A Tolerância e o Equilíbrio Emocional

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Conciliar a vida em sociedade com o controle da mente pode ser uma tarefa árdua. Se fizermos uma pequena pausa para uma retrospectiva do dia, perceberemos que já acordamos contrariados. Nosso desejo era o de permanecer dormindo no conforto da nossa cama, mas o despertador, merecedor desse nome, nos fez despertar para a realidade, a realidade de uma vida repleta de tarefas e responsabilidades.

Nesse vaivém da vida, somos obrigados a aceitar algumas situações que nos provocam sofrimento, e, tendemos a evitar aquelas em que temos essa possibilidade de escolha, sem investigarmos o porquê do desequilíbrio emocional causado por essas situações.

Assim, esforçamo-nos para a manutenção de um ego aparentemente inabalável. Mas, qual o problema em agirmos assim? O sofrimento é uma coisa ruim, certo? Certo. Então, evitando a situação que provoca esse sentimento nossa vida será mais feliz, certo? Não é bem assim.

Quando evitamos uma situação que nos causa desconforto, na verdade, não estamos aprendendo a lidar melhor com ela, não estamos investigando a origem do sofrimento [1]. Conseguimos desviar daquela situação incômoda, mas logo vem outra e em seguida outra, e, quando percebemos, estamos sofrendo antes mesmo delas aparecerem, temos medo de que algo interfira na nossa aparente tranquilidade, na nossa aparente felicidade.

Contudo, o budismo nos ensina que essas situações continuarão surgindo, pois essa é a natureza do mundo [2], e, o sofrimento, não vem acompanhado dessas situações, é provocado pelo nosso eu, pelo nosso ego, na medida em que desejamos algo que não pode ser encontrado neste mundo, a permanência. Desejamos a estabilidade em um mundo instável, desejamos a continuidade em um mundo em que tudo surge, se transforma e desaparece.

Somente quando compreendemos a natureza como ela é [3], damos um passo em direção ao fim do sofrimento e enxergamos aquelas situações indesejáveis, outrora danosas, como fundamentais para exercitarmos nosso entendimento da realidade e desenvolvermos nossa tolerância.

Acho que todos já ouvimos falar desse tipo de pessoa: “fulano é ótima companhia para sair, mas para trabalhar…”. Esse tipo de pessoa, na verdade, é mais comum do que se imagina, talvez sejamos assim, mas nosso ego não nos deixa admitir isso.

Ajahn Chah, um grande mestre do budismo Theravada, dizia algo mais ou menos assim: “se você não consegue meditar na cidade, não vai ser na floresta que vai conseguir” [4]. Significa que, se a pessoa não é capaz de manter a concentração com os barulhos da cidade, não vai ser no aparente silêncio da floresta que ela vai conseguir, uma vez que os barulhos da floresta também irão prejudicar sua concentração, como o do vento, o das folhas caindo, o do estalar das árvores, o dos pássaros, o dos grilos, o dos sapos, etc.

Utilizando os exemplos acima como analogia, se não enfrentarmos as situações que nos causam sofrimento, como iremos aprender a lidar com elas? Como nos livraremos dos seus efeitos se não investigarmos sua origem?

Quando surgir uma dessas situações, devemos, antes de tudo, antes de falar ou agir, permanecer em silêncio e questionar mentalmente: porque estou reagindo dessa forma? Pelo simples fato de fazermos esse questionamento interno, veremos que aquele sentimento desagradável perderá força, pela simples razão de que não há qualquer substancialidade nele, não existe por si só, foi construído na nossa própria mente.

Quando a mente questiona uma construção dela mesma, não há como sustentar algo sem qualquer substancialidade e o incômodo vai, aos poucos, desaparecendo, sem que para isso tenhamos que recorrer a qualquer auxílio externo. A ajuda reside dentro de nós, apenas não compreendemos isso devido a uma vida inteira voltada para o exterior, uma vida inteira de busca por respostas onde elas não podem ser encontradas.

É claro que a paz, a tranquilidade, a felicidade verdadeira, só podem ser percebidas por aquelas pessoas que cultivam estados mentais hábeis [5], em benefício de si próprias e dos outros seres. Não se pode experimentar sentimentos nobres se prejudicamos a nós mesmos e aos outros seres.

Assim, não é fugindo dos problemas que aprenderemos a lidar melhor com eles. Se não aceitamos as situações que a vida nos apresenta, como desenvolveremos nossa tolerância e manteremos nosso equilíbrio emocional? E o que fazer quando necessitarmos da tolerância alheia se não estamos cultivando-a?

As situações consideradas adversas não trazem, por si só, qualquer sentimento de felicidade ou sofrimento. Essa construção ocorre na nossa mente, de acordo com as expectativas que criamos e sem considerarmos que no mundo impera a lei da impermanência, assim como em todo o universo. Todos os fenômenos da natureza, sejam aqueles externos, sejam aqueles que se passam na nossa própria mente, surgem, se transformam e desaparecem.

Se continuarmos a eliminar as situações que nos causam desconforto, na verdade, nos identificaremos cada vez mais com aquela pessoa agradável para os momentos agradáveis, desagradável para os momentos desagradáveis, uma vez que não desenvolveremos habilidades para lidar com as mudanças que fazem parte deste mundo.

Se continuarmos nesse caminho equivocado, até as pequenas coisas serão causadoras de desequilíbrio e desviarão nossa atenção.

Em contrapartida, apenas com o conhecimento da realidade como ela realmente é, sabendo que é o ego quem atribui valoração às situações enfrentadas no nosso dia a dia, poderemos ser mais tolerantes e manteremos nosso equilíbrio emocional.

Anexos

Abaixo, compartilho trechos dos suttas [6] que serviram de inspiração para este breve artigo:

Sattajatila Sutta, do Samyutta Nikaya [7]:

É vivendo junto com uma pessoa que a sua virtude pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É lidando com uma pessoa que a sua pureza pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É através da adversidade que a tolerância de uma pessoa pode ser conhecida e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.
É através da discussão que o (sic) sabedoria de uma pessoa pode ser conhecido (sic) e somente após um longo período de tempo, não um período curto; por alguém que seja atento, não por alguém que seja desatento; por alguém que tenha sabedoria, não por alguém que não tenha sabedoria.

Kakacupama Sutta, do Majjhima Nikaya [8]:

Antigamente, bhikkhus, aqui mesmo em Savatthi havia uma dona de casa chamada Vedehika. E um bom relato sobre a Senhora Vedehika havia se espalhado: ‘A Senhora Vedehika é boa, a Senhora Vedehika é gentil, a Senhora Vedehika é pacífica.’ Agora a Senhora Vedehika tinha uma empregada chamada Kali, que era destra, ágil e perfeita no seu trabalho. A empregada Kali pensou: ‘Um bom relato sobre a minha senhora tem se espalhado. Como será isso, embora ela não demonstre raiva, a raiva está na verdade presente nela ou está ausente? Ou será que é apenas devido ao meu trabalho perfeito que a minha senhora não demonstra a raiva, mas a raiva, no entanto, está na verdade presente nela? E se eu testasse a minha senhora.’
Assim a empregada Kali se levantou mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou tão tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta tão tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e olhou com cara feia. Então a empregada Kali pensou: ‘O fato é que, apesar da minha senhora não demonstrar raiva, a raiva ainda está na verdade presente nela, não ausente; e é apenas devido ao meu trabalho perfeito que a minha senhora não demonstra raiva, que na verdade está presente nela, não ausente. E se eu testasse a minha senhora um pouco mais.’
Assim a empregada Kali se levantou ainda mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou ainda mais tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta ainda mais tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e disse palavras de desaprovação. Então a empregada Kali pensou: ‘O fato é que, apesar da minha senhora não demonstrar raiva, a raiva ainda está na verdade presente nela, não ausente. E se eu testasse a minha senhora um pouco mais.’
Assim a empregada Kali se levantou ainda mais tarde. Então a Senhora Vedehika disse: ‘Ei, Kali!’ – ‘O que é, senhora?’ – ‘Qual é o problema, por que você se levantou ainda mais tarde?’ – ‘Não há nenhum problema, senhora.’ – ‘Não há nenhum problema, sua garota má, no entanto você levanta ainda mais tarde!’ e ela ficou furiosa e irritada e tomou um rolo para massa e golpeou Kali na cabeça, cortando-a.
Então a empregada Kali, com o sangue jorrando da cabeça cortada, denunciou a sua senhora para os vizinhos: ‘Vejam, senhoras, a obra da bondosa senhora! Vejam, senhoras, a obra da gentil senhora! Vejam, senhoras, a obra da pacífica senhora! Como ela pode ficar furiosa e irritada com a sua única empregada por ela se levantar mais tarde? Como ela pode agarrar um rolo de massa, golpeá-la na cabeça e cortá-la?’ Então mais tarde um relato ruim sobre a Senhora Vedehika havia se espalhado: ‘A Senhora Vedehika é grosseira … é violenta … é cruel.’
Da mesma forma, bhikkhus, um bhikkhu é extremamente bom, extremamente gentil, extremamente pacífico, contanto que a linguagem desagradável não o toque. Mas é quando a linguagem desagradável o toca que se pode reconhecer se aquele bhikkhu é realmente bom, gentil e pacífico. Eu não digo que um bhikkhu seja fácil de ser censurado se ele for fácil de ser censurado e aceitar a censura apenas com o propósito de obter mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos. Por que isso?
Porque esse bhikkhu não é fácil de ser censurado e nem aceita a censura quando ele não obtém mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos. Mas quando um bhikkhu é fácil de ser censurado e aceita a censura porque ele honra, respeita e reverencia o Dhamma, eu digo que ele é fácil de ser censurado. Portanto, bhikkhus, vocês devem treinar dessa forma: ‘Nós seremos fáceis de ser censurados e aceitaremos a censura porque nós honramos, respeitamos e reverenciamos o Dhamma.’ Assim é como vocês deveriam treinar, bhikkhus.

Notas

[1] A origem do sofrimento é a segunda das Quatro Nobres Verdades. O desejo pelas formas visuais, pelos sons, aromas, sabores, pelas sensações corporais e pelos objetos mentais; o desejo por ser e o desejo por não ser.

[2] O sofrimento é a primeira das Quatro Nobres Verdades, um ensinamento que nos alerta para a realidade, cujo objetivo é o de demonstrar que podemos encontrar a felicidade verdadeira, aquela que reside dentro de nós, não aquela exterior, frágil e passageira.

[3] Para a compreensão dos ensinamentos do Buda é importante primeiro compreender as Três Características da Existência: impermanência ou transitoriedade; sofrimento ou insatisfatoriedade; e, não-eu ou impessoalidade.

[4] Prometo encontrar a fonte em que Ajahn Chah disse isso e incluir no menu “Biblioteca” para consulta.

[5] Para a definição de “estados mentais hábeis”, podemos utilizar o ensinamento do kamma – carma saudável. Três ações ou carmas saudáveis do corpo: proteger a vida, não só a dos seres humanos, mas também a dos demais seres vivos menos privilegiados; praticar a generosidade; e, desenvolver o contentamento e o respeito à outra pessoa. Quatro ações ou carmas saudáveis da fala: a linguagem verdadeira, confiável; a linguagem conciliadora, que une as pessoas; a linguagem gentil, que agrada as pessoas; e, a linguagem oportuna, sábia, de acordo com o Dhamma. Três ações ou carmas saudáveis da mente: contentar-se com a própria aparência e com aquilo que se possui, e alegrar-se pela aparência dos outros e pelo que as outras pessoas possuem; abandonar o entendimento de que existe um eu, um ego que comanda as nossas ações, e desenvolver a boa vontade; e, entender corretamente o Dhamma, um dos passos do Nobre Caminho Óctuplo, entender as Quatro Nobres Verdades. Para mais informações, recomendo a leitura do artigo A Meditação e o Mosquito: O Que Aprendi Sobre Concentração e Virtude.

[6] Os suttas são os ensinamentos de extensão curta, média ou longa atribuídos ao Buda. Foram inicialmente transmitidos pela tradição oral e, posteriormente, escritos em páli, um antigo idioma da Índia.

[7] Esse trecho é a resposta do Buda ao rei Pasenadi de Kosala, que disse, como forma de pôr à prova a percepção do Buda, que seus espiões disfarçados de ascetas – aquela pessoa que abandona a vida social em busca da perfeição espiritual – eram homens santos. Após a revelação da verdade pelo rei, o Buda ainda acrescentou: “Um homem não é conhecido com facilidade pela forma externa nem se deve confiar numa rápida avaliação, pois com a aparência de bem controlados homens descontrolados se apresentam neste mundo. Tal como um brinco falso feito de argila, tal como uma moeda de bronze banhada a ouro, alguns se apresentam disfarçados: impuros no íntimo, belos no exterior.”. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNIII.11.php >. Acesso em 13 jun. 2017.

[8] Esse trecho é uma história citada pelo Buda, com o propósito de demonstrar a seus discípulos que eles deveriam sempre manter o controle da mente, ainda que fossem insultados ou presenciassem alguma outra pessoa sendo insultada. O Buda ainda acrescenta mais à frente: “Bhikkhus, existem esses cinco tipos de linguagem que alguém pode usar ao se dirigirem a vocês: a fala dele poderá ser no momento adequado ou inadequado, verdadeira ou falsa, gentil ou grosseira, conectada com o benéfico ou com o prejudicial, dita com a mente cheia de amor bondade ou com raiva. Nesses casos, bhikkhus, assim é como vocês deveriam treinar: ‘Nossas mentes não serão afetadas e nós não diremos palavras ruins; nós permaneceremos compassivos pelo bem-estar dele, com a mente plena de amor bondade, sem raiva. Permaneceremos permeando aquela pessoa com a mente imbuída de amor bondade e começando com ela, permaneceremos permeando todo o mundo com a mente imbuída de amor bondade, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade.’ Assim é como vocês deveriam treinar, bhikkhus.”. Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN21.php >. Acesso em 13 jun. 2017.

Última revisão: 13 de julho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.

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As Três Características da Existência: Anicca, Dukkha e Anatta

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Introdução

Nos textos budistas da tradição Theravada é comum encontrar expressões do idioma páli, uma linguagem antiga da Índia, em que foram registradas as escrituras atribuídas ao Buda. Assim, os termos anicca, dukkha e anatta são frequentemente traduzidos como: impermanência, sofrimento e não-eu. Contudo, também é possível encontrar a seguinte tradução para esses vocábulos: transitoriedade, insatisfatoriedade e impessoalidade, respectivamente. Essa última, por sinal, se não for a mais precisa, é a que proporciona melhor entendimento.

Essas características estão presentes em todos os fenômenos da natureza, sejam aqueles considerados externos, sejam aqueles que fazem parte do nosso próprio corpo, física ou mentalmente.

Apenas a título de exemplo, quando visualizamos determinada forma que nos desperta desejo, como uma roupa, aquele objeto, por si só, é transitório, insatisfatório e impessoal. Da mesma forma, os olhos e a construção mental que alimentam esse desejo, a vontade de ter o objeto, também são transitórios, insatisfatórios e impessoais.

O interessante é que essas três características estão interligadas, e compreender uma delas, qualquer que seja, significa facilitar o entendimento das demais.

1. Anicca (impermanência ou transitoriedade)

A impermanência, anicca, é um fenômeno presente em todo o universo. Tudo tem uma origem, se transforma e, por fim, desaparece. Percebemos essa natureza transitória em todas as coisas, seja em algo considerado belo que sofre ação do tempo, seja em um som que ouvimos e logo cessa, seja em um aroma identificado que logo se dissolve no ar ou seja em um sabor apreciado que logo é saciado. Com o corpo, não é diferente: nascemos, crescemos, experimentamos sensações corporais agradáveis e desagradáveis – que também surgem e cessam –, envelhecemos, e, inevitavelmente, morreremos.

Nesse sentido, encontramos o seguinte trecho no Dicionário Budista, de Nyanatiloka [1]:

Impermanência das coisas é o surgimento, o desaparecimento e mudança das coisas, ou o desaparecimento das coisas que vieram a aparecer. O significado é que essas coisas nunca persistem da mesma forma, mas que elas estão desaparecendo e se dissolvendo momento a momento.
A impermanência é o aspecto encontrado em todos os fenômenos, seja material ou mental, grosseiro ou sutil, interno ou externo: “Todas as formações são impermanentes”. (…)

Ajahn Sumedho, por sua vez, destaca a observação da impermanência nas percepções mentais [2]:

(…) E o que podemos observar acerca de ‘como as coisas são’ é que toda a experiência sensorial é impermanente. Tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e tocamos; todas as condições mentais – os nossos sentimentos, memórias e pensamentos – são condições mentais em constante mudança, as quais surgem e cessam. (…)

A impermanência não é uma criação do budismo, é uma realidade inerente a todas as coisas, que pode ser percebida por qualquer pessoa, e assim, servir de importante ferramenta para a diminuição do desejo.

Por que desejar aquilo que é transitório, precário? Não parece, em um primeiro momento, uma escolha muito sábia. Desejar o que é impermanente significa sofrer quando se perde o objeto do desejo, ou pior, sofrer antecipadamente, antes mesmo de se conquistar o objeto do desejo, e assim, sofrer novamente depois, uma vez que a perda é inevitável, devido à natureza da impermanência.

Transcrevo, para reflexão, trecho do livro Pura Bondade, de Ajahn Candasiri [3]:

Nas nossas vidas por vezes experienciamos coisas lindíssimas. Temos também relacionamentos especiais, nos quais sentimos uma afinidade maravilhosa e um grande à-vontade com determinadas pessoas. Pode acontecer o desejo de nos agarrarmos a essas experiências. Mas precisamos compreender que a vida envolve uma espécie de implacabilidade. É annica – simplesmente continua a fluir, quer queiramos ou não.

2. Dukkha (sofrimento ou insatisfatoriedade)

O sofrimento, dukkha, se manifesta exatamente porque não temos a compreensão correta do fenômeno da impermanência. Como vivemos em um mundo em constante transformação é natural que ocorram situações inesperadas e transitórias, pois essa é a natureza do mundo. Contudo, desejamos ser bem-sucedidos profissionalmente, ter uma vida feliz, permanecer sempre com aparência agradável. Ao nos depararmos com alguma situação que interfere nesse desejo ilusório de permanência, nesse desejo ilusório de ser, ter ou permanecer, sofremos, pois não sabemos lidar com as mudanças. Não consideramos, ainda, que as situações adversas também são impermanentes, também irão passar.

Em resumo, tudo que está sujeito ao fenômeno da impermanência também é fonte de sofrimento ou insatisfatoriedade. Bases externas: formas, sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais. Bases internas: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.

Este tema é de profunda importância para o budismo e também é a primeira das Quatro Nobres Verdades. Ressalte-se, que a questão do sofrimento é frequentemente mencionada no budismo não como forma de pessimismo, mas apenas como objeto de reflexão e para que saibamos que há um caminho para a sua libertação, o Nobre Caminho Óctuplo.

3. Anatta (não-eu ou impessoalidade)

Aqui, não se busca questionar a existência do “eu” ou do “ego”. Nesse sentido, nos explica Thanissaro Bhikkhu [4]:

Não-eu (anatta): É extremamente importante que o leitor não pense equivocadamente que o Buddha ensinou que “não existe um ser” ou que “não há um eu”. Pelo contrário, ele sempre se negava a contestar perguntas sobre este assunto por considerá-las mal formadas e sempre recomendava não se empenhar em investigar: “Se existe um eu ou não”. Este termo, assim como “inconstância” (anicca) e “sofrimento” (dukkha), era ensinado pelo Buddha como ferramenta mental e “percepção” (anupassana) a ser exercitada com o objetivo de produzir certo resultado – o desapego e a despaixão na mente.

É irrelevante para o estudo obter alguma conclusão acerca da existência ou não do “eu” ou “ego”. O importante é compreender a impessoalidade presente em todos os fenômenos da natureza. Nesse sentido [5]:

ANATTA: ‘Não-self’, Não ego, sem ego, impessoalidade: é a última das Três Características da existência (ti-lakkhana, q.v.). A doutrina do Anatta ensina que nem dentro do fenômeno corporal e mental da existência, nem fora deles, pode ser encontrado qualquer coisa que no sentido último possa ser considerado como uma entidade-Ego existente por si, alma ou qualquer outra substancia exisente (sic). (…)

Ajahn Chah, por sua vez, ressalta o caráter impessoal, não-eu de sensações como a felicidade e o sofrimento [6]:

Quando consideramos o corpo ou a mente, podemos colocar ambos no mesmo “saco”, no “saco” do Transitório, Imperfeito e Não-eu – aniccam, dukkham, anatta. Eles são simples condições da Natureza, surgem, dependendo de factores de suporte, existem por um período de tempo e depois acabam. Quando existem condições apropriadas, elas voltam, existem por um período de tempo e depois acabam outra vez. Estas coisas não são um “eu”, um “ser”, um “nós” ou um “eles”. Não existe ninguém nessas coisas, apenas sensações. A felicidade não tem um “eu” intrínseco, o sofrimento não tem um “eu” intrínseco. Nenhum “eu” pode ser encontrado, pois são simples elementos da natureza que começam, existem e acabam, passando por este constante ciclo de mudança.

O “eu” ou “ego”, nada mais é do que um fenômeno condicionado, estimulado desde o nosso nascimento para reagir às situações do cotidiano e que, devido à sua natureza impermanente, em determinado momento deixará de existir [7].

Assim, acredito que o objetivo do ensinamento de anatta – não-eu, seja o de nos transmitir o entendimento de que esse “eu” ou “ego” aparente não deve ser reconhecido como uma entidade que comanda nossos pensamentos e nossas ações e, sendo assim, não é o destinatário dos objetos do desejo presentes no mundo: formas, sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais.

Quando desejamos alguma coisa porque entendemos que aquilo nos trará satisfação é irrelevante para o entendimento do “não-eu”, se o “eu” ou “ego” existe ou não. A compreensão de que não é correto desejar algo porque não existe “eu” ou “ego” é inadequada. É irrelevante se existe ou não.

É inadequado desejar algo porque o desejo também é uma construção do “eu” ou “ego” e não algo inerente à sua natureza. Por isso dizemos que todas as coisas são impessoais ou não-eu.

Nesse discurso do Buda, é possível perceber como as três características da existência estão perfeitamente relacionadas [8]:

Assim ouvi. Em certa ocasião, o Abençoado estava em Benares, no Parque do Gamo, em Isipatana. Lá ele se dirigiu ao grupo de cinco bhikkhus desta forma: “Bhikkhus” – “Venerável Senhor,” eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:
“A forma, bhikkhus, é não-eu. Pois, bhikkhus, se a forma fosse o eu, essa forma não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’ Mas porque a forma é não-eu, a forma conduz ao sofrimento e não é possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’
“A sensação é não-eu…
“A percepção é não-eu…
“As formações volitivas são não-eu…
“A consciência é não-eu. Pois, bhikkhus, se a consciência fosse o eu, essa consciência não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’ Mas porque a consciência é não-eu, a consciência conduz ao sofrimento e não é possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’
“O que vocês pensam, bhikkhus, a forma é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.
“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“… a sensação é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… a percepção é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… as formações volitivas são permanentes ou impermanentes?
“Impermanentes, senhor.
“O que vocês pensam, bhikkhus, a consciência é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.
“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“Portanto, bhikkhus, qualquer forma, quer seja do passado, futuro ou presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior, próxima ou distante: toda forma deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’
“Qualquer sensação …
“Qualquer percepção …
“Quaisquer formações volitivas …
“Qualquer consciência, quer seja do passado, do futuro ou do presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior; próxima ou distante: toda consciência deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’
“Vendo dessa forma, o nobre discípulo bem instruído se desencanta com a forma, se desencanta com a sensação, se desencanta com a percepção, se desencanta com as formações volitivas, se desencanta com a consciência. Desencantado ele se torna desapegado. Através do desapego a sua mente é libertada. Quando ela está libertada surge o conhecimento: ‘Libertada.’ Ele compreende que: ‘O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.’”
Isso foi o que o Abençoado disse. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado. E enquanto essa explanação estava sendo dada, as mentes do grupo de cinco bhikkhus, foram libertadas das impurezas através do desapego.

Notas

[1] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 22. Disponível no menu “Biblioteca”.

[2] SUMEDHO Ajahn. Plena Atenção: O Caminho Para a Imortalidade (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 9-10. Disponível no menu “Biblioteca”.

[3] CANDASIRI Ajahn, Pura Bondade (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 20. Disponível no menu “Biblioteca”.

[4] THANISSARO Bhikkhu. Estratégia Nobre: Ensaios Sobre o Caminho Budista (ed. eletrônica). EUA: Califórnia, 2016. p. 58. Disponível no menu “Biblioteca”.

[5] MAHATHERA, Nyanatiloka. Dicionário Budista: Manual de Termos Budistas e Doutrinários (ed. eletrônica). São Paulo: Casa de Dharma, 2013. p. 21. Disponível no menu “Biblioteca”.

[6] APPAMADO Bhikkhu. Folhas da Árvore Bodhi (ed. eletrônica). Reino Unido: Amaravati Publications, 2017. p. 6. Disponível no menu “Biblioteca”.

[7] Para o budismo não existe qualquer entidade eterna, permanente, seja o “eu”, o “ego” ou a “alma”. Esse entendimento pode nos levar à seguinte questão: Se esses três elementos são impermanentes o que renasce? O kamma – carma.

[8] Fonte: Acesso ao Insight. Disponível em: < http://www.acessoaoinsight.net/sutta/SNXXII.59.php >. Acesso em 9 jun. 2017.

Última revisão: 9 de junho de 2017.
Fonte da imagem: Pixabay.