A Sociedade, o Consumo e o Sofrimento Sob a Ótica Budista

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A sociedade em que vivemos está inteiramente baseada no consumo. É necessário consumir para mover a economia mundial, é necessário consumir para gerar empregos, é necessário consumir para produzir renda. Essa renda, por sua vez, deve ser revertida em mais consumo, e assim sustentar esse ciclo sem fim.

O resultado desse modo de vida imposto pela sociedade é o sofrimento. As pessoas sofrem, entre outros motivos, porque desejam aquilo que não possuem e porque desejam permanecer com aquilo que já possuem.

Os monges possuem mérito e determinação suficientes para o desapego de suas posses e a dedicação ao cultivo de estados mentais benéficos e ações meritórias, mas e quanto a nós? O que pode ser feito para, pelo menos, minimizar os efeitos desse rolo compressor da sociedade e cultivar um ambiente mental mais propício para a compreensão e prática dos ensinamentos do Buda?

A Segunda Nobre Verdade [1] do budismo nos diz que o sofrimento tem a sua origem no desejo, e o desejo pelo que a sociedade tem a nos oferecer é uma das causas do sofrimento. Dessa forma, se puder ser priorizada a utilidade daquilo que a sociedade nos oferece e não tanto o apelo visual, o som, o cheiro ou o sabor, o desejo e o sofrimento, que caminham lado a lado, possam ser reduzidos.

É fato que necessitamos da tecnologia para a vida em sociedade, até mesmo os monges utilizam equipamentos eletrônicos como meio de transmissão dos ensinamentos do Buda, e assim, maximizar o alcance da mensagem, mas para eles o que importa é ensinar o Dhamma, a doutrina budista. Não existe apego ao objeto, seja ele um celular, um tablet ou um notebook. A tecnologia é utilizada apenas como suporte, apenas para servir de meio para atingir um objetivo maior, apenas isso.

Hoje em dia, quase todos possuem um aparelho celular, mesmo aquelas pessoas que não gostam de falar ao telefone ou aquelas que não acompanham o progresso tecnológico, ainda que seja para utilizá-lo apenas em caso de emergência. Se pararmos para pensar, a indústria nos oferece aparelhos cada vez mais “modernos”, mas a função essencial é compartilhada por todos os modelos, sejam eles recentes ou aqueles a que chamamos “ultrapassados”.

Desejo sempre produz mais desejo, é um ciclo sem fim. O desejo de substituir aqueles equipamentos que ainda cumprem sua função por outros de diferente apelo visual só produzirá mais sofrimento. O encantamento e a aparente satisfação ao adquirir aquele modelo de última geração são temporários, pois a sociedade está baseada no consumo e logo outro fabricante lançará um produto com diferente apelo visual. Assim, aquela felicidade superficial pelo ter, pelo possuir, cede lugar à decepção e, posteriormente, ao sofrimento, uma vez que jamais será possível acompanhar o progresso tecnológico.

O objetivo da propaganda comercial não é o de transmitir uma mensagem verdadeira e sim o de divulgar uma ideia e promover sua aceitação. Dessa forma, o mercado se esforça para nos convencer de que aquele lançamento possui outras funções úteis, mas na verdade não possui. A única função útil é aquela para a qual o aparelho foi projetado, que é compartilhada por todos os modelos, sejam novos ou “ultrapassados”, todas as demais funções servem apenas para fomentar esse desejo de ter, de possuir, e, dessa forma, causar mais e mais sofrimento.

O aparelho celular foi utilizado como exemplo deste artigo, pois é o objeto de desejo da maioria das pessoas, mas esse processo de busca ilusória da satisfação por meio do desejo pode ser percebido em tudo aquilo que a sociedade nos oferece: tecnologia, sons, aromas, sabores, etc.

Notas

[1] O tema é abordado no seguinte artigo: As Quatro Nobres Verdades.

Última revisão: 17 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.